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EUA mira acelerar extração de minerais na Venezuela e organizações de narcotráfico também; mineração ilegal multibilionária devasta povos indígenas e a Amazônia paga o preço

Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 24/01/2026 às 09:20
Trump Wants to Accelerate Extraction in Venezuela. So Do Drug Trafficking Organizations. The U.S. is pulling out of organizations aimed at stopping the harm
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Em Venezuela, o governo Trump realizou uma ofensiva em Caracas em 3 de janeiro mirando combater narcotráfico e venda ilegal de petróleo, enquanto a mineração ilegal no sul do país movimenta bilhões, usa mercúrio, alimenta crime organizado e agrava violações denunciadas pela ONU.

Em junho de 2022, homens armados atiraram três vezes na cabeça de Virgilio Trujillo Arana, na capital do estado venezuelano de Amazonas. Ele era um líder indígena Uwottüja e dedicou anos à defesa da floresta contra a mineração ilegal, que avançou e transformou a proteção ambiental em atividade de alto risco.

O assassinato dele foi o 32º caso documentado de morte de defensor indígena ou ambiental na Venezuela em um período de oito anos encerrado em 2022. Com a expansão da extração ilícita, grupos criminosos passaram a perseguir quem atrapalha o lucro, e a violência chegou a comunidades inteiras.

Em 3 de janeiro, os Estados Unidos atacaram Caracas e colocaram as reservas de petróleo da Venezuela no centro da disputa geopolítica. Fora desse foco, seguem crises ambientais e de direitos humanos que cresceram durante o governo de Nicolás Maduro e continuam afetando povos indígenas e regiões protegidas.

Há registro de dezenas de milhares de derramamentos de óleo que contaminaram rios e água potável, degradaram ecossistemas e deslocaram comunidades. Paralelamente, a mineração ilegal virou uma fonte chave de renda para o regime e para organizações criminosas, incluindo o Exército de Libertação Nacional, o ELN, da Colômbia.

Cristina Vollmer de Burelli, venezuelana e fundadora da SOS Orinoco, afirma que a Venezuela passou 27 anos destruindo o Estado de direito e violando direitos humanos e ambientais. Segundo ela, o governo não só tolera economias ilícitas ligadas à devastação ambiental, ele dirige e controla essas atividades.

Arco de Mineração do Orinoco cresceu após queda do petróleo em 2014 e virou alvo de grupos transnacionais

A receita do petróleo começou a cair por volta de 2014 e Nicolás Maduro buscou outra fonte de dinheiro. A resposta veio com a criação do Arco de Mineração do Orinoco, uma enorme faixa de território ao sul do rio Orinoco, lançada para atrair investimento estrangeiro.

Empresas internacionais se afastaram diante da presença de organizações criminosas transnacionais na região. Em 2018, segundo Vollmer de Burelli, o governo tentou usar os militares para retomar controle da área, mas generais não quiseram entrar por medo de um conflito interno sangrento.

A saída foi terceirizar o controle do território para o ELN. Segundo ela, o grupo entrou, matou pessoas, tomou as minas e manteve o comando. O resultado surpreendeu pela permanência do domínio: o ELN teria consolidado uma estrutura de controle que segue ativa na região.

Ouro extraído com bombas e mercúrio envenena rios, eleva doenças e destrói florestas em escala brutal

A mineração ilegal no sul da Venezuela gira principalmente em torno do ouro, mas também envolve bauxita, diamantes e outros materiais. Para retirar ouro, bombas de alta pressão e máquinas pesadas destroem leitos de rios e abrem crateras. Depois, o material é misturado com mercúrio para separar o metal precioso.

O mercúrio vai para o ar, para a floresta e para os rios. O impacto é imediato: ecossistemas inteiros ficam contaminados, e comunidades perdem água segura para beber e pescar.

Estudos indicam que até 90 por cento das mulheres indígenas no Arco de Mineração do Orinoco apresentam níveis perigosamente altos de mercúrio, associado a problemas neurológicos e outros danos de saúde.

Em áreas de mineração, a pressão econômica empurra moradores para a cadeia ilegal, direta ou indiretamente. Quem tenta ficar fora enfrenta um dilema: em alguns lugares, o dinheiro circula em ouro, e até compras simples passam por balanças usadas para pesar pó ou pepitas.

Violência e abuso viraram regra, prostituição forçada, trabalho infantil e mutilações se espalham

Nos arredores dos garimpos, a violência ganhou escala. A prostituição forçada e a escravidão sexual cresceram em torno de acampamentos de mineração. Crianças com apenas 10 anos trabalham em minas sem equipamentos de proteção.

A destruição ambiental também teve consequência sanitária. Em alguns municípios de mineração, casos de malária subiram mais de 500 por cento, segundo o relato apresentado sobre a região.

Quem resiste à mineração ilegal corre risco real de morte. Há relatos de pessoas que tiveram mãos, pés e até membros inteiros cortados com facões, além de outros tipos de tortura.

Uma missão internacional da ONU reuniu depoimentos e evidências sobre a dinâmica de terror em áreas de mineração. Um trabalhador contou ter visto membros de grupo criminoso acusarem um garoto chamado Manuel de não pagar a taxa para trabalhar. Ele colocou a mão em um tronco e teve a mão cortada. Segundo o relato, isso acontecia a cada duas ou três semanas.

Outro caso envolve um jovem de 19 anos acusado de roubar ouro. Ele sofreu mutilação nas mãos, nos olhos e em parte da língua.

