É preciso entender o tamanho da conquista e dos seus limites. O ensaio aconteceu em terra, em um túnel de vento que simula a velocidade extrema, não em voo real. O propulsor de cerca de dois metros queimou hidrogênio sob temperaturas próximas de 1.000 graus, e a próxima etapa será montar o protótipo em um foguete de sondagem.
Duas vezes e meia mais rápido que o Concorde e capaz, em tese, de cruzar o Pacífico em cerca de duas horas, o motor ramjet hipersônico testado pela JAXA, a Agência de Exploração Aeroespacial do Japão, passou com sucesso no exame de combustão a Mach 5. O resultado foi anunciado em 16 de abril de 2026 pela Universidade Waseda, em parceria com a própria JAXA, a Universidade de Tóquio e a Universidade Keio, em mais um avanço da corrida global pelo voo civil ultrarrápido.
O experimento foi conduzido no Centro Espacial Kakuda, na província de Miyagi, e marca um passo importante para o sonho do voo comercial a aproximadamente 5.300 quilômetros por hora, atualmente previsto para os anos 2040. Apesar do entusiasmo nas redes sociais, é preciso registrar que o teste ocorreu em uma instalação de bancada que simula as condições de voo a Mach 5, e não em uma aeronave realmente em movimento no ar, distinção fundamental para entender em que estágio o projeto realmente está.
O que foi feito no Centro Espacial Kakuda

Os pesquisadores instalaram um veículo experimental de cerca de dois metros de comprimento dentro de uma instalação especializada de testes de motores ramjet, capaz de simular as condições extremas de voo a cinco vezes a velocidade do som. Durante o ensaio, o protótipo foi exposto a temperaturas externas que beiraram os 1.000 graus Celsius, o equivalente a cerca de 1.832 graus Fahrenheit, recriando o aquecimento aerodinâmico típico do voo hipersônico.
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O teste validou três pontos críticos: o desempenho da combustão do motor ramjet em regime hipersônico, a integridade do sistema de proteção térmica e o funcionamento das superfícies de controle aerodinâmico. Segundo a JAXA, o escudo térmico manteve as temperaturas internas em níveis próximos do normal, permitindo que os equipamentos eletrônicos a bordo continuassem operando sem falhas. Os dados servirão para refinar os modelos térmicos e estruturais usados no projeto de futuras aeronaves do tipo.
Por que o motor ramjet é tão especial

