Com 25 apartamentos, oito unidades de aluguel social e espaços coletivos integrados ao edifício, o New Ground Cohousing, em Londres, mostra como arquitetura, habitação social e gestão comunitária podem criar alternativas residenciais para uma população que envelhece.
Em High Barnet, no norte de Londres, um empreendimento residencial de 25 apartamentos foi projetado para discutir um desafio cada vez mais presente nas cidades: como criar tipos de habitação adequadas para pessoas mais velhas sem limitar a solução a instituições de longa permanência ou condomínios convencionais.
O New Ground Cohousing reúne apartamentos independentes, áreas coletivas, espaços de serviço e um modelo de ocupação que mistura unidades em regime de longo prazo com oito apartamentos destinados ao aluguel social.
O caso ganhou relevância no debate sobre habitação porque não se limita à convivência entre vizinhas. O projeto envolve arquitetura residencial, desenho urbano, eficiência construtiva, acesso à moradia social, financiamento habitacional e participação dos futuros moradores no planejamento do edifício.
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Projeto de moradia mistura apartamentos em regime de longo prazo e unidades de aluguel social
O empreendimento possui 25 apartamentos para 26 moradoras. Desse total, 17 unidades funcionam em regime de leasehold, modelo britânico de ocupação com contrato de longa duração, enquanto outras oito são destinadas à locação social.
Essa combinação é um dos pontos mais relevantes do projeto. Em vez de criar um condomínio restrito a pessoas com capacidade de compra, o edifício incorporou moradias destinadas a residentes com menor renda dentro da mesma estrutura residencial.
O estudo de caso do World Habitat traz o fato de que a inclusão das oito unidades sociais exigiu articulação entre a comunidade, associações habitacionais e autoridades locais. A organização Housing for Women ficou responsável pela propriedade do terreno e pela administração das unidades de locação social.
Na prática, o modelo demonstra que a habitação colaborativa pode ser combinada com mecanismos de moradia acessível, algo incomum em empreendimentos desse tipo no Reino Unido.
Arquitetura do New Ground usa apartamentos privados e estrutura coletiva para organizar o edifício
O New Ground não foi desenhado como uma residência institucional. Cada unidade possui estrutura própria de moradia, enquanto os espaços compartilhados foram incorporados como parte da infraestrutura do edifício.
O conjunto reúne apartamentos de um, dois e três quartos, além de cozinha coletiva, área de refeições, sala de reuniões, lavanderia, espaço de secagem, quarto para hóspedes, pátio interno e jardins comunitários.

O projeto arquitetônico adotou uma configuração em formato de “T”, concentrando áreas compartilhadas, circulação e jardins em pontos que facilitam o acesso dos apartamentos aos espaços comuns.
De acordo com o escritório Pollard Thomas Edwards, responsável pela arquitetura, a implantação buscou garantir iluminação natural e vista para cada apartamento, enquanto os ambientes coletivos foram posicionados como o núcleo funcional do empreendimento.
Projeto adota estratégia de envoltória térmica com orientação, isolamento e estanqueidade
Além da organização dos apartamentos e das áreas coletivas, o projeto incorporou princípios de eficiência construtiva. O escritório de arquitetura descreve a estratégia como fabric first, conceito que prioriza o desempenho da envoltória do edifício antes da instalação de equipamentos adicionais.
Na prática, isso significa trabalhar orientação solar, isolamento térmico, vedação, estanqueidade ao ar e desempenho dos materiais desde a fase de projeto. A ideia é reduzir a dependência de soluções corretivas posteriores e melhorar o comportamento térmico do edifício.
O memorial arquitetônico do empreendimento também previa atendimento ao nível 4 do antigo Code for Sustainable Homes, referência britânica usada para avaliar eficiência ambiental e desempenho residencial.
Gestão compartilhada transforma moradoras em parte da operação do empreendimento
Outro ponto que diferencia o New Ground é a forma de gestão. A comunidade foi estruturada como uma organização mutualista sem fins lucrativos, na qual cada residente possui direito de participação nas decisões coletivas.
As moradoras atuam em grupos responsáveis por temas como finanças, manutenção predial, jardins, comunicação, diversidade, entrada de novos membros e organização das áreas comuns.
Isso não elimina a necessidade de fornecedores, contratos, manutenção técnica ou gestão profissional. Mas muda o papel dos moradores, que deixam de ser apenas compradores ou locatários e passam a participar das escolhas que influenciam a operação do prédio.
Investimento de milhões de libras mostra que o modelo depende de terreno, financiamento e parcerias habitacionais
O estudo publicado pelo World Habitat registra um investimento total de cerca de £ 7,7 milhões para viabilizar o empreendimento. O valor revela que modelos de habitação colaborativa exigem muito mais do que boa vontade entre futuros moradores.
O projeto precisou combinar terreno, aprovação urbanística, parceria com associação habitacional, arquitetura especializada, financiamento e uma estrutura jurídica capaz de receber unidades privadas e apartamentos de locação social no mesmo edifício.
Na fase de desenvolvimento, a Hanover Housing Association assumiu o papel de incorporadora do projeto. A participação das futuras moradoras ocorreu durante o planejamento e a construção, inclusive na definição de características do empreendimento.
Os valores apresentados no estudo são referências históricas do desenvolvimento do projeto e não representam custos atuais de construção, compra ou aluguel em Londres.
O caso de Londres coloca em debate habitação social, arquitetura e envelhecimento urbano
O New Ground não deve ser tratado apenas como uma experiência de convivência. O empreendimento funciona como um exemplo de habitação para envelhecimento que combina apartamentos completos, áreas coletivas, locação social, gestão participativa e soluções arquitetônicas pensadas para uso residencial de longo prazo.
Para cidades brasileiras, a experiência levanta questões práticas: como ampliar a oferta de imóveis adaptáveis? Como incluir aluguel social em novos empreendimentos? Como usar terrenos públicos ou privados para projetos destinados a diferentes faixas de renda? E até que ponto futuros moradores poderiam participar do planejamento da construção?

O modelo também deixa claro que moradia colaborativa não substitui políticas de saúde, assistência social ou habitação popular. Porém, pode se tornar uma ferramenta complementar quando é planejada com segurança jurídica, diversidade de renda, qualidade arquitetônica e infraestrutura urbana adequada.
Ao reunir 25 apartamentos, oito unidades de aluguel social, áreas compartilhadas e gestão comunitária, o edifício londrino mostra que a discussão sobre envelhecimento não precisa ficar restrita à assistência: ela também envolve construção civil, planejamento urbano, financiamento e acesso à moradia.
Para as cidades brasileiras, o que teria mais impacto: construir imóveis adaptáveis, ampliar o aluguel social ou permitir que futuros moradores participem do desenho dos empreendimentos?
