Projeto ambicioso no Saara gera energia para mais de 1 milhão de casas, porém alto custo, uso de combustíveis fósseis e limitações da rede elétrica freiam impacto real
Enquanto desertos são vistos como regiões improdutivas ao redor do mundo, o Marrocos decidiu apostar alto e transformar o Saara em um dos maiores laboratórios de energia limpa do planeta. No entanto, apesar da grandiosidade do projeto, a realidade revela um cenário mais complexo — onde inovação convive com desafios estruturais.
A informação foi divulgada pela “DW” (Deutsche Welle), com base em análises e entrevistas com especialistas do setor energético, revelando os bastidores e as contradições do ambicioso plano marroquino.
Noor Ouarzazate: a megaestrutura solar que impressiona o mundo
Localizada na cidade de Ouarzazate, a cerca de 200 quilômetros de Marrakech, na entrada do deserto do Saara, a usina Noor Ouarzazate é hoje um dos maiores complexos solares do mundo.
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Construída em um planalto cercado pelas montanhas do Atlas, a estrutura ocupa cerca de 500 hectares (aproximadamente 1.200 acres) e tem capacidade para abastecer mais de 1 milhão de residências.
Diferente das usinas solares tradicionais, o Noor utiliza tecnologia de energia solar concentrada. São cerca de 2 milhões de espelhos gigantes, que refletem a luz do sol para um receptor localizado no topo de uma torre de 247 metros de altura.
Nesse processo, o calor gerado chega a impressionantes 600°C, derretendo sais especiais que armazenam energia térmica. Isso permite gerar eletricidade mesmo após o pôr do sol — um avanço importante em relação aos sistemas convencionais.
Energia cara e dependência de combustíveis fósseis ainda dominam
Apesar de toda essa inovação, o impacto direto na vida da população ainda é limitado. Em Ouarzazate, por exemplo, muitos moradores continuam dependentes do gás butano, e não da energia solar.
Além disso, a eletricidade segue cara. Em média, famílias marroquinas gastam cerca de US$110 por mês, dentro de uma renda média de aproximadamente US$550 mensais — um peso significativo, especialmente em um país quente, onde temperaturas ultrapassam facilmente os 40°C no verão.
Esse cenário está diretamente ligado a um problema estrutural: o país ainda depende fortemente de combustíveis fósseis. Segundo especialistas, cerca de 48% das emissões de gases de efeito estufa relacionadas à energia vêm da geração baseada em carvão, petróleo e gás.
Outro ponto crítico é que Marrocos importa cerca de 90% dos combustíveis fósseis que consome, o que aumenta os custos e torna o sistema vulnerável às oscilações do mercado internacional.
Rede elétrica limitada trava avanço das energias renováveis
Além da dependência externa, outro obstáculo importante está na infraestrutura. Embora o país já tenha capacidade instalada para gerar até 46% de sua eletricidade com fontes renováveis, na prática esse número é bem menor.
Isso acontece porque a rede elétrica ainda não consegue integrar totalmente a energia produzida por projetos como Noor. Ou seja, mesmo com produção elevada, parte da energia limpa não chega ao consumo diário.
Dessa forma, especialistas apontam que o país precisa investir não apenas na geração, mas também em:
- expansão da rede elétrica
- sistemas de armazenamento de energia
- modernização da distribuição
Sem isso, o avanço das energias renováveis continua limitado.
Metas ambiciosas colocam Marrocos entre líderes da transição energética
Ainda assim, o país segue com planos ousados. Marrocos pretende gerar:
- 52% da eletricidade a partir de fontes renováveis até 2030
- 70% da capacidade energética limpa até 2050
Além disso, há o compromisso de eliminar completamente o uso de carvão até 2040.
Atualmente, o complexo Noor é apenas uma peça de um plano maior, que inclui cerca de duas dezenas de megaprojetos solares, eólicos e hidrelétricos já construídos, além de dezenas em desenvolvimento.
Críticas: custo, impacto ambiental e pouca inclusão local
Por outro lado, o modelo também enfrenta críticas. Pesquisadores e organizações apontam que megaprojetos como Noor podem não ser a solução mais eficiente para todos os contextos.
Entre os principais questionamentos estão:
- alto consumo de água para limpar os espelhos
- uso de terras que antes eram utilizadas por agricultores locais
- pouca participação das comunidades no processo
- benefícios limitados para moradores da região
Além disso, há relatos de moradores que afirmam que o calor gerado pela concentração solar pode ter impactado a temperatura local.
Outro ponto levantado é que soluções descentralizadas — como painéis solares em telhados de casas, empresas e fazendas — poderiam gerar resultados mais rápidos e acessíveis.
Um experimento global que expõe desafios reais da energia limpa
Diante desse cenário, o complexo Noor representa algo maior do que uma usina: ele se tornou um verdadeiro experimento global.
Por um lado, prova que é possível gerar energia limpa em larga escala até mesmo em regiões extremas. Por outro, revela que a transição energética envolve desafios muito mais profundos do que apenas construir grandes projetos.
Portanto, o caso de Marrocos mostra que o futuro da energia não depende apenas de tecnologia, mas também de infraestrutura, planejamento e inclusão social.


Não necessariamente tem que beneficiar fulano ou sicrano que moram lá perto. Beneficiam a nação como um todo.