Perdas do campo à geladeira mostram como o desperdício de alimentos encarece produtos, amplia impactos ambientais e revela um contraste grave com a insegurança alimentar no país
O desperdício de alimentos no Brasil revela uma contradição difícil de ignorar. De um lado, toneladas de comida se perdem no campo, no varejo e dentro das casas. Do outro, quase 7 milhões de pessoas passam fome, segundo o IBGE.
A Organização das Nações Unidas estima que cerca de 1 bilhão de toneladas de alimentos sejam desperdiçadas no mundo todos os anos. No Brasil, o cenário ganha peso ainda maior porque 18,9 milhões de famílias vivem algum grau de insegurança alimentar.
O problema, portanto, não representa apenas comida jogada fora. O desperdício também pressiona preços, gera prejuízos econômicos e amplia danos ambientais. Dados de 2020 do Banco Mundial indicam que o desperdício global movimenta uma perda anual de US$ 1 trilhão.
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Perdas no campo expõem falhas antes da colheita chegar ao mercado
As perdas começam ainda nas lavouras, onde planejamento, técnica e acesso ao mercado fazem diferença. Segundo Gustavo Porpino, pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios, produtos perecíveis precisam de venda rápida para evitar descarte.
Alface, morango e banana, por exemplo, exigem destino certo logo após o ponto ideal de colheita. Mudanças climáticas, secas, chuvas intensas, pragas e doenças também prejudicam a produção e aumentam o volume perdido.
A falta de tecnologia reduz a conservação dos alimentos e compromete a eficiência da colheita. O padrão estético exigido pelo mercado também pesa, já que frutas e verduras com manchas ou formatos diferentes perdem valor comercial.

Transporte inadequado e excesso de produção aumentam o desperdício
Safras muito altas podem deixar alimentos sobrando no campo. O produtor, muitas vezes, não encontra compradores suficientes ou enfrenta preços baixos demais para compensar os custos da colheita.
A logística inadequada amplia o problema. Hortaliças transportadas sem refrigeração chegam aos pontos de venda com qualidade reduzida. Caixas e embalagens impróprias também danificam frutas e verduras durante o trajeto.
Investimentos em técnica, conservação e transporte podem reduzir parte relevante dessas perdas. A solução, porém, exige organização da cadeia produtiva e maior integração entre agricultores, distribuidores e varejistas.
Varejo e restaurantes também entram na conta das perdas
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que varejo e restaurantes desperdicem 427 milhões de toneladas de alimentos. Nas lojas, o excesso de oferta e a exigência visual dos consumidores aumentam o descarte.
A venda consignada agrava esse cenário. Nesse modelo, o varejista paga apenas pelos itens vendidos. Frutas que estragam na loja podem virar prejuízo para o produtor, mesmo depois de expostas nas prateleiras.
Grandes volumes, assim, podem ser comprados sem cálculo real da demanda. Iniciativas de doação, por outro lado, ajudam a recolher alimentos em boas condições e destiná-los a instituições sociais.
Cultura da fartura transforma geladeiras cheias em comida perdida
A maior parte do desperdício acontece dentro das residências. Segundo o Pnuma, as casas descartaram 631 milhões de toneladas de alimentos em 2022.
A responsabilidade, porém, não está apenas no consumidor. Muitos produtos chegam às prateleiras com vida útil curta após longos trajetos, transporte inadequado ou armazenamento ruim.
Hábitos culturais também aumentam o descarte. Segundo Maria Siqueira, cofundadora e diretora-executiva do Pacto Contra a Fome, a busca por fartura estimula compras sem planejamento. O hábito de estocar comida também faz alimentos serem esquecidos no fundo da geladeira.
Desperdício encarece alimentos e amplia impactos ambientais
Segundo Daniela Teston, diretora de relações corporativas do WWF-Brasil, o varejo calcula perdas no preço final dos produtos. Dessa forma, o consumidor também paga por parte da comida que se perde.
Alimentos descartados ainda geram gases de efeito estufa, como o metano. Durante a decomposição, eles também produzem chorume, que pode contaminar o lençol freático.
Reduzir o desperdício de alimentos pode baratear itens básicos, proteger o meio ambiente e melhorar o acesso à nutrição. Diante de tanta comida perdida, como o Brasil ainda convive com milhões de pessoas sem alimentação adequada todos os dias?

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