Operação subterrânea inédita na China avança além de 10 mil metros e revela condições extremas de temperatura, pressão e geologia profunda, abrindo novas perspectivas científicas e energéticas em uma das regiões mais complexas para perfuração no país asiático.
A China ultrapassou a marca de 10 mil metros de profundidade com o poço científico Shendi Chuanke 1, perfurado na Bacia de Sichuan, em uma operação que atravessou 23 formações geológicas e chegou a rochas da Formação Siniana, estimadas em cerca de 540 milhões de anos.
Localizado no condado de Jiange, na província de Sichuan, o projeto se tornou o primeiro poço científico da bacia a atingir esse patamar, conforme informou a Global Times ao citar dados da China Media Group e da China National Petroleum Corporation.
À medida que a perfuração avançava, os engenheiros passaram a operar em uma zona pouco conhecida da geologia local, onde as informações disponíveis eram limitadas e exigiam maior cautela técnica no planejamento e na execução de cada etapa.
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Abaixo de 7 mil metros, por exemplo, as camadas eram tratadas como um território praticamente sem dados diretos, condição que elevou o nível de complexidade e exigiu adaptações constantes nos métodos utilizados durante a operação.
Perfuração profunda na Bacia de Sichuan desafia limites técnicos

Iniciado em julho de 2023, o projeto avançou de forma contínua até superar os 10 mil metros em outubro de 2025, consolidando um marco relevante dentro das iniciativas chinesas voltadas à exploração de grandes profundidades.
Durante esse percurso, o poço atravessou sucessivas formações geológicas até alcançar a Formação Siniana, considerada estratégica para estudos sobre a estrutura profunda da crosta terrestre e sobre a evolução geológica de longo prazo.
Poço científico amplia conhecimento sobre o interior da Terra
Embora tenha relação com o setor energético, o Shendi Chuanke 1 foi concebido também como uma iniciativa científica voltada ao desenvolvimento de tecnologias próprias e à coleta de dados em regiões subterrâneas ainda pouco exploradas.
Com a retirada de testemunhos rochosos em grandes profundidades, os pesquisadores passaram a ter acesso direto a materiais que antes eram analisados apenas por meio de simulações e modelos teóricos.
Essas amostras permitem compreender com mais precisão o comportamento de rochas antigas submetidas a condições extremas, incluindo calor intenso, pressão elevada e longos períodos de preservação no interior da crosta terrestre.
Temperatura acima de 200°C e pressão extrema desafiam equipamentos
De acordo com a Global Times, as condições registradas no fundo do poço ultrapassaram 200°C, enquanto a pressão das formações atingiu níveis superiores a 130 megapascais, cenário que impõe desafios significativos para qualquer operação desse tipo.

Nessas profundidades, equipamentos como brocas, tubos e sensores operam sob desgaste constante, o que exige monitoramento contínuo e ajustes técnicos para evitar falhas estruturais ao longo do processo.
Além disso, o calor extremo afeta diretamente o desempenho dos materiais, enquanto a pressão elevada aumenta o risco de instabilidade, exigindo controle rigoroso da circulação de fluidos e da resposta dos sistemas envolvidos.
Amostras indicam potencial para petróleo e gás em grandes profundidades
Entre os resultados mais relevantes, destaca-se a recuperação de amostras abaixo de 9.500 metros, que revelaram características geológicas compatíveis com a presença de reservatórios bem desenvolvidos.
Segundo a reportagem, os testemunhos indicaram a existência de poros, cavidades e fraturas, elementos considerados fundamentais para a acumulação de petróleo e gás em formações subterrâneas.
Esse achado contraria avaliações anteriores que apontavam baixa capacidade de armazenamento em camadas tão profundas da Bacia de Sichuan, principalmente devido às condições extremas de temperatura e pressão.
Tradicionalmente, estratos abaixo de 8 mil metros eram vistos como pouco favoráveis à acumulação de hidrocarbonetos, o que torna essa nova evidência relevante para a reavaliação do potencial da região.
Ainda que não represente exploração imediata, o resultado amplia o interesse científico e energético, ao indicar que essas áreas podem preservar estruturas adequadas para armazenamento de recursos.
China avança na corrida por perfuração ultraprofundada
No cenário nacional, o Shendi Chuanke 1 se torna o segundo poço a ultrapassar os 10 mil metros, ficando atrás apenas do Shenditake 1, localizado na Bacia de Tarim, em Xinjiang.
Enquanto o projeto de Tarim consolidou a capacidade técnica da China nesse tipo de operação, o avanço em Sichuan amplia esse domínio para um ambiente geológico distinto e mais complexo.
Essa diferença é relevante porque envolve desafios específicos relacionados à estrutura da bacia, exigindo soluções técnicas adaptadas às condições locais encontradas ao longo da perfuração.
Paralelamente, a iniciativa reforça o papel da CNPC no desenvolvimento de tecnologias voltadas à exploração profunda, integrando objetivos científicos e estratégicos em uma mesma operação.
A marca de 10 mil metros, nesse contexto, deixa de ser apenas um número simbólico e passa a representar a capacidade de operar em condições onde a previsibilidade geológica é reduzida e os riscos técnicos são ampliados.
Acesso direto a camadas profundas muda pesquisas geológicas
Ao alcançar essas profundidades, o projeto permitiu acesso direto a camadas que permaneceram inacessíveis durante décadas, abrindo novas possibilidades para estudos sobre a composição e o comportamento do subsolo.
Diferentemente das abordagens baseadas em projeções, a análise de fragmentos reais possibilita maior precisão na interpretação das estruturas geológicas presentes nessas regiões extremas.
Com isso, os dados obtidos podem contribuir para a revisão de modelos existentes sobre a Bacia de Sichuan e para o aprimoramento de técnicas utilizadas em perfurações futuras.
Além de ampliar o conhecimento científico, a operação também fornece informações relevantes para o desenvolvimento de equipamentos mais resistentes e eficientes, capazes de suportar condições cada vez mais severas.
Nesse cenário, o Shendi Chuanke 1 evidencia como a perfuração ultraprofundada passou a integrar diferentes áreas, reunindo pesquisa, tecnologia e estratégia energética em uma mesma frente de atuação subterrânea.

