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Enquanto o fim da escala 6×1 vira debate nacional, brasileiros trabalham quase 2 mil horas por ano, têm a 4ª maior jornada da América do Sul e ainda vivem em um dos países mais desiguais da região, mostrando que trabalhar demais não significa distribuir melhor a renda

Escrito por Ana Alice
Publicado em 04/06/2026 às 23:50
Atualizado em 04/06/2026 às 23:53
Brasil soma quase 2 mil horas de trabalho por ano e alta desigualdade enquanto PEC da escala 6x1 avança no Congresso. (Imagem: Ilustrativa)
Brasil soma quase 2 mil horas de trabalho por ano e alta desigualdade enquanto PEC da escala 6×1 avança no Congresso. (Imagem: Ilustrativa)
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Dados sobre jornada anual, desigualdade e a PEC da escala 6×1 colocam o Brasil em posição de destaque no debate sobre trabalho, renda e produtividade na América do Sul.

O Brasil está entre os países da América do Sul com jornadas de trabalho mais longas e, ao mesmo tempo, aparece entre os mais desiguais da região.

Dados da plataforma Our World in Data indicam que os brasileiros trabalharam, em média, 1.993,72 horas em 2023, o equivalente a quase 2 mil horas por ano.

Na comparação sul-americana disponível na base, o país fica atrás de Colômbia, Peru e Paraguai.

O dado ganhou relevância em meio ao debate sobre a escala 6×1, modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de expediente e tem um dia de descanso.

A discussão avançou no Congresso Nacional.

Em 27 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, uma PEC que limita a jornada a 40 horas semanais e prevê dois dias de descanso por semana.

Depois da votação na Câmara, o texto seguiu para análise do Senado.

A relação entre trabalhar mais e distribuir melhor a renda, no entanto, não aparece de forma automática nos indicadores.

O Brasil mantém uma carga anual elevada e também registra um dos maiores níveis de concentração de renda da América do Sul, conforme dados da Our World in Data e da Plataforma de Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial.

O Índice de Gini, usado para medir a desigualdade, varia de 0 a 1.

Quanto mais próximo de 1, maior é a concentração de renda.

Na leitura regional citada no levantamento, o Brasil registra Gini em torno de 0,50, abaixo apenas da Colômbia, com cerca de 0,54.

Segundo especialistas em economia do trabalho, os números indicam que jornadas extensas não significam, necessariamente, melhora na distribuição da renda.

A comparação entre países depende de fatores como produtividade, informalidade, composição do mercado de trabalho, legislação trabalhista e nível de qualificação das ocupações.

Brasil tem a 4ª maior jornada anual da América do Sul

A média brasileira de quase 2 mil horas anuais fica abaixo da registrada na Colômbia, que aparece com 2.471 horas por trabalhador ao ano.

Peru, com 2.143 horas, e Paraguai, com 2.123 horas, também superam o Brasil na comparação citada pela Our World in Data.

Esses números consideram a média anual de horas trabalhadas por pessoa ocupada.

A plataforma informa que a série combina dados históricos de Huberman e Minns com informações da Penn World Table.

A partir de 1950, a base inclui empregados e trabalhadores por conta própria na economia.

A posição brasileira chama atenção pelo cruzamento de dois indicadores: jornada elevada e alta desigualdade de renda.

Esse cenário ajuda a explicar por que a redução da jornada passou a ocupar espaço no debate público, especialmente em setores que adotam escalas com apenas uma folga semanal.

Material produzido pela Câmara dos Deputados afirma que sete em cada dez trabalhadores brasileiros cumprem jornadas de 44 horas semanais, muitas vezes em escalas que deixam só um dia de descanso.

O mesmo conteúdo aponta que a carga tende a ser maior entre pessoas com menor escolaridade e menores salários.

Comparação entre horas trabalhadas por ano e a desigualdade de renda em países da América do Sul
Comparação entre horas trabalhadas por ano e a desigualdade de renda em países da América do Sul

Desigualdade no Brasil pesa mais dentro do país, dizem especialistas

Especialistas ouvidos pelo R7 divergem sobre o significado dos dados.

Para uma parte dos economistas, não há evidência consolidada de que países com jornadas mais longas sejam, automaticamente, mais desiguais.

Essa avaliação considera que a comparação internacional envolve realidades distintas.

Estrutura produtiva, informalidade, produtividade média, legislação trabalhista e distribuição dos empregos podem alterar a forma como jornada e renda se relacionam em cada país.

