No Extremo Oeste de Santa Catarina, o agricultor aposentado Aloísio, de Itapiranga, descobriu que a pedra feia que atrapalhava o plantio escondia ágata e ametista que valem até R$ 600 cada. Há 34 anos ele transforma esse estorvo da lavoura em artesanato de pedra vendido para todo o Brasil e até para o exterior.
No interior de Itapiranga, no Extremo Oeste de Santa Catarina, o agricultor Aloísio, de 71 anos, e a esposa Isabel, de 70, mantêm uma propriedade com lavoura, lagoas de criação de peixes e reflorestamento. O destaque da família, no entanto, não vem do plantio, mas de uma atividade inesperada: o artesanato feito a partir da pedra que durante anos foi vista apenas como um problema para lavrar a terra. Há cerca de 34 anos, seu Aloísio percebeu que aquelas pedras que ele recolhia e jogava fora escondiam ágata e ametista, gemas que hoje ele transforma em peças vendidas para todo o Brasil e até para o exterior, com valores que chegam a R$ 600 cada.
A descoberta começou ao acaso. Quem tem um terreno cheio de pedra conhece o desafio de plantar em meio a esse obstáculo, muitas vezes sendo preciso retirar uma a uma para conseguir trabalhar a terra. Antigamente, seu Aloísio levava esses montes de pedra para as capoeiras, sem saber o que tinha em mãos. Foi quando notou que havia muita gente interessada em comprar exatamente aquilo que para ele era só motivo de preocupação na lavoura e no pasto que o agricultor entendeu que estava sentado sobre uma verdadeira riqueza geológica, escondida dentro de cada pedra aparentemente sem valor.
Como a pedra feia da lavoura virou tesouro em Itapiranga

Ele conta que antigamente tropeçava nas pedras e não sabia valorizá-las, levando-as para longe das áreas de plantio. Com o tempo, ao perceber o interesse de compradores, passou a procurar as gemas em cima das próprias lavouras da região, identificando pelo formato e pela firmeza quais pedras tinham potencial. Algumas são pequenas, do tamanho de uma noz, mas já indicam o cristal escondido no interior.
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O agricultor explica que sente, no manuseio, quando uma pedra tem valor. Ele observa se está firme, se tem cristal por dentro, se apresenta trincos que podem comprometer o corte. Toda a matéria-prima sai das lavouras da região, num processo de garimpo de superfície que não exige escavação profunda. Essa abundância local não é coincidência: o Extremo Oeste catarinense está sobre uma das maiores formações de basalto do planeta, terreno propício para a ocorrência dessas gemas.
De onde vêm a ágata e a ametista do Oeste catarinense

