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Estudo brasileiro acha sinal químico que denuncia estrelas que comeram planeta: análise de estrelas gêmeas revela excesso de berílio resistente a 3,5 milhões °C, detectado por telescópio de 8,2 metros, e levanta dúvidas sobre a raridade de sistemas como o Solar.

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 18/06/2026 às 19:09
Atualizado em 18/06/2026 às 19:30
Estudo da USP identifica sinal químico em estrelas que podem ter engolido planetas e levanta dúvidas sobre a raridade do Sistema Solar.
Estudo da USP identifica sinal químico em estrelas que podem ter engolido planetas e levanta dúvidas sobre a raridade do Sistema Solar.
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Sinal químico raro encontrado em estrelas gêmeas pode revelar episódios antigos de ingestão planetária e ampliar o debate sobre a estabilidade de sistemas solares, a formação de planetas rochosos e as condições necessárias para mundos capazes de preservar vida por longos períodos.

Astrônomos liderados por Anne Rathsam, do IAG/USP, identificaram um sinal químico capaz de ajudar na busca por estrelas que engoliram material rochoso de planetas.

Publicado em 2026 na revista Astronomy & Astrophysics, o estudo analisou o par binário HD 129171 e HD 129209, formado por duas estrelas consideradas “gêmeas”.

Como nasceram da mesma nuvem de gás e poeira, elas deveriam apresentar composições químicas muito parecidas, mas a comparação revelou diferenças importantes.

Essa variação reforça a hipótese de que uma das estrelas incorporou material planetário ao longo de sua história, deixando marcas detectáveis em sua composição.

O principal indício observado pelos pesquisadores está no berílio, elemento difícil de medir e considerado uma assinatura mais duradoura da ingestão de planetas rochosos.

Além dele, a equipe também avaliou lítio, ferro e outros elementos químicos, em busca de padrões capazes de diferenciar uma origem natural de uma contaminação por material externo.

Berílio ajuda a rastrear planetas engolidos

Na comparação entre as duas estrelas, HD 129171 aparece mais rica em materiais refratários do que HD 129209.

Estudo da USP identifica sinal químico em estrelas que podem ter engolido planetas e levanta dúvidas sobre a raridade do Sistema Solar.
Estudo da USP identifica sinal químico em estrelas que podem ter engolido planetas e levanta dúvidas sobre a raridade do Sistema Solar.

Esses elementos costumam formar sólidos e estão entre os principais componentes de planetas rochosos, como a Terra, além de integrarem os núcleos de planetas gigantes.

O padrão químico acompanha a temperatura de condensação dos elementos, o que torna a diferença entre as estrelas mais expressiva justamente nos materiais associados a rochas.

Em termos práticos, quanto mais refratário é o elemento analisado, maior tende a ser a distância química entre as duas estrelas, comportamento compatível com a adição de material rochoso.

Entre os elementos avaliados, lítio e berílio chamaram atenção porque não são produzidos no interior dessas estrelas.

Quando surgem em excesso, eles podem indicar que material externo foi incorporado depois da formação estelar.

A diferença entre os dois está na resistência ao calor interno.

Enquanto o lítio se destrói em temperaturas mais baixas, o berílio permanece por mais tempo e pode preservar a assinatura química do evento.

Segundo o estudo, a diferença de berílio entre as duas estrelas pode servir como diagnóstico de episódios de ingestão de material rochoso.

A pesquisa também aponta que o padrão observado é compatível com a absorção de cerca de 11,2 massas terrestres de material rochoso.

Telescópio no Chile mediu a composição das estrelas

Para chegar ao resultado, os pesquisadores analisaram espectros obtidos com o instrumento UVES, ligado ao Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul, no Chile.

Formado por telescópios de 8,2 metros, o VLT permite observar objetos distantes com alta precisão e separar a luz das estrelas em diferentes frequências.

Imagem das estrelas gêmeas HD 129171 e HD 129209. — Foto: Digital Sky Survey via Aladin/Anne Rathsam
Imagem das estrelas gêmeas HD 129171 e HD 129209. — Foto: Digital Sky Survey via Aladin/Anne Rathsam

A partir dessa decomposição, os cientistas conseguem identificar marcas deixadas por elementos químicos e comparar, com grande nível de detalhe, a composição de estrelas muito semelhantes.

No par HD 129171 e HD 129209, as abundâncias de elementos voláteis permanecem parecidas, como esperado em estrelas formadas no mesmo ambiente.

A diferença aparece com mais força nos elementos refratários, justamente aqueles mais associados a material rochoso e à formação de planetas sólidos.

Assinado por Anne Rathsam, Jorge Meléndez, Rodolfo Smiljanic, Fan Liu e Lorenzo Spina, o trabalho reúne pesquisadores ligados a instituições do Brasil, Alemanha, Itália, Polônia, China e Austrália.

Estrelas gêmeas e a busca por vida fora da Terra

A descoberta ajuda a esclarecer uma dúvida antiga sobre estrelas binárias quimicamente diferentes.

Uma explicação possível era que a nuvem original de formação não fosse tão homogênea quanto se imaginava.

Outra possibilidade envolvia a ingestão de planetas ou de corpos rochosos por uma das estrelas depois de sua formação.

Com a detecção de berílio, a segunda hipótese ganha força no caso do par HD 129171/HD 129209.

Ainda assim, o estudo não permite afirmar se o material veio de um planeta grande ou de vários corpos menores, já que tudo se mistura nas camadas externas da estrela.

Também não há uma data exata para o evento de ingestão.

A presença de lítio e berílio indica que a assinatura química ainda não foi completamente apagada pelos processos internos da estrela, mas a estimativa temporal depende de modelos teóricos com incertezas.

A relevância da pesquisa vai além da química estelar.

Se muitos sistemas planetários forem instáveis a ponto de perder planetas para suas estrelas, sistemas organizados como o Solar podem ser menos comuns do que parecem.

Essa hipótese ainda depende de novas medições em outros pares binários.

No Sistema Solar, os oito planetas mantêm órbitas quase circulares e estáveis, característica importante para preservar ambientes planetários por longos períodos.

A comparação importa porque planetas com órbitas estáveis oferecem condições mais favoráveis a processos lentos, como a evolução da vida complexa.

Ao transformar o berílio em uma pista observacional, o estudo abre caminho para investigar eventos que, até agora, eram difíceis de comprovar.

Com medições semelhantes, astrônomos podem avaliar se outras estrelas quimicamente anômalas também carregam sinais de antigos planetas rochosos.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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