Em vez de usar um grande compressor frontal, como nos motores convencionais a jato, ele aproveita o próprio movimento da aeronave em altíssima velocidade para comprimir o ar de entrada, que então se mistura ao combustível e queima, gerando empuxo. Isso permite alcançar velocidades hipersônicas com uma arquitetura mais compacta e potencialmente mais eficiente em determinados regimes de voo.
No experimento da JAXA, segundo a Universidade Waseda, o combustível usado foi o hidrogênio, opção que casa com o debate atual de transição energética e descarbonização do setor aéreo. A queima de hidrogênio gera vapor d’água como principal subproduto, embora a discussão sobre impactos atmosféricos do voo hipersônico, incluindo a emissão em camadas elevadas da atmosfera, ainda esteja em fase inicial e mereça acompanhamento técnico nos próximos anos.
O sonho de cruzar o Pacífico em duas horas
Se a tecnologia chegar à fase comercial, ela poderá transformar a forma como se viaja entre continentes. Atualmente, um voo direto entre Tóquio e a Costa Oeste dos Estados Unidos leva em torno de 12 horas em uma aeronave comum. Em uma futura aeronave hipersônica com motor ramjet, esse mesmo trajeto poderia ser feito em aproximadamente duas horas, segundo cenários divulgados pela própria JAXA, em uma velocidade cerca de seis vezes maior do que a de um jato comercial padrão.
Como comparação, o lendário Concorde, que operou voos comerciais até 2003, atingia cerca de Mach 2, ou aproximadamente duas vezes a velocidade do som. O conceito japonês, ao mirar Mach 5, é cerca de duas vezes e meia mais rápido. A altitude prevista de operação fica em torno de 25 quilômetros, equivalente a algo como 90 mil pés, mais que o dobro do nível em que voam atualmente os aviões de passageiros, em um ambiente atmosférico bem mais rarefeito.
Cuidado para não confundir bancada com voo
Embora animador, é importante separar o que aconteceu do que ainda está por vir. O resultado de abril foi um sucesso de combustão e proteção térmica em ambiente controlado, em uma instalação que simula as condições aerodinâmicas e térmicas do Mach 5. Em nenhum momento o protótipo decolou ou voou de verdade, o que significa que vários desafios típicos do voo livre, como estabilidade real, ruído, certificação de segurança e operação em ambiente atmosférico variável, ainda estão pela frente.
A próxima etapa, segundo a equipe envolvida, deve ser instalar o veículo experimental em um foguete de sondagem ou em um veículo de lançamento similar para uma demonstração de voo real a Mach 5. Esse tipo de teste já se aproxima das condições efetivas de uso, mas ainda está distante de um avião de passageiros pronto para entrar em operação comercial regular, com toda a complexidade logística e regulatória que isso envolve.
O horizonte de 20 anos
O próprio time de pesquisa é cauteloso sobre o calendário. Em entrevista ao jornal japonês Mainichi, o professor Hideyuki Taguchi, da Universidade de Ciências de Tóquio, explicou que o desenvolvimento de uma aeronave convencional costuma levar cerca de dez anos. No caso de uma aeronave hipersônica de passageiros, são duas fases de demonstração, com uma aeronave experimental seguida de uma aeronave de passageiros, processo estimado em cerca de 20 anos entre os primeiros testes e a operação comercial.
Isso coloca uma eventual entrada em serviço regular na faixa dos anos 2040, sempre dependendo de financiamento contínuo, de avanços tecnológicos paralelos e da aceitação do mercado consumidor. Há ainda dúvidas sobre custo de operação, viabilidade econômica, ruído na decolagem e pouso, segurança e impacto ambiental, fatores que já contribuíram, no passado, para o fim da operação comercial do Concorde, em 2003.
A corrida global pelo voo ultrarrápido
O esforço japonês não é solitário. A pesquisa em propulsão hipersônica vem ganhando força em vários países, impulsionada pela combinação de interesses civis e militares. Empresas privadas nos Estados Unidos, na Europa e em outras nações asiáticas desenvolvem projetos próprios para aeronaves supersônicas e hipersônicas, e a tecnologia ramjet, assim como sua variante chamada scramjet, está no centro dessas iniciativas, ao lado da pesquisa em mísseis de longo alcance.
Para o leitor que acompanha petróleo, gás e energia, há um ponto extra de interesse. O uso de hidrogênio como combustível em motores hipersônicos abre uma janela de discussão sobre a cadeia de produção e logística desse vetor energético, hoje tema central em projetos de hidrogênio verde, azul e branco em diversos países, inclusive no Brasil. Caso o voo hipersônico avance comercialmente, será mais um setor a demandar volumes expressivos desse combustível em escala global.
O sucesso do teste de combustão do motor ramjet hipersônico da JAXA no Centro Espacial Kakuda é um marco real e importante, mas precisa ser lido com a cabeça fria. Estamos diante de um avanço científico significativo em um laboratório, e não de um avião de passageiros pronto para vender bilhete. Se a tecnologia se confirmar nas próximas etapas, o mundo pode mesmo encurtar voos transoceânicos para cerca de duas horas, mas isso, segundo os próprios pesquisadores japoneses, deve levar pelo menos duas décadas para virar realidade comercial.
E você, o que achou desse avanço do Japão na corrida pelos voos hipersônicos? Pegaria um avião que cruza o Pacífico a 5.300 km/h em duas horas, ou prefere ficar com os voos comerciais tradicionais? Deixe seu comentário, conte sua expectativa sobre o futuro da aviação e compartilhe a matéria com quem se interessa por aviação, tecnologia e ciência.

O mundo não para, nem o tempo. Como dizia a música de Belchior, não a do medo de avião, mas aquela interpretada por ele e Elis Regina, o que hoje e novo, amanhã será antigo.
Mas e o Domo da terra plana, como fica?
Se até lá eu estiver vivo para ver, lembrarei desta reportagem rsrsrsrsrsrsrsrs