Sem tratado nuclear, EUA e Rússia ampliam tensões militares e reforçam temores de corrida armamentista global; China está no centro do debate
O mundo entra em uma fase de maior instabilidade geopolítica com o fim iminente do último tratado nuclear que limitava os arsenais estratégicos de Estados Unidos e Rússia.
O acordo, conhecido como Novo START, expira nesta semana, encerrando décadas de cooperação em controle de armas e reacendendo os temores de uma nova corrida armamentista, em um contexto marcado por tensões militares, avanços tecnológicos e disputas entre grandes potências, incluindo a China.
Assinado em 2010, em Praga, o tratado nuclear estabelecia limites claros para ogivas nucleares estratégicas e mecanismos de transparência entre Washington e Moscou.
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Agora, sem um acordo substituto, especialistas alertam que o cenário abre espaço para a expansão descontrolada de arsenais e aumenta o risco de erros de cálculo em um ambiente internacional cada vez mais polarizado.
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O que muda com o fim do tratado nuclear
O Novo START limitava cada país a no máximo 1.550 ogivas nucleares estratégicas implantadas. Além disso, previa troca de dados, notificações prévias e inspeções presenciais, instrumentos considerados essenciais para evitar desconfiança mútua.
Com o término do tratado nuclear, essas salvaguardas deixam de existir. Na prática, isso significa que EUA e Rússia passam a ter liberdade para ampliar seus arsenais sem obrigações formais de transparência.
Portanto, o risco não está apenas no aumento do número de armas, mas também na redução da previsibilidade entre as duas maiores potências nucleares do planeta.
Fim de uma arquitetura construída após a Guerra Fria
O encerramento do Novo START simboliza o colapso de um sistema de controle de armas criado ao longo de mais de meio século. Desde a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, tratados internacionais buscaram reduzir a probabilidade de um conflito nuclear catastrófico.
Antes dele, o START original, assinado em 1991 pelos EUA e pela então União Soviética, proibia a implantação de mais de 6.000 ogivas por país.
Ao longo do tempo, outros acordos também foram abandonados, como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário e o Tratado de Céus Abertos. Assim, o fim do tratado nuclear atual segue um padrão preocupante de desmonte das regras globais de segurança.
Alerta internacional e apelos diplomáticos
Diante desse cenário, líderes e autoridades globais fizeram apelos públicos. Em audiência recente, o papa Leão XIV pediu que Washington e Moscou não deixassem o tratado expirar.
“É mais urgente do que nunca substituir a lógica do medo e da desconfiança por uma ética compartilhada”, afirmou.
No campo militar, o ex-chefe das Forças Armadas britânicas, Almirante Sir Tony Radakin, alertou que a arquitetura que ajudou a manter o mundo seguro “corre o risco de se desfazer”. Para ele, o colapso desses acordos é “um dos aspectos mais perigosos da nossa atual segurança global”.
Rússia, EUA e a retomada da corrida armamentista
Autoridades russas afirmaram que, com o fim do tratado nuclear, o país não estará mais vinculado a obrigações simétricas.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia declarou que Moscou pretende “agir de forma responsável e equilibrada”, mas também ressaltou que está pronta para adotar “medidas técnico-militares decisivas” para garantir sua segurança.
Já o presidente dos EUA, Donald Trump, demonstrou menos preocupação. “Se expirar, expira… Simplesmente faremos um acordo melhor”, disse ao New York Times. Enquanto isso, não houve resposta formal de Washington à proposta russa de estender os limites do tratado.
China entra no centro do debate nuclear
Um dos principais pontos de impasse para um novo tratado nuclear envolve a China. Washington defende que qualquer futuro acordo inclua Pequim, que vem expandindo rapidamente seu arsenal nuclear. Por outro lado, Moscou argumenta que França e Reino Unido também deveriam participar das negociações.
Segundo especialistas, esse impasse dificulta avanços diplomáticos. Darya Dolzikova, pesquisadora do Royal United Services Institute (RUSI), afirmou que o fim do Novo START é “preocupante, porque há motivações de ambos os lados para expandir suas capacidades estratégicas”.
Novas armas e tecnologias ampliam riscos
Enquanto o diálogo emperra, a corrida armamentista avança no campo tecnológico. EUA, Rússia e China desenvolvem mísseis hipersônicos capazes de ultrapassar 6.400 km/h, muito mais difíceis de interceptar.
Moscou também aposta em sistemas como o torpedo nuclear Poseidon e o míssil Burevestnik, projetados para superar defesas aéreas.
Para analistas, a modernização simultânea desses arsenais torna ainda mais complexa a construção de um novo tratado nuclear.
Além disso, cresce a percepção de que armas nucleares voltaram a ocupar papel central nas estratégias de dissuasão global.
Um futuro mais instável
Apesar de ainda ser possível negociar um novo acordo, o fim do tratado nuclear entre EUA e Rússia sinaliza uma era mais instável e perigosa.
Sem limites claros e sem mecanismos de confiança, o mundo se aproxima de uma nova corrida armamentista, com consequências imprevisíveis para a segurança internacional.

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