A ágata e a ametista da região se formaram dentro de cavidades de rochas vulcânicas conhecidas como geodos, no interior dos derrames de basalto da Formação Serra Geral, parte da Bacia do Paraná. Esse vulcanismo ocorreu há cerca de 130 milhões de anos, durante a fragmentação do antigo supercontinente Gondwana, e cobriu boa parte dos atuais estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Dentro desses geodos, fluidos ricos em sílica se depositaram lentamente ao longo de milhões de anos, formando as bandas coloridas da ágata e os cristais roxos da ametista. A mesma formação geológica que faz de Ametista do Sul, no norte do Rio Grande do Sul, a chamada capital mundial da ametista, se estende pelo Oeste catarinense, o que explica por que cada pedra recolhida na lavoura de seu Aloísio pode esconder uma surpresa de cor e brilho no seu interior, invisível antes do corte.
O passo a passo do artesanato: da lavoura à peça polida
O trabalho começa pela limpeza. A primeira coisa que seu Aloísio faz ao trazer a pedra da lavoura é lavá-la, para então avaliar a presença de trincos e definir como será o corte. Em seguida, ele usa uma máquina com lâmina regulável que permite ajustar a espessura das fatias. Um único corte pode levar cerca de 15 minutos, dependendo da dureza do material. A ágata, por ser muito dura, precisa ser serrada com um disco específico em trabalho a seco, enquanto o cristal pode ser cortado com água.
Depois do corte, vem o polimento, etapa que pode levar até um mês para as pedras menores. O agricultor usa um processo no qual as pedrinhas trabalham umas contra as outras dentro de uma máquina, uma ajudando a alisar a outra, até ganharem brilho. Algumas peças são apenas cortadas, outras polidas ou lixadas, dependendo do tipo de material. O resultado são objetos variados, de chapas decorativas a peças funcionais como sinos de vento, todos feitos a partir da mesma pedra que antes atrapalhava o cultivo.
Cada pedra é uma surpresa: ágata, ametista e cristal
Um dos aspectos mais fascinantes do trabalho é a imprevisibilidade. Seu Aloísio compara cada pedra a uma pessoa: assim como não existem dois seres humanos iguais, não há duas gemas idênticas, apenas semelhantes. Ao abrir uma peça, ele nunca sabe ao certo qual cor, formato ou grau de cristalização vai encontrar. Algumas são mais ocas, outras mais maciças, e cada corte revela uma composição única no interior.
Entre as peças mais valiosas estão as que combinam mais de uma gema. O agricultor mostra exemplos de uma mistura de ágata com ametista, que produz uma composição de cores entre o marrom, o azulado e os tons de roxo do cristal, peça que pode custar cerca de R$ 600. Uma única pedra retirada da lavoura pode render várias peças: ele relata casos em que uma rocha fechada, ao ser cortada, resultou em 10 ou até 15 unidades acabadas, multiplicando o valor do que originalmente seria descartado.
Pedras vendidas para todo o Brasil e a busca por energia
O artesanato de seu Aloísio já alcançou clientes em todos os cantos do país e até no exterior. Segundo ele, a procura não se dá apenas pela beleza das peças. Muitos compradores levam as pedras pela crença em suas propriedades energéticas, carregando exemplares no bolso para onde vão. O agricultor relata conhecer muitas histórias de pessoas que enxergam uma conexão pessoal com determinada gema, e cita uma frase que ouviu certa vez: não é a pessoa que escolhe a pedra, é a pedra que escolhe a pessoa.
Vale o registro de que o valor energético atribuído a cristais e gemas pertence ao campo das crenças pessoais e não tem comprovação científica. Do ponto de vista mineralógico, a ágata e a ametista são variedades de quartzo, com valor estético, decorativo e comercial reconhecido. Independentemente da motivação de cada comprador, o fato é que a pedra que saía de graça da lavoura virou uma fonte concreta de renda para o casal em Itapiranga, com mercado consolidado dentro e fora do Brasil.
Uma aposentadoria movida a paixão pelas pedras
Hoje aposentado, seu Aloísio diz que não corre mais tanto atrás de vendas como antes, e que recebe grupos de turistas na propriedade mediante agendamento prévio. A atividade, que começou como necessidade de limpar o terreno, virou diversão. Ele conta que chega a passar horas trabalhando à noite, não por obrigação, mas por prazer, conciliando o artesanato com as demais tarefas da propriedade rural.
O agricultor brinca que tem matéria-prima suficiente para trabalhar por mais 300 anos, tamanha a quantidade de pedras espalhadas pelas lavouras da região. Essa fartura, somada ao baixo custo de extração, já que o material é coletado na superfície do próprio terreno, faz do artesanato uma atividade rentável e sustentável. A história de Itapiranga mostra como um olhar atento pode transformar aquilo que parecia um obstáculo em oportunidade, dando novo significado a cada pedra que antes era apenas descartada.
A trajetória de seu Aloísio e dona Isabel é um exemplo de como o conhecimento e a observação podem revelar valor onde antes só se via problema. O que para a maioria dos agricultores era um estorvo a ser removido virou, no Extremo Oeste catarinense, uma fonte de renda, de turismo e de orgulho familiar. A geologia generosa da região, herança de erupções vulcânicas de milhões de anos, segue oferecendo surpresas a cada corte de pedra, lembrando que tesouros podem estar escondidos nos lugares mais inesperados.
Você já imaginou que uma simples pedra recolhida de uma lavoura poderia esconder ágata e ametista que valem centenas de reais? Conhece alguém que transformou um obstáculo do campo em fonte de renda? Deixe seu comentário, conte se você coleciona ou já comprou peças de pedras naturais e compartilhe a matéria com quem se interessa por geologia, artesanato e histórias inspiradoras do interior do Brasil.


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