A trajetória de Bartel Van Kerckhove, conhecido como Barba, expõe os bastidores de uma migração iniciada em 2018, marcada por ruptura profissional, escolha consciente pela vida rural, construção sem infraestrutura básica, adaptação cultural, aprendizado do idioma, comparação entre Brasil e Bélgica e integração comunitária no interior paulista, próximo ao Parque Nacional da Bocaina
Em 2018, o belga Bartel Van Kerckhove decidiu deixar definitivamente a Europa e iniciar uma nova etapa de vida no Brasil.
Assistente social em seu país de origem, ele abandonou a carreira, mudou-se para a zona rural do interior de São Paulo e passou a viver em um sítio construído do zero, sem infraestrutura básica.
Ele concedeu entrevista exclusiva ao CPG, na qual detalhou o processo de mudança para o Brasil, a adaptação à vida rural, os desafios enfrentados com idioma, cultura e burocracia, além das escolhas familiares e dos planos de longo prazo no país.
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A decisão de deixar a Bélgica e romper com a vida profissional na Europa
Antes mesmo de escolher o Brasil como destino, Bartel já cogitava sair da Bélgica. Segundo ele, o desgaste profissional acumulado ao longo dos anos como assistente social foi um fator decisivo para a mudança.
O trabalho envolvia disputas constantes contra o governo e o sistema jurídico, o que gerava frustração e esgotamento.
Inicialmente, a ideia era migrar para outro país europeu. Noruega e Suíça estavam entre as opções analisadas, principalmente por oferecerem qualidade de vida e condições climáticas mais compatíveis com seus hábitos. Nesse momento, o Brasil ainda não figurava como um destino definitivo.
A mudança de planos ocorreu após conhecer sua esposa, brasileira, e decidir visitá-la no Brasil. A viagem tinha caráter temporário e envolvia turismo, aprendizado e a possibilidade de realizar algum trabalho antes de retornar à Europa.

A vinda ao Brasil e a decisão de permanecer definitivamente no país
A permanência no Brasil não estava nos planos iniciais do casal. No entanto, com o passar do tempo, surgiu o questionamento sobre o retorno à Bélgica ou a mudança para outro país europeu, onde ambos seriam estrangeiros e teriam de enfrentar burocracias desconhecidas.
Diante desse cenário, o casal decidiu permanecer no Brasil e tentar construir uma nova vida no país.
A decisão foi influenciada pela perspectiva de iniciar um projeto próprio e pela percepção de que, no Brasil, haveria mais espaço para experimentar um novo modelo de vida.
O projeto inicial com queijo artesanal e a escolha pela vida rural
A primeira ideia do casal foi trabalhar com produção de queijo, especificamente queijo de leite de ovelha. Bartel já tinha experiência com criação de ovelhas na Bélgica, onde trabalhou por anos com ovelhas de corte. Sua esposa demonstrava interesse direto na produção de queijo.
Apesar da tradição europeia nesse setor, o casal avaliou que iniciar esse tipo de projeto em outro país da Europa seria difícil para dois estrangeiros. No Brasil, enxergaram a possibilidade de tentar o mesmo projeto com menos barreiras iniciais.
Bartel afirma que nunca gostou de viver em grandes cidades. Mesmo na Bélgica, sempre residiu em áreas rurais ou em cidades pequenas. O ambiente urbano, marcado por barulho, estresse e excesso de pessoas, nunca foi compatível com seu estilo de vida.
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A escolha de Cunha e a busca por clima, custo e espaço
Como o mercado de queijo artesanal no Brasil é mais forte nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, o casal concentrou a busca nessas regiões.
O clima foi um fator determinante, já que Bartel relata dificuldade em lidar com calor intenso.
Campos do Jordão chegou a ser considerada, mas os preços elevados dos terrenos inviabilizaram a escolha. A alternativa encontrada foi Cunha, no interior paulista.
Após pesquisar terrenos pela internet, o casal alugou um carro, visitou a região e encontrou o local onde vive atualmente.
O período no Rio de Janeiro e as primeiras dificuldades com o idioma
Antes de se estabelecer definitivamente no sítio, Bartel passou um período no interior de Maricá, no Rio de Janeiro, na casa do sogro. Ele descreve esse período como particularmente difícil, principalmente por causa da barreira linguística.
Sem falar português, Bartel relatou dificuldade em praticar o idioma, já que muitas pessoas tinham receio de conversar com ele. Essa limitação dificultava a integração inicial e aumentava a sensação de isolamento.
A adaptação na roça e o aprendizado prático no dia a dia
A adaptação começou a se consolidar após a mudança para o sítio em Cunha. Bartel passou a trabalhar diariamente com um ajudante local, o que facilitou o aprendizado do português e a compreensão dos costumes da região.
Segundo ele, a vida rural brasileira apresenta semelhanças com a que conhecia nas pequenas cidades da Bélgica, especialmente no que diz respeito ao senso de comunidade. Essa familiaridade tornou a adaptação mais natural para ele do que para sua esposa, que é carioca.
Produção para subsistência e a realidade do trabalho no campo
No sítio, a família mantém criação de gado, porcos, galinhas, perus e angolas. A produção é voltada principalmente para o consumo próprio. Quando há excedente, parte é vendida, mas a atividade não representa a principal fonte de renda.
Bartel destaca que viver exclusivamente da agricultura é difícil, tanto no Brasil quanto na Bélgica. Na Europa, mudanças na legislação tornaram a atividade financeiramente inviável, com aumento de custos e exigências legais.
No Brasil, ele considera a produção rural mais viável no cotidiano, especialmente quando voltada para a subsistência. A experiência prévia com criação animal facilitou a adaptação ao novo contexto.