O economista Rafael Richter, associado do Livres, afirma que a desigualdade pode pesar mais dentro de cada país do que na comparação entre países.

Segundo ele, trabalhadores de renda mais baixa tendem a ampliar a jornada ou buscar outras ocupações para completar o orçamento.

“Nesse sentido, a desigualdade talvez pese mais dentro de cada país do que na comparação entre países. Trabalhadores de renda mais baixa tendem a trabalhar mais horas para complementar a renda e manter condições básicas de vida”, afirmou.

Na avaliação de Richter, a desigualdade se torna mais relevante quando limita o desenvolvimento do potencial das pessoas.

Ele afirma que, no Brasil, a baixa mobilidade social afeta a capacidade de elevar a produtividade no longo prazo e dificulta a geração de renda em patamares mais altos.

“Os dados vêm apontando que países mais ricos e mais produtivos tendem a trabalhar menos horas. Isso acontece porque ganhos de produtividade permitem gerar mais riqueza em menos tempo de trabalho. Em parte, essa também é a diferença entre o Brasil e alguns vizinhos latino-americanos, que nas últimas décadas conseguiram avanços de produtividade mais consistentes do que os observados na economia brasileira”, disse.

Produtividade entra no debate sobre jornada de trabalho

Outra interpretação apresentada por especialistas relaciona desigualdade, jornada e produtividade.

Nessa leitura, países mais igualitários costumam reunir empregos mais qualificados, salários melhores e jornadas mais eficientes.

Em economias com grande número de postos de baixa remuneração, parte da população precisa ampliar a carga de trabalho ou buscar renda complementar.

Essa dinâmica, segundo economistas, ajuda a explicar por que trabalhar muitas horas não se converte, necessariamente, em maior renda individual ou em menor desigualdade.

O economista Natale Papa defende que os dois aspectos estão relacionados.

Para ele, países mais desiguais tendem a concentrar trabalhadores em ocupações de baixa produtividade, nas quais os salários são menores e a necessidade de complementar renda se torna mais frequente.

“Em países mais desiguais, como o Brasil, muitas pessoas precisam trabalhar mais horas ou ter múltiplas fontes de renda para complementar o orçamento. Ao mesmo tempo, empregos de baixa produtividade normalmente pagam salários menores. Isso cria um ciclo em que grande parte da população trabalha muito, mas com baixa geração de valor e pouca mobilidade social”, afirmou.

A análise diferencia dois pontos do debate.

Um deles trata da quantidade de horas trabalhadas.

O outro envolve o valor produzido nesse período e a forma como a renda gerada é distribuída entre os trabalhadores.

No caso brasileiro, especialistas apontam que a discussão sobre jornada envolve impactos sobre renda, organização das empresas, produtividade e qualidade de vida.

A tramitação da PEC no Senado deve manter esses temas no centro das negociações entre trabalhadores, empregadores e parlamentares.

PEC do fim da escala 6×1 segue no Senado

A PEC aprovada pela Câmara altera a Constituição para reduzir a jornada normal de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.

O texto também estabelece dois dias de repouso semanal remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos.

O relatório aprovado prevê uma transição.

Pela proposta, a jornada passaria inicialmente de 44 para 42 horas semanais após 60 dias da promulgação.

Depois de 12 meses, cairia para 40 horas semanais, com limite de oito horas diárias.

O texto analisado pela Câmara reuniu discussões de propostas anteriores.

Uma delas era a PEC 221/2019, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes, que previa redução gradual para 36 horas semanais em dez anos.

Outra era a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton, que defendia uma escala 4×3, com quatro dias de trabalho e três de descanso.

No parecer aprovado, a jornada ficou em 40 horas semanais.

A proposta, porém, ainda depende da análise do Senado para avançar.

Até a conclusão da tramitação, permanecem em discussão os efeitos da mudança sobre setores que operam com atendimento contínuo, escalas presenciais e grande número de trabalhadores de baixa renda.

O debate ocorre em um país onde a média anual de trabalho se aproxima de 2 mil horas e a desigualdade de renda segue entre as maiores da região.

Para especialistas, a combinação desses indicadores mostra que a quantidade de horas trabalhadas não explica, isoladamente, a distribuição da renda.

A partir da análise do Senado, a proposta deve passar por nova rodada de discussão sobre custos, adaptação das empresas, remuneração e condições de trabalho.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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