Em dez meses, as exportações de carne bovina somam 11 mil toneladas enviadas ao país vizinho, mais de vinte vezes o volume de 2024, impulsionadas por tarifas americanas, seca prolongada na Argentina, incentivos de Milei às vendas externas, falta de oferta local e boi brasileiro mais competitivo no mercado regional.
As exportações de carne bovina do Brasil para a Argentina explodiram em 2025. De janeiro a outubro, o país vizinho comprou 11 mil toneladas do produto brasileiro, um volume mais de 20 vezes maior que as 526 toneladas embarcadas no mesmo período do ano passado, segundo o Ministério da Agricultura. Embora a Argentina ainda responda por menos de 1% de tudo o que a China importa do Brasil, o salto nas vendas chamou a atenção do mercado.
Especialistas apontam um efeito combinado de tarifaço dos Estados Unidos sobre o Brasil, queda da produção argentina e carne brasileira mais barata no mercado internacional. A reconfiguração das rotas comerciais, somada à seca e a decisões de política econômica adotadas nos últimos anos em Buenos Aires, abriu espaço para que o boi nacional ganhasse terreno e, tudo indica, continue avançando em 2026.
Tarifaço dos EUA empurra a Argentina para a carne brasileira
O primeiro motor dessa mudança foi o tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre a carne brasileira a partir de abril. Antes disso, os EUA já haviam anunciado uma sobretaxa de 10% que atingiu o produto nacional. Depois, o governo Trump elevou essa sobretaxa a 50%, medida que só foi retirada em novembro.
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Com o Brasil parcialmente fora do mercado americano, a Argentina passou a exportar mais carne para os Estados Unidos e, para não desabastecer o mercado doméstico, recorreu ao produto brasileiro. O movimento fica claro nos dados: o pico das compras de carne brasileira pelos argentinos ocorreu em setembro, um mês depois da elevação da tarifa a 50%.
Enquanto isso, de janeiro a outubro, as exportações argentinas de carne caíram 10,5% em volume em relação ao mesmo período de 2024, puxadas pela menor demanda da China.
No sentido oposto, as vendas da Argentina para os EUA cresceram 7,5% no mesmo intervalo, ocupando parte do espaço deixado pelo Brasil no mercado americano.
Mesmo com o alívio recente para a carne bovina, o tarifaço ainda continua valendo para outros produtos brasileiros, como café solúvel, uva, mel e pescados, o que mantém a pressão competitiva em diferentes frentes do agronegócio.
Queda da produção argentina começa antes das tarifas
As compras da Argentina, porém, não começaram a subir apenas depois das tarifas americanas. O avanço já aparecia nos dados em fevereiro, dois meses antes da primeira sobretaxa de 10% anunciada pelos EUA contra a carne brasileira.
Segundo Fernando Henrique Iglesias, consultor da Safras & Mercados, a produção de carne na Argentina vem caindo há pelo menos dois anos.
A combinação de secas, associadas aos efeitos do fenômeno La Niña, e de custos elevados de produção levou à redução do rebanho.
No início desta década, o clima adverso afetou a taxa de prenhez das vacas, encareceu a engorda dos animais e acabou incentivando o abate de matrizes, o que encolheu o número de bovinos disponíveis.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que, de 2023 a 2025, o rebanho argentino caiu de 68,8 milhões para 67 milhões de cabeças.
A projeção para 2025 é de uma nova queda de 100 mil toneladas na produção de carne em relação a 2024, repetindo o recuo registrado no ano anterior. Com menos carne disponível, aumenta a necessidade de importar para atender o consumo interno.
Política econômica de Fernández desestimula pecuaristas
Além da seca, medidas econômicas do ex-presidente argentino Alberto Fernández ajudaram a afastar produtores da atividade.
Quatro dias depois de assumir o governo, em 2019, Fernández criou uma taxa de 9% sobre as exportações de carne bovina, estendendo a cobrança a diversos outros produtos agropecuários.
Em maio de 2021, o governo argentino foi além e suspendeu totalmente as exportações de carne por 30 dias. Para muitos pecuaristas, a mensagem era de insegurança e imprevisibilidade.
Com mais risco e menos retorno, a tendência foi reduzir investimentos, diminuir o tamanho dos rebanhos e, em alguns casos, migrar para outras atividades agrícolas.
Esse ambiente de desconfiança se somou à seca e à alta de custos, reforçando a trajetória de queda da produção local.
O resultado é um mercado doméstico estruturalmente mais apertado, em um país que tem o maior consumo de carne bovina por pessoa no mundo, o que agrava a necessidade de recorrer à carne importada para equilibrar oferta e demanda.
Milei libera exportações e acentua o buraco no mercado interno
O governo liberal de Javier Milei adotou a direção oposta à de Fernández. Na tentativa de destravar os embarques e atrair divisas, reduziu a taxa de exportação sobre a carne bovina e chegou a zerá-la entre 22 de setembro e 31 de outubro de 2025.
De acordo com Thiago Bernardino de Carvalho, responsável pela área de pecuária no Cepea USP, essas medidas estimularam o aumento das exportações argentinas, diminuindo ainda mais a oferta no mercado interno.
Com menos carne disponível para o consumidor argentino, os preços sobem e fica mais vantajoso importar do Brasil, que consegue entregar volumes grandes e regulares a custos menores.
Na prática, a estratégia de liberar exportações e enxugar a presença da carne local nas gôndolas abriu espaço direto para o produto brasileiro, que passou a ser usado para complementar o abastecimento doméstico da Argentina.
Triangulação não é ilegal e Brasil vira fornecedor de retaguarda
Lygia Pimentel, CEO da consultoria Agrifatto, explica que a retirada parcial da carne brasileira do mercado americano abriu espaço para países como Paraguai, Argentina e Austrália.
Esses grandes exportadores passaram a direcionar mais de sua própria produção para os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, aumentaram as compras de carne do Brasil para manter abastecidos os seus mercados internos.
Segundo Pimentel, não se trata de triangulação ilegal. A triangulação proibida seria comprar carne no Brasil, mandar para um terceiro país e, de lá, reexportar para os EUA como se fosse produto local.
O que ocorre, na verdade, é uma reorganização das rotas comerciais, na qual cada país usa sua própria produção para atender mercados mais valorizados e recorre à carne brasileira como retaguarda para o consumo interno.
Esse arranjo reforça o papel do Brasil como grande fornecedor de carne bovina de reposição, especialmente em momentos de aperto de oferta e de mudança regulatória em outros países.
Carne brasileira é a mais barata entre os grandes exportadores
Outro fator central para o avanço das exportações de carne bovina brasileiras à Argentina é o preço. De acordo com dados da Agrifatto, o boi no Brasil custa em média 61 dólares, abaixo dos 74,8 dólares praticados na Argentina.
No Uruguai, a cotação chega a 75,7 dólares, enquanto no Paraguai fica em 64,5 dólares.
Na visão de Thiago Carvalho, do Cepea, isso ajuda a explicar por que, além de ser um país vizinho, o Brasil se tornou a opção mais barata para os argentinos na hora de completar a oferta de carne.
Com a produção local em queda e um ambiente de forte consumo, a combinação de proximidade geográfica, volume disponível e preço competitivo torna o produto brasileiro especialmente atraente.
Embora as compras argentinas tenham recuado em outubro na comparação com o pico de setembro, o patamar ainda se manteve bem acima do registrado um ano antes, e os dados de novembro ainda não estavam disponíveis quando os especialistas foram ouvidos.
Perspectivas: tendência é de continuidade do avanço em 2026
Para Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercados, a perspectiva é que o Brasil siga aumentando as vendas para a Argentina.
Com a produção argentina devendo permanecer deprimida em 2026, a necessidade de importação tende a continuar elevada, especialmente se o país mantiver a política de estímulo às exportações.
Nesse cenário, as exportações de carne bovina do Brasil para o mercado argentino devem permanecer em alta, ainda que a participação da Argentina no total embarcado pelo Brasil siga pequena quando comparada à China.
O episódio, porém, reforça como decisões climáticas, econômicas e comerciais podem redesenhar em poucos meses o mapa dos fluxos globais de carne bovina.
Diante desse cenário de tarifaço, seca na Argentina e boi brasileiro mais barato ganhando espaço lá fora, você acha que o Brasil deveria aproveitar o momento para consolidar ainda mais as exportações de carne bovina para a Argentina ou focar em diversificar outros mercados estratégicos?

O Brasil deve diversificar o máximo possível seus mercados consumidores.
Acredito que o Brasil deve continuar diversificando seus mercados consumidores e não depender unicamente de um mercado principal, pois depender do bom humor de governantes de países é muito arriscado. Hoje os Estados Unidos boicotam os produtos brasileiros e o Brasil recorre a China. E amanhã ou depois se os chineses boicotarem os produtos brasileiros? A quem vamos recorrer?
Daí a importância da diversificação de mercados.