Pesquisa publicada na revista Nature mostra que a seleção natural continuou moldando o DNA humano nos últimos 10 mil anos e identificou centenas de variantes genéticas associadas a características presentes na população atual.
A evolução humana continua em andamento e pode estar ocorrendo em um ritmo mais acelerado do que o imaginado. Essa é a principal conclusão de um estudo liderado por Ali Akbari, da Universidade de Harvard, em colaboração com pesquisadores do Broad Institute do MIT e instituições europeias. O trabalho foi publicado na revista científica Nature após sete anos de pesquisa.
Além disso, os cientistas analisaram os genomas completos de aproximadamente 16 mil indivíduos que viveram na Europa e na Ásia Ocidental, desde cerca de 10 mil anos atrás até os dias atuais.
Estudo identificou centenas de variantes genéticas
Inicialmente, o objetivo foi identificar casos de seleção direcional, um processo da seleção natural que favorece determinadas características ao longo das gerações.
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Como resultado, 479 variantes alélicas foram identificadas. Até então, apenas cerca de 20 casos claros desse tipo de seleção haviam sido documentados no genoma humano.
Além disso, mais de 60% dessas variantes foram associadas a características observadas nas populações atuais.
Características físicas também foram influenciadas pela seleção natural
Segundo os pesquisadores, a seleção natural deixou marcas até mesmo em características físicas consideradas inesperadas.
Entre elas, destacam-se:
- Cabelo ruivo;
- Pele clara;
- Tipo sanguíneo B;
- Maior resistência ao HIV;
- Maior resistência à hanseníase.
Ao mesmo tempo, outras características apresentaram redução ao longo da evolução.
Entre elas estão:
- Predisposição masculina à calvície;
- Risco de artrite reumatoide.
Predisposição à calvície apresentou redução ao longo dos últimos 7 mil anos
De acordo com os resultados, foi observado que homens com predisposição genética à calvície tiveram menor probabilidade de reprodução durante aproximadamente os últimos 7 mil anos.
Entretanto, os autores destacam que essa associação não significa, necessariamente, que a calvície tenha sido a causa direta desse resultado.
Agricultura mudou o rumo da evolução humana
Segundo o estudo, um dos principais pontos de mudança ocorreu há cerca de 10 mil anos, quando diversas populações deixaram o estilo de vida de caçadores-coletores e passaram a desenvolver a agricultura.
A partir desse período, as pressões seletivas sofreram alterações importantes.
Entre os fatores apontados pelos pesquisadores estão:
- mudanças na alimentação;
- convivência com animais domesticados;
- aumento da densidade populacional;
- surgimento de novas doenças.
Consequentemente, o genoma humano foi adaptado de forma mais rápida do que se imaginava, segundo a pesquisa.
Idade do Bronze também marcou novas adaptações genéticas
Posteriormente, durante a Idade do Bronze, novas mudanças foram registradas.
Conforme a análise do DNA antigo, variantes relacionadas ao sistema imunológico, aos processos inflamatórios e ao metabolismo passaram por rápida seleção naquele período.
Assim, o estudo aponta que a reorganização social e biológica ocorrida na Europa também influenciou a evolução genética.
Pesquisadores fazem importante ressalva sobre os resultados
Por outro lado, os autores enfatizam que correlação genética não representa causalidade evolutiva.
Ou seja, o fato de uma variante estar associada a determinada característica não significa que ela tenha sido favorecida exatamente por essa característica.
Além disso, o estudo ressalta que alguns genes exercem múltiplas funções, enquanto determinadas características também podem depender de outras variáveis.
Da mesma forma, associações atuais entre variantes genéticas e fatores sociais, como renda ou escolaridade, não podem ser extrapoladas para períodos históricos, como o Neolítico, quando essas condições simplesmente não existiam.
Evolução significa adaptação, e não perfeição biológica
Por fim, os pesquisadores reforçam que a seleção natural não conduz os seres humanos a um modelo biológico perfeito.
Em vez disso, as adaptações são favorecidas conforme as necessidades de cada período histórico, aumentando as chances de sobrevivência das populações ao longo do tempo.