A violência sexual também aparece como prática recorrente. Um minerador relatou que, quando um integrante de gangue queria uma mulher, ela não tinha como recusar, e mães chegaram a implorar para serem levadas no lugar das filhas.

Amazonas proíbe mineração, mas parque nacional foi invadido e um tepuy sofreu perfuração em 2019

No estado de Amazonas, toda mineração é proibida por lei. Mesmo assim, há avanço de garimpos ilegais em áreas de parques nacionais e territórios considerados sagrados por povos indígenas.

Um dos casos mais chocantes envolve o Parque Nacional Yapacana, conhecido por seu tepuy, uma montanha em forma de mesa que abriga espécies únicas evoluídas em isolamento por milhões de anos.

Em 2019, moradores denunciaram que garimpeiros perfuraram o topo do tepuy atrás de ouro. A SOS Orinoco confirmou os danos com imagens de satélite de alta resolução da empresa Maxar.

Para quem conhece a região, o choque é visual. A mineração a céu aberto no topo de um tepuy muda o sentido do que se entende como devastação na Amazônia.

ONU registrou quase 2.000 vítimas entre 2014 e 2022, mais de 800 mortes possíveis e 1 quarto ligado a agentes do Estado

Autoridades venezuelanas bloquearam a entrada de especialistas jurídicos e de direitos humanos ligados a uma missão de apuração da ONU. Mesmo assim, o grupo publicou em 2022 um relatório com base em visitas a áreas de fronteira, entrevistas com vítimas e testemunhas, evidências documentais, dados comerciais e outras fontes.

O levantamento apontou quase 2.000 supostas vítimas de violações e crimes entre 2014 e 2022. Dentro desse total, há mais de 800 possíveis mortes violentas. Aproximadamente um quarto dessas mortes teria sido cometido por agentes do governo.

A combinação de impunidade, intimidação e violência reforça a percepção de que autoridades e organizações criminosas atuam juntas para controlar e lucrar com operações de mineração.

Cortes da USAID e saída dos EUA de órgãos da ONU elevam alerta sobre direitos indígenas e fiscalização internacional

A cooperação internacional teve papel crucial na documentação de crimes, na pressão sobre autoridades e no combate a redes criminosas que atravessam fronteiras na floresta. Só que esse apoio sofre impacto com decisões recentes do governo Trump.

O governo Trump esvaziou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, a USAID, que trabalhava para reduzir mineração ilegal e apoiar comunidades afetadas. Em fevereiro do ano passado, Trump retirou novamente os Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos da ONU, órgão que autorizou a missão de apuração sobre a Venezuela.

Na quarta feira citada no caso, Trump anunciou a saída dos Estados Unidos de mais de 60 organizações e tratados internacionais, muitos ligados a direitos humanos, proteção ambiental, promoção de democracia e fortalecimento do Estado de direito.

A ex representante especial do Departamento de Estado para equidade racial e justiça, Desirée Cormier Smith, alertou para o risco de aprofundamento de abusos na Venezuela e em outros lugares. Para ela, órgãos internacionais funcionam como rede de proteção quando o próprio governo é violador, porque oferecem mecanismos para registrar crimes e preservar provas que podem servir à responsabilização no futuro.

Ela também alerta para o risco de empresas ignorarem o direito de povos indígenas a consulta em projetos que afetem seus territórios, principalmente quando há pressão por extração rápida.

Entre as instituições das quais Trump anunciou saída, está o Conselho Econômico e Social, que abriga o Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas, espaço central para denúncias e debates sobre direitos humanos, terras e projetos de desenvolvimento.

Cormier Smith também aponta que saídas desse tipo podem significar menos reconhecimento de decisões e acordos internacionais, incluindo a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

Delcy Rodríguez assume após saída de Maduro, e ONG teme que o ecocídio continue e piore

Com a remoção de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez assumiu a liderança do país. Ela é vista como aliada histórica do ex presidente, foi sancionada por múltiplos países e mantém proximidade com autoridades acusadas de corrupção e de violações de direitos humanos.

A SOS Orinoco afirma que Delcy Rodríguez ajudou a transformar o sul da Venezuela em uma máquina violenta de extração patrocinada pelo Estado. Para a organização, a troca de Maduro por Rodríguez é um mau sinal para o meio ambiente e aumenta o temor de que o ecocídio siga e se agrave.

No meio desse cenário, a líder indígena Pemón Lisa Henrito resume a crise com uma frase que pesa: quando um governo não protege seus cidadãos, ele falha como governo.

Ela descreve a pressão sobre comunidades indígenas, a fuga para países vizinhos, o deslocamento interno e a perda de vínculos com terras onde famílias nasceram e criaram seus filhos.

E lembra que, na floresta, existem regras, e quem chega para tomar território sem respeitar essas regras cria um conflito que não termina rápido.

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Flavia Marinho

Flavia Marinho é Engenheira pós-graduada, com vasta experiência na indústria de construção naval onshore e offshore. Nos últimos anos, tem se dedicado a escrever artigos para sites de notícias nas áreas militar, segurança, indústria, petróleo e gás, energia, construção naval, geopolítica, empregos e cursos. Entre em contato com flaviacamil@gmail.com ou WhatsApp +55 21 973996379 para correções, sugestão de pauta, divulgação de vagas de emprego ou proposta de publicidade em nosso portal.

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