Construção sem infraestrutura e os desafios estruturais
Um dos maiores desafios enfrentados pelo casal foi a ausência total de infraestrutura no terreno adquirido. O sítio não possuía luz, água ou casa. Toda a estrutura precisou ser construída do zero, com trabalho manual e aprendizado contínuo.
Bartel relata que, na Bélgica, estava acostumado a lidar com sistemas elétricos, hidráulicos e serviços industrializados. No Brasil, a realidade era diferente, exigindo soluções locais e adaptação a métodos desconhecidos.
A falta de domínio do idioma agravou as dificuldades no início, já que não era possível pedir orientação com facilidade. Com o tempo, o aprendizado veio por meio da convivência com trabalhadores locais.
Idioma, cultura e burocracia no processo de adaptação
Bartel aponta o idioma, a cultura e a burocracia como os principais desafios da mudança. O português, segundo ele, não é uma língua fácil, mas sua familiaridade com idiomas permitiu um aprendizado relativamente rápido.
No aspecto cultural, ele relata maior dificuldade de adaptação no Rio de Janeiro. Já na zona rural, considera a cultura mais próxima daquela que conhecia na Bélgica, especialmente pelo senso de comunidade.
Sobre a burocracia, ele avalia que o problema não é exclusivo do Brasil. Com experiência no atendimento a refugiados na Bélgica, afirma que os processos migratórios europeus também são complexos e exigem autonomia ou altos custos com advogados.
Comunidade, natureza e a comparação entre Brasil e Bélgica
Bartel destaca a receptividade das pessoas na comunidade onde vive. Segundo ele, no Brasil, especialmente na zona rural, há mais abertura e disposição para ajudar, enquanto na Bélgica as relações tendem a ser mais frias.
A principal diferença, no entanto, está no espaço e na natureza. O sítio da família possui nove hectares, algo inviável na Bélgica devido ao alto custo da terra. Ele vive próximo ao Parque Nacional da Bocaina, cuja dimensão equivale a dois estados belgas.
A tranquilidade do local, a ausência de barulho e a liberdade oferecida à filha são apontadas como fatores centrais para a qualidade de vida da família.
Planos futuros e a decisão de permanecer no Brasil
Os planos futuros são descritos como simples. O casal pretende melhorar o sítio aos poucos, guardar dinheiro para o futuro da filha e continuar trabalhando para manter uma vida considerada boa para a família.
Bartel afirma não ter vontade de retornar à Bélgica. Embora não descarte totalmente essa possibilidade no futuro, ele diz que sua vida está no Brasil, onde se sente parte da comunidade e construiu raízes sólidas.
A família vive no sítio há cerca de quatro anos. A casa está pronta, mas ainda precisa de melhorias. O sítio também segue em constante transformação, em um processo gradual que reflete a escolha consciente por uma vida construída passo a passo no interior brasileiro.
Atualmente, Bartel também passou a registrar e compartilhar sua rotina na zona rural por meio das redes sociais, especialmente no Instagram, onde publica vídeos sobre trabalho no campo, construção, ferramentas e o cotidiano no sítio.
O conteúdo é divulgado no perfil @gringodasferramentas, sob o nome “Barba | O Gringo das Ferramentas”, ampliando o alcance de sua experiência no Brasil e conectando sua vivência rural a um público interessado nesse tipo de conteúdo.

Interessante a história. Prova de que a imensidão brasileira tem oportunidade para aqueles que querem superar desafios.