Do tamanho de um peru, com penugem macia e pedras no estômago, o Doolysaurus é a primeira nova espécie de dinossauro encontrada na Coreia do Sul em 15 anos — e recebeu o nome de um personagem de desenho animado
Quando a pesquisadora Hyemin Jo encontrou um bloco de rocha na ilha de Aphae, na Coreia do Sul, em 2023, ela viu apenas alguns ossos de perna e vértebras na superfície. Ninguém esperava o que estava escondido dentro.
Meses depois, no laboratório da Universidade do Texas em Austin, o escaneamento por microtomografia revelou fragmentos de crânio, gastrolitos (pedras estomacais) e marcas de crescimento no fêmur. Era um filhote de dinossauro de uma espécie totalmente nova.
Os cientistas batizaram a criatura de Doolysaurus huhmini — o primeiro nome é uma homenagem a Dooly, personagem icônico dos desenhos animados coreanos dos anos 1980. O segundo homenageia o paleontólogo Min Huh, fundador do Centro Coreano de Pesquisa em Dinossauros.
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O estudo foi publicado em 19 de março de 2026 na revista científica Fossil Record.

Um filhote de dinossauro do tamanho de um peru que tinha penugem e comia insetos
O Doolysaurus era pequeno. Com cerca de 2 anos de idade quando morreu, o filhote media aproximadamente o tamanho de um peru. Adultos da espécie chegariam ao dobro desse tamanho.
O corpo era coberto por filamentos macios semelhantes a penugem — não penas completas, mas uma cobertura felpuda que provavelmente ajudava na regulação térmica.
Os gastrolitos encontrados no fóssil indicam uma dieta mista. O dinossauro engolia pedrinhas para ajudar a triturar alimentos no estômago — um comportamento comum em aves modernas.
Além de plantas, o Doolysaurus provavelmente caçava insetos e pequenos animais. Era bípede e pertencia à família dos thescelosaurídeos, grupo comum no Leste Asiático e na América do Norte durante o Cretáceo Médio, entre 113 e 94 milhões de anos atrás.
A surpresa dentro da rocha: micro-CT revelou crânio que ninguém esperava encontrar
“Quando encontramos o espécime, vimos alguns ossos de pernas preservados e algumas vértebras. Não esperávamos partes do crânio e tantos outros ossos”, disse o pesquisador Jongyun Jung.
“Houve uma quantidade considerável de entusiasmo quando vimos o que estava escondido dentro do bloco”, completou Jung.
A tecnologia de microtomografia computadorizada (micro-CT) do UTCT facility da Universidade do Texas — disponível para a comunidade acadêmica há quase 30 anos — permitiu visualizar estruturas internas do fóssil sem destruí-lo.
O crânio preservado é extraordinariamente raro. É o primeiro fóssil de dinossauro encontrado na Coreia do Sul com fragmentos cranianos.
No Brasil, descobertas semelhantes surpreendem. O Dasosaurus tocantinensis, dinossauro de 20 metros encontrado no Maranhão, também foi revelado por operários durante uma obra — conectando o Brasil à Espanha há 120 milhões de anos.

Primeira nova espécie em 15 anos: por que a Coreia do Sul é tão rara em dinossauros
O Doolysaurus é a primeira nova espécie de dinossauro identificada na Coreia do Sul em 15 anos. O contraste com países vizinhos como China e Mongólia — que descobrem novas espécies com frequência — é marcante.
A razão está na geologia. A Coreia possui relativamente poucos afloramentos sedimentares do Cretáceo expostos, e os que existem estão em ilhas costeiras de difícil acesso.
Porém, a ilha de Aphae pode mudar esse cenário. “Esperamos que novos fósseis de dinossauros ou ovos venham de Aphae e de outras pequenas ilhas”, afirmou Jongyun Jung.
O fato de o Doolysaurus ser um thescelosaurídeo reforça conexões faunísticas entre Leste Asiático e América do Norte. Parentes próximos da espécie viviam em Montana, nos Estados Unidos, indicando que os continentes estavam conectados pelo supercontinente Laurásia.
Achados como o vômito fossilizado de 290 milhões de anos na Alemanha mostram que até os vestígios mais improváveis podem reescrever a história da vida na Terra.

Por que cientistas batizaram um dinossauro com o nome de um personagem de desenho animado
O nome Doolysaurus não é aleatório. Dooly é um dos personagens de animação mais queridos da Coreia do Sul, criado nos anos 1980. É um pequeno dinossauro verde com personalidade cativante que conquistou gerações de coreanos.
A homenagem serve a um propósito além da nostalgia. Vincular uma descoberta científica a um ícone cultural aumenta o engajamento do público com a paleontologia.
O segundo nome, huhmini, honra o paleontólogo Min Huh, que dedicou mais de 30 anos à pesquisa de dinossauros coreanos. Huh fundou o Centro Coreano de Pesquisa em Dinossauros e colaborou com a UNESCO na preservação de sítios fósseis.
A pesquisa contou com colaboração internacional entre o Korean Dinosaur Research Center e a Jackson School of Geosciences da Universidade do Texas.
Fóssil parcial e estimativas — o que ainda não sabemos sobre o Doolysaurus
Por outro lado, é importante ressaltar que o fóssil é parcial. As estimativas de tamanho adulto e a presença de penugem são inferências baseadas em anatomia comparada com espécies relacionadas — não confirmadas por espécimes adultos.
Além disso, não há