Projeção do Instituto Trata Brasil indica que cidades brasileiras terão racionamentos mais longos e frequentes até 2050, com perdas de água de 40 por cento, rios sob pressão e Nordeste e Centro Oeste podendo passar 30 dias seguidos com torneiras secas em cenários de calor extremo para milhões de pessoas
Em dezembro de 2025, um estudo do Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria Exante acendeu um sinal de alerta para as cidades brasileiras. O relatório aponta que, se nada for feito para reduzir perdas, ampliar a eficiência e adaptar sistemas de abastecimento às mudanças climáticas, o país pode chegar a 2050 com uma média de 12 dias de racionamento de água por ano, afetando residências, comércio, indústria e serviços essenciais.
Divulgado com o título “Demanda futura por água em 2050: desafios da eficiência e das mudanças climáticas”, o material mostra que o quadro é ainda mais preocupante em regiões como Nordeste e Centro Oeste. Nesses territórios, cidades brasileiras podem acumular até 30 dias seguidos com torneiras secas em cenários de crescimento populacional acelerado, urbanização intensa e aumento da temperatura média global, combinados a redes de distribuição ineficientes.
Estudo projeta dias de racionamento para 2050 em todo o país

O levantamento do Instituto Trata Brasil e da Exante avalia o comportamento da demanda de água em todas as regiões do Brasil até 2050, cruzando projeções de população, consumo e disponibilidade hídrica.
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A conclusão central é direta: em média, as cidades brasileiras enfrentariam 12 dias de racionamento de água por ano em 2050, caso as atuais tendências sejam mantidas.
Segundo o estudo, esse quadro não se restringe a municípios já acostumados ao racionamento.
A combinação de crescimento populacional, avanço da urbanização, perdas elevadas na distribuição e aumento da temperatura média do planeta cria um cenário em que a pressão sobre os sistemas de abastecimento se espalha por diferentes portes de cidades brasileiras, do interior às capitais.
Nordeste e Centro Oeste concentram maior risco de torneiras secas
Embora a projeção média seja de 12 dias por ano, o estudo ressalta que Nordeste e Centro Oeste aparecem como as regiões mais vulneráveis.
Nessas áreas, a menor disponibilidade de água tratada para a população aumenta a probabilidade de interrupções prolongadas no fornecimento.
O relatório indica que, em cenários críticos, cidades brasileiras dessas duas regiões podem chegar a 30 dias de falta de fornecimento de água em 2050, especialmente se as perdas continuarem altas e se houver crescimento econômico e populacional sem investimentos compatíveis em infraestrutura.
O documento lembra que muitas localidades já enfrentam poços secando e restrições de acesso à água tratada.
No caso do Nordeste, o estudo destaca que apenas 75 por cento da população têm acesso à água tratada e que a região perde 46,2 por cento de todo o volume de água produzido antes que ele chegue às residências.
Para as cidades brasileiras nordestinas, isso significa operar com um sistema que desperdiça quase metade do recurso mesmo antes de chegar à torneira, elevando a chance de racionamentos prolongados.
Perdas na distribuição drenam 40 por cento da água produzida
Um dos pontos mais críticos do diagnóstico é o nível de perdas na etapa de distribuição.
Em média, 40 por cento de toda a água potável produzida no país se perde entre a saída dos sistemas de tratamento e a chegada às torneiras, seja por vazamentos, ligações clandestinas ou ineficiência operacional das redes.
Em algumas áreas, especialmente na Região Norte, essa taxa se aproxima de 50 por cento, o que significa que metade da água tratada não chega ao consumidor final.
Para as cidades brasileiras, isso representa um duplo custo: gasta-se energia, produtos químicos e infraestrutura para tratar um volume que não será efetivamente consumido, ao mesmo tempo em que a população convive com o risco crescente de racionamento.
O documento do Instituto Trata Brasil alerta que, se nenhuma medida estrutural for adotada, será necessário captar 60 por cento a mais de água dos rios até 2050 para atender à demanda prevista.
Como muitos cursos d’água já operam sob forte pressão, essa estratégia amplia o risco de degradação ambiental e de conflitos pelo uso da água em diferentes setores produtivos.
Calor maior, consumo maior e rios com menos volume
A presidente executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, enfatiza que o aumento da temperatura máxima do planeta até 2050 está diretamente ligado ao risco de falta de água nas cidades brasileiras.
Segundo ela, o estudo considera uma tendência de elevação de 1 °C na temperatura máxima e mostra como isso altera simultaneamente demanda e oferta.
De um lado, mais calor significa aumento do consumo, com maior uso de água em residências, serviços, irrigação urbana e atividades produtivas.
De outro, o relatório destaca uma tendência de redução no volume de água dos rios da ordem de 3,4 por cento ao ano, comprometendo a capacidade dos mananciais de abastecer sistemas urbanos já pressionados por perdas e pela expansão das redes.
Nesse contexto, cidades brasileiras que hoje não registram racionamentos frequentes podem passar a conviver com interrupções sazonais, especialmente em ondas de calor mais severas.
A combinação entre demanda crescente, rios menos volumosos e redes ineficientes torna o sistema mais frágil diante de variações climáticas e estiagens prolongadas.
Desafios para as cidades brasileiras e para a política de água
O estudo do Instituto Trata Brasil funciona como um roteiro de riscos, mas também como um mapa de prioridades para gestores públicos.
O diagnóstico deixa claro que reduzir perdas na distribuição é uma das medidas mais imediatas e eficientes para aliviar a pressão sobre os sistemas de abastecimento.
Para as cidades brasileiras, isso significa investir em monitoramento de redes, manutenção de tubulações, combate a vazamentos e modernização de sistemas de medição e controle, evitando que 40 por cento ou mais da água tratada se perca pelo caminho.
Em paralelo, o relatório sugere que políticas de eficiência no consumo e de adaptação às mudanças climáticas precisam ser incorporadas ao planejamento urbano.
A mensagem de fundo é que não basta captar 60 por cento a mais de água dos rios.
Sem reduzir desperdícios, ampliar o acesso à água tratada nas regiões mais vulneráveis e fortalecer a governança sobre o recurso, o país pode chegar a 2050 com cidades brasileiras mais quentes, com mais gente e com sistemas de abastecimento sujeitos a racionamentos recorrentes.
Diante desse cenário, na sua opinião, a prioridade das cidades brasileiras deveria ser investir primeiro na redução das perdas de água nas redes ou na construção de novas estruturas de captação em rios e reservatórios?

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