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Enquanto desertos são vistos como áreas improdutivas, Marrocos construiu o complexo solar Noor Ouarzazate, um dos maiores do mundo, capaz de abastecer milhões de pessoas utilizando apenas energia do sol

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 18/04/2026 às 17:15
Atualizado em 18/04/2026 às 17:17
Assista o vídeousina solar com espelhos no deserto e torre central
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Projeto ambicioso no Saara gera energia para mais de 1 milhão de casas, porém alto custo, uso de combustíveis fósseis e limitações da rede elétrica freiam impacto real

Enquanto desertos são vistos como regiões improdutivas ao redor do mundo, o Marrocos decidiu apostar alto e transformar o Saara em um dos maiores laboratórios de energia limpa do planeta. No entanto, apesar da grandiosidade do projeto, a realidade revela um cenário mais complexo — onde inovação convive com desafios estruturais.

A informação foi divulgada pela “DW” (Deutsche Welle), com base em análises e entrevistas com especialistas do setor energético, revelando os bastidores e as contradições do ambicioso plano marroquino.

Noor Ouarzazate: a megaestrutura solar que impressiona o mundo

Localizada na cidade de Ouarzazate, a cerca de 200 quilômetros de Marrakech, na entrada do deserto do Saara, a usina Noor Ouarzazate é hoje um dos maiores complexos solares do mundo.

Construída em um planalto cercado pelas montanhas do Atlas, a estrutura ocupa cerca de 500 hectares (aproximadamente 1.200 acres) e tem capacidade para abastecer mais de 1 milhão de residências.

Diferente das usinas solares tradicionais, o Noor utiliza tecnologia de energia solar concentrada. São cerca de 2 milhões de espelhos gigantes, que refletem a luz do sol para um receptor localizado no topo de uma torre de 247 metros de altura.

Nesse processo, o calor gerado chega a impressionantes 600°C, derretendo sais especiais que armazenam energia térmica. Isso permite gerar eletricidade mesmo após o pôr do sol — um avanço importante em relação aos sistemas convencionais.

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Energia cara e dependência de combustíveis fósseis ainda dominam

Apesar de toda essa inovação, o impacto direto na vida da população ainda é limitado. Em Ouarzazate, por exemplo, muitos moradores continuam dependentes do gás butano, e não da energia solar.

Além disso, a eletricidade segue cara. Em média, famílias marroquinas gastam cerca de US$110 por mês, dentro de uma renda média de aproximadamente US$550 mensais — um peso significativo, especialmente em um país quente, onde temperaturas ultrapassam facilmente os 40°C no verão.

Esse cenário está diretamente ligado a um problema estrutural: o país ainda depende fortemente de combustíveis fósseis. Segundo especialistas, cerca de 48% das emissões de gases de efeito estufa relacionadas à energia vêm da geração baseada em carvão, petróleo e gás.

Outro ponto crítico é que Marrocos importa cerca de 90% dos combustíveis fósseis que consome, o que aumenta os custos e torna o sistema vulnerável às oscilações do mercado internacional.

Rede elétrica limitada trava avanço das energias renováveis

Além da dependência externa, outro obstáculo importante está na infraestrutura. Embora o país já tenha capacidade instalada para gerar até 46% de sua eletricidade com fontes renováveis, na prática esse número é bem menor.

Isso acontece porque a rede elétrica ainda não consegue integrar totalmente a energia produzida por projetos como Noor. Ou seja, mesmo com produção elevada, parte da energia limpa não chega ao consumo diário.

Dessa forma, especialistas apontam que o país precisa investir não apenas na geração, mas também em:

  • expansão da rede elétrica
  • sistemas de armazenamento de energia
  • modernização da distribuição

Sem isso, o avanço das energias renováveis continua limitado.

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Metas ambiciosas colocam Marrocos entre líderes da transição energética

Ainda assim, o país segue com planos ousados. Marrocos pretende gerar:

  • 52% da eletricidade a partir de fontes renováveis até 2030
  • 70% da capacidade energética limpa até 2050

Além disso, há o compromisso de eliminar completamente o uso de carvão até 2040.

Atualmente, o complexo Noor é apenas uma peça de um plano maior, que inclui cerca de duas dezenas de megaprojetos solares, eólicos e hidrelétricos já construídos, além de dezenas em desenvolvimento.

Críticas: custo, impacto ambiental e pouca inclusão local

Por outro lado, o modelo também enfrenta críticas. Pesquisadores e organizações apontam que megaprojetos como Noor podem não ser a solução mais eficiente para todos os contextos.

Entre os principais questionamentos estão:

  • alto consumo de água para limpar os espelhos
  • uso de terras que antes eram utilizadas por agricultores locais
  • pouca participação das comunidades no processo
  • benefícios limitados para moradores da região

Além disso, há relatos de moradores que afirmam que o calor gerado pela concentração solar pode ter impactado a temperatura local.

Outro ponto levantado é que soluções descentralizadas — como painéis solares em telhados de casas, empresas e fazendas — poderiam gerar resultados mais rápidos e acessíveis.

Um experimento global que expõe desafios reais da energia limpa

Diante desse cenário, o complexo Noor representa algo maior do que uma usina: ele se tornou um verdadeiro experimento global.

Por um lado, prova que é possível gerar energia limpa em larga escala até mesmo em regiões extremas. Por outro, revela que a transição energética envolve desafios muito mais profundos do que apenas construir grandes projetos.

Portanto, o caso de Marrocos mostra que o futuro da energia não depende apenas de tecnologia, mas também de infraestrutura, planejamento e inclusão social.

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21/04/2026 23:06

Não necessariamente tem que beneficiar fulano ou sicrano que moram lá perto. Beneficiam a nação como um todo.

Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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