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Em 2024, trilhões de cigarras emergem nos EUA, fazem barulho de avião, cobrem cidades, bagunçam o cotidiano e expõem como o aquecimento global está quebrando um relógio biológico milenar natural

Escrito por Carla Teles
Publicado em 08/01/2026 às 17:37
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Em 2024, trilhões de cigarras e cigarras periódicas tomam os Estados Unidos e mostram como o aquecimento global quebra um relógio biológico.
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Em 2024, trilhões de cigarras periódicas emergiram nos Estados Unidos, bagunçaram o cotidiano e expuseram como o aquecimento global está desajustando um relógio biológico milenar.

Em 2024, trilhões de cigarras emergiram ao mesmo tempo nos Estados Unidos, transformando cidades inteiras em um zumbido contínuo, cobrindo árvores, ruas e casas e deixando claro que algo muito profundo está mudando na relação entre clima e natureza.

Por trás do espetáculo de trilhões de cigarras ocupando florestas, bairros e rodovias, cientistas enxergam um alerta cada vez mais nítido: o aquecimento do solo está bagunçando um relógio biológico que levou milhões de anos para se ajustar e que agora começa a falhar em poucas décadas, com impactos que vão muito além do barulho e da sujeira.

Cigarras: barulho, mito e serviço silencioso à natureza

Em 2024, trilhões de cigarras e cigarras periódicas tomam os Estados Unidos e mostram como o aquecimento global quebra um relógio biológico.

Se você vive em qualquer lugar com árvores, provavelmente já ouviu o som das cigarras em tardes quentes de verão. Para muita gente, o canto é apenas um incômodo, alto, constante, difícil de ignorar. Mas, por mais barulhentas que sejam, as cigarras nunca foram consideradas um desastre ambiental ou econômico.

Elas não destroem plantações, não comem frutas, não picam pessoas e não transmitem doenças. Pesquisadores lembram que as cigarras são, na prática, inofensivas para humanos e lavouras. Elas não querem suas plantas, elas só querem cantar e se reproduzir.

O que quase ninguém percebe é o quanto esse ciclo ruidoso presta serviços à natureza. Sempre que emergem após mais de uma década debaixo da terra, as cigarras cavam milhões de pequenos buracos, criando uma rede de ventilação que ajuda o solo a “respirar” e facilita a infiltração da água da chuva até as raízes das árvores.

Quando trilhões de cigarras completam o ciclo e morrem, seus corpos viram um fertilizante natural riquíssimo, capaz de elevar de forma dramática a disponibilidade de nutrientes no solo.

Esses corpos são ricos em nitrogênio, fósforo e potássio, equivalentes a milhares de toneladas de adubo orgânico distribuídas de graça pela floresta.

Ao mesmo tempo, elas servem de fonte de proteína abundante para mais de 25 espécies de animais, de aves a mamíferos e até peixes. Em anos de cigarras, predadores mudam o foco e aliviam a pressão sobre outros insetos, ajudando a manter o equilíbrio do ecossistema.

As cigarras periódicas e o relógio biológico mais estranho da natureza

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Entre cerca de 3000 espécies de cigarras no mundo, apenas um pequeno grupo pertence às chamadas cigarras periódicas e vive exclusivamente nos Estados Unidos.

Elas são divididas em dezenas de “broods”, grupos que compartilham um calendário de emergência extremamente preciso: alguns aparecem a cada 13 anos, outros a cada 17 anos.

Durante cerca de 95 por cento da vida, essas cigarras permanecem enterradas a até 60 centímetros de profundidade, sugando lentamente a seiva das raízes das árvores. Passam mais de uma década no escuro, quase imóveis, sem ver a luz do sol, para depois viver apenas seis semanas na superfície.

Por que tanto tempo escondidas? No subsolo, elas escapam de quase todos os predadores de superfície e se alimentam de uma fonte de nutrientes estável, ainda que pobre, que exige um desenvolvimento extremamente lento.

Em compensação, essa pobreza de alimento garante segurança e pouca competição. Não existe outro inseto com um calendário biológico tão estranho.

Cada brood tem seu próprio ano de emergência, como se houvesse um relógio invisível programado com antecedência milenar.

E quando chega a hora, não são milhares, são bilhões ou até trilhões de cigarras emergindo ao mesmo tempo, numa explosão de vida tão grande que a estratégia de defesa é o excesso: há tanta presa disponível que os predadores simplesmente não conseguem dar conta.

2024: quando dois broods se encontraram e trilhões de cigarras tomaram os EUA

Em 2024, trilhões de cigarras e cigarras periódicas tomam os Estados Unidos e mostram como o aquecimento global quebra um relógio biológico.

Um único grupo de cigarras periódicas já é um grande evento. Mas em 2024, os Estados Unidos viveram algo raríssimo. Dois dos maiores broods do país emergiram juntos, um com ciclo de 17 anos e outro de 13 anos, sincronizados por uma coincidência matemática que só acontece em períodos de cerca de 200 anos.

Logo no início da primavera de 2024, moradores de 16 estados sentiram o chão tremer. Não eram caminhões pesados nem terremotos, era o som de trilhões de cigarras subindo à superfície ao mesmo tempo.

Em algumas regiões de Illinois e Tennessee, o ruído chegou a cerca de 110 decibéis, comparável a estar ao lado de um avião a jato durante a decolagem.

Biólogos que trabalhavam ao ar livre tiveram de usar protetores auriculares industriais para conseguir conversar. Em muitos lugares, o número de cigarras passava de milhões por hectare. Troncos de árvores, galhos e o próprio solo pareciam cobertos por uma camada viva, vibrante, em movimento contínuo.

Estudos estimaram que uma área relativamente pequena poderia abrigar centenas de milhares de cigarras por metro quadrado.

Se alinhássemos um trilhão de cigarras uma atrás da outra, a fila seria longa o suficiente para atravessar dezenas de vezes a distância entre a Terra e a Lua. As emergências combinadas de 2024 eram suficientes, em teoria, para cobrir milhares de cidades do tamanho de Nova York.

Quando a cidade vira mar de som, cascas e carcaças

Com uma densidade tão extrema, o caos era inevitável. Em florestas perto de cidades como Bloomington, o peso de milhões de ninfas grudadas ao mesmo tempo nos galhos fez com que muitos ramos quebrassem, como se uma tempestade de granizo tivesse passado.

Em Louisville, moradores relataram ruas escorregadias pelo acúmulo de carcaças. Em alguns pontos, as trilhões de cigarras que emergiram e morreram tiveram de ser removidas com pás, caminhões e jatos de água de alta pressão, porque os corpos formavam camadas espessas sobre calçadas, estacionamentos e até entradas de hospitais.

As cigarras pousavam em câmeras de TV, grudavam em microfones e caíam em copos de café de repórteres durante transmissões ao vivo. Famílias descreviam o barulho como uma sirene ligada 24 horas por dia.

Os machos produziam som ao flexionar membranas especiais centenas de vezes por segundo, como um alto-falante biológico. Quando milhões faziam isso juntos, o resultado era um mar de som capaz de vibrar vidros de carros e abafar o tráfego de caminhões.

No cotidiano, eventos foram adiados, festas ao ar livre precisaram ser interrompidas, bichos de estimação passaram mal depois de comer cigarras demais. A temporada em que trilhões de cigarras invadiram o dia a dia americano virou praticamente uma experiência coletiva, dividida entre fascínio e exaustão.

Por que os Estados Unidos não simplesmente exterminam as cigarras

Em 2024, trilhões de cigarras e cigarras periódicas tomam os Estados Unidos e mostram como o aquecimento global quebra um relógio biológico.

Diante de tanto barulho, sujeira e transtornos, a pergunta surge quase automaticamente: por que não eliminar as cigarras periódicas? A resposta é simples e incômoda. Elas não são praga, são fenômeno ecológico.

As cigarras não mordem, não picam, não devastam lavouras e não são vetores de doenças. Os danos econômicos diretos são mínimos quando comparados a pragas agrícolas ou mosquitos transmissores.

Exterminar trilhões de cigarras custaria caro, traria pouco benefício real e causaria estragos gigantescos em outras partes do ecossistema.

Para matar um único brood, seria necessária uma quantidade enorme de pesticidas. Em 2024, quando dois broods emergiram juntos, a escala seria ainda mais absurda.

Essa carga química não atingiria só as cigarras, mas também aves, abelhas, borboletas, minhocas e polinizadores essenciais, gerando um desastre ambiental muito maior do que qualquer ruído temporário.

Além disso, leis ambientais de vários estados americanos protegem as cigarras periódicas, proíbem pulverizações em larga escala durante a temporada e tratam essas emergências como patrimônio ecológico.

Agências federais as classificam como espécies nativas de alto valor, justamente pelo papel que desempenham no solo, na cadeia alimentar e na dinâmica das florestas.

Fungo zumbi, vespas assassinas e humanos no topo do cardápio

Apesar dos números astronômicos, as cigarras periódicas estão longe de serem invencíveis. Elas enfrentam inimigos que parecem saídos de filme de terror, como o fungo que transforma cigarras em verdadeiras “máquinas zumbis” de espalhar infecção, fazendo a parte inferior do corpo literalmente se desfazer e ser substituída por uma massa de esporos.

Infectadas, as cigarras continuam tentando acasalar, hiperativas, sem perceber que parte do corpo já desapareceu, espalhando o fungo a cada contato. Não há tratamento nem controle prático para esse processo na natureza.

Há também predadores impressionantes, como uma grande vespa especializada em caçar cigarras, que as paralisa com veneno e as arrasta para ninhos subterrâneos para servir de alimento vivo às larvas.

Moradores de algumas regiões descrevem a cena como uma “morte com asas”, assistindo cigarras serem carregadas pelo chão como se fossem sacos de compras espalhados pela floresta.

E por fim, entram os humanos. Em 2024, chefs, curiosos e criadores de conteúdo aproveitaram o fato de trilhões de cigarras estarem disponíveis e começaram a testar receitas.

Cigarras viraram petiscos assados, fritos, empanados, misturados em biscoitos e até usados em versões de sushi. Em muitos outros países, elas já são vistas há muito tempo como iguaria de rua, prato tradicional ou ingrediente rico em proteína.

Do Japão à Grécia: música, espiritualidade e arte

As cigarras não são exclusividade dos Estados Unidos, nem fazem barulho só em florestas americanas. Em vários países, esse pequeno inseto ganhou camadas culturais profundas.

No Japão, o som das cigarras é praticamente a trilha sonora oficial do verão. O canto não é visto como ruído, mas como parte da memória coletiva.

Espécies diferentes têm nomes próprios, aparecem em animes, filmes e livros. Para muitos japoneses, o ciclo de anos no subsolo e poucas semanas na superfície simboliza a impermanência da vida, algo belo justamente pela brevidade.

Na China, a cigarra está ligada ao mundo espiritual. Pequenas cigarras de jade eram colocadas na boca dos mortos como símbolo de renascimento e ascensão da alma, e poemas descrevem o inseto como expressão de pureza, por viver nas copas das árvores e se alimentar apenas de seiva.

Na Grécia antiga, a cigarra representava a arte e a liberdade. Textos clássicos detalham seu ciclo de vida com uma precisão que ainda impressiona.

Joias em forma de cigarra eram comuns, e até hoje o canto do inseto ecoa entre pinheiros, ligando passado e presente em um mesmo som.

Ao redor do mundo, a cigarra pode ser música de verão, símbolo espiritual, indicador de clima, inspiração artística e até comida de rua. E é justamente essa diversidade de significados que torna ainda mais grave o risco de perder parte desse fenômeno.

O relógio biológico que o aquecimento global está quebrando

Por milhões de anos, o relógio biológico das cigarras periódicas pareceu quase perfeito. Os broods surgiam com pontualidade, a cada 13 ou 17 anos.

Mas nas últimas décadas, algo começou a sair do ritmo. Pesquisadores observaram grupos emergindo de 1 a 4 anos antes do previsto, sem registro histórico de eventos tão frequentes.

A explicação está debaixo dos nossos pés. As cigarras não usam calendário de luz ou de temperatura do ar, elas contam o tempo pelas mudanças químicas na seiva das raízes. Com o aquecimento global, as árvores têm seus ciclos alterados.

Nutrientes, açúcares e minerais mudam em outro ritmo, e as cigarras passam a interpretar esses sinais como se um ano tivesse passado quando, na verdade, apenas alguns meses se foram.

Como resultado, parte dos broods emerge antes da hora. Em vez de trilhões de cigarras formando uma onda massiva que satura predadores, pequenos grupos aparecem isolados, em quantidade insuficiente para se defender pela estratégia do número.

Aves, roedores e outros caçadores conseguem devorar praticamente todas antes que se reproduzam, empurrando alguns grupos para o colapso.

Broods inteiros já foram declarados extintos, outros estão em declínio acelerado. O mesmo aquecimento global que tornou possível a visão espetacular de trilhões de cigarras em 2024 é o que pode, no futuro, silenciar esse fenômeno para sempre.

O que acontece se a natureza perder esse coro

Se as cigarras periódicas desaparecerem, a perda não será só sonora. Menos cigarras significa menos proteína na primavera para aves e outros animais, cadeias alimentares enfraquecidas, mais pressão sobre lagartas e insetos que atacam folhas, florestas mais vulneráveis e solos menos aerados e menos fertilizados por matéria orgânica.

A temporada de 2024, em que trilhões de cigarras fizeram o solo tremer, o ar vibrar e as cidades pararem para prestar atenção, pode ser lembrada, no futuro, como um dos primeiros grandes alertas de que o relógio biológico da natureza está sendo quebrado pelo aquecimento global.

Foram necessários milhões de anos para que esse sistema ficasse tão preciso, mas bastaram poucas décadas de clima desregulado para que o mecanismo começasse a falhar.

E você, o que pensaria se trilhões de cigarras invadissem a sua cidade: encararia isso como espetáculo fascinante da natureza ou como um sinal preocupante de que o aquecimento global já está mudando mais coisas do que conseguimos perceber?

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