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Um engenheiro queniano recolhe sacolas e garrafas plásticas que entopem os rios, aquece tudo em um reator sem oxigênio e produz um óleo capaz de virar gasolina e diesel, combustível com o qual ele abastece o próprio carro todos os dias

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Escrito por Débora Araújo Publicado em 03/07/2026 às 14:00
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Engenheiro queniano transforma sacolas e garrafas plásticas em óleo que pode virar gasolina e diesel, usando processo térmico sem oxigênio.
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Ao transformar resíduos plásticos em combustíveis alternativos, Joseph Muritu mostra como inovação, sustentabilidade e visão empreendedora podem converter um grave problema ambiental em solução energética promissora e prática.

Segundo a Africanews, o lixo plástico que a maioria das pessoas vê como um problema sem solução virou, nas mãos de um empreendedor queniano, uma fonte de combustível capaz de mover carros e máquinas de todos os tipos. Joseph Muritu, à frente de um projeto chamado Progreen Innovations, encontrou uma forma de aquecer o plástico a temperaturas altíssimas na ausência de oxigênio — um processo conhecido como pirólise — e, com isso, transformar o resíduo de volta em um líquido oleoso, semelhante ao petróleo, do qual se extraem combustíveis.

O resultado é impressionante: Muritu produz dois tipos de combustível alternativo. “O primeiro é uma gasolina alternativa, usada em máquinas de pequeno e médio porte. E há o diesel alternativo, usado por motores diesel pesados: geradores, e também veículos — no meu próprio carro, é isso que eu uso”, contou ele à publicação.

Ou seja, o combustível que sai das sacolas e garrafas descartadas não fica só na teoria: ele já abastece o carro do próprio inventor. A história de Joseph Muritu é a prova de que, com engenhosidade e ciência, é possível enxergar tesouro onde os outros só veem lixo — e transformar uma das maiores ameaças ambientais do planeta em parte de uma solução energética.

Uma descoberta que nasceu de um acidente

Como acontece com muitas grandes ideias, a jornada de Muritu rumo ao combustível de plástico não começou com um plano grandioso, mas com uma curiosidade despertada por um acaso feliz no quintal de casa. Segundo o Business Daily Africa, Muritu passou mais de 20 anos construindo sistemas de software e hardware na África, na América do Norte e na Austrália antes de se dedicar a essa nova empreitada. Ele conta que entrou no ramo da manufatura por puro acaso.

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“Nos últimos três anos, desenvolvi um interesse por química e comecei um experimento no quintal para recuperar alumínio de materiais de alumínio descartados. E, por puro acaso, uma vez, nós derretemos plástico, o que nos deu uma espécie de líquido gelatinoso, e a partir dali surgiu um interesse, e começamos a pesquisar”, relembra Muritu. “Com isso, mergulhamos em uma pesquisa profunda no campo, e não paramos mais.”

Foi assim, de uma experiência que deu “errado” ao derreter plástico sem querer, que nasceu a semente de um negócio inovador. Baseado em Kenol, na região de Murang’a, no Quênia, Muritu montou um reator localmente para realizar o processo. Para tirar a ideia do papel e financiar o negócio, ele mergulhou nas próprias economias, investindo mais de 5 milhões de xelins quenianos — e, segundo ele, esse investimento seguia crescendo. Seu sócio, Michael Nthenge, um engenheiro mecânico, foi o responsável por fabricar todos os compartimentos do projeto.

Como o plástico vira combustível

O coração da invenção de Muritu é um processo químico que, embora possa soar complexo, se baseia em um princípio relativamente simples — e que é fundamental entender para não confundi-lo com a mera queima de lixo. Segundo a Africanews, a pirólise consiste em aquecer o plástico a temperaturas muito elevadas na ausência de oxigênio. Sem oxigênio, o plástico não pega fogo: em vez de queimar, ele se decompõe, revertendo à sua origem — afinal, o plástico é derivado do petróleo.

O resultado desse aquecimento é um óleo, ou líquido de hidrocarbonetos, que pode então ser refinado em diferentes tipos de combustível. Um dos subprodutos do processo é o chamado biochar (uma espécie de carvão), que, de forma engenhosa, é reaproveitado para alimentar as próprias fornalhas do reator, tornando o sistema mais eficiente. Segundo o Business Daily Africa, o processo tem etapas bem definidas. Primeiro, os funcionários separam o lixo plástico para obter o tipo ideal de plástico necessário para a produção de combustível.

Em seguida, a matéria-prima é triturada em pedaços menores, que são lavados para remover quaisquer impurezas. Só então esse material segue para o reator, onde o calor, na ausência de oxigênio, faz sua mágica química. Do processo saem um produto equivalente à gasolina, adequado para motores de pequeno e médio porte, e um equivalente ao diesel, que funciona bem em todos os motores a diesel, incluindo os de veículos, geradores e maquinário pesado.

Um exército de catadores e a economia do lixo

A operação de Muritu vai muito além da química: ela criou uma pequena engrenagem econômica que gera empregos e mobiliza comunidades inteiras em torno da coleta de plástico. Muritu já contratou sete funcionários e trabalha com grupos de voluntários, comerciantes de ferro-velho e mulheres na coleta do material plástico usado para a produção de combustível em Kenol. Esse arranjo transforma o lixo em um recurso com valor: o que antes entupia bueiros e poluía rios passa a ter uma finalidade e um destino. O contexto do problema que ele ataca é gigantesco.

A produção global de resíduos chega a 400 milhões de toneladas por ano, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Desse total, apenas 12% é incinerado e somente 9% é reciclado. O restante — a imensa maioria — acaba em aterros ou na natureza, onde pode levar centenas de anos para se decompor, quando isso chega a acontecer, por causa da estrutura química resistente e durável do plástico. É diante dessa montanha de lixo praticamente eterno que soluções como a de Muritu ganham relevância: cada quilo de plástico transformado em combustível é um quilo a menos poluindo o meio ambiente por séculos.

As ressalvas ambientais: nem tudo é simples

Seria irresponsável apresentar a tecnologia de Muritu como uma solução mágica e sem custos. Especialistas fazem ponderações importantes, e é justo reconhecê-las para entender o real alcance — e os limites — dessa inovação. Segundo a Africanews, o especialista Otieno, ouvido pela publicação, faz uma ressalva fundamental: “A maneira mais eficaz, em termos de carbono, de lidar com o lixo plástico é não produzir plástico nenhum. Então, precisamos inovar para encontrar alternativas ao plástico.”

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Mas ele reconhece o valor da solução para o problema que já existe: “Enquanto tivermos o plástico — aqueles que já produzimos —, precisamos explorar todas as opções. E acho que a pirólise e processos de baixa tecnologia produzidos localmente, como o que esse inovador desenvolveu, devem ser incentivados.” Há também a questão das emissões. Existe uma preocupação legítima quanto aos gases nocivos liberados durante a reação de pirólise.

No entanto, Otieno esclarece uma distinção técnica crucial: é preciso entender a diferença entre pirólise e incineração. “A incineração é a queima em presença de ar; a pirólise é o aquecimento em um sistema fechado”, explica. Por isso, segundo ele, a quantidade de gases tóxicos liberados é, por si só, limitada — e Otieno acrescenta que a maioria desses gases produzidos na pirólise é redirecionada de volta para o próprio processo, o que ajuda a mitigar o impacto. Vale registrar, para o leitor, que o combustível obtido do plástico e sua queima ainda são objeto de estudo e debate ambiental, e que a tecnologia, embora promissora, não substitui a necessidade mais ampla de reduzir a produção de plástico na origem.

Uma solução que aponta caminhos

O trabalho de Muritu se insere em um movimento maior que vem ganhando força em todo o continente africano — e que pode transformar a forma como o mundo encara tanto o lixo quanto a produção de energia. O caso queniano não é isolado. Iniciativas semelhantes de transformar plástico em combustível por pirólise vêm surgindo em diversos países africanos, de Gana à Nigéria, movidas pela mesma lógica: atacar simultaneamente dois problemas crônicos — o acúmulo de lixo plástico e a escassez ou o alto custo de combustível.

O que torna a abordagem de Muritu especialmente inspiradora é seu caráter local e replicável: um reator montado com conhecimento próprio, alimentado por lixo coletado na comunidade, gerando combustível usado ali mesmo. É a economia circular em sua forma mais concreta e tangível. Claro, é importante manter a perspectiva: trata-se de uma solução de escala ainda modesta, com desafios técnicos, ambientais e econômicos a serem superados antes que possa ser adotada de forma ampla e segura. Mas o valor simbólico e prático da iniciativa é inegável.

A história de Joseph Muritu é, no fim, um lembrete poderoso de que os problemas mais teimosos da humanidade muitas vezes escondem, dentro de si, as sementes de suas próprias soluções — bastando que alguém, com curiosidade, conhecimento e determinação, se disponha a enxergá-las. Um engenheiro que passou a vida entre softwares e circuitos encontrou, em um acidente com plástico derretido no quintal, uma nova missão: provar que aquilo que jogamos fora todos os dias, sem pensar duas vezes, pode conter a energia que faz o mundo se mover. E que, às vezes, o combustível do futuro pode estar exatamente onde menos se espera — no fundo de uma lata de lixo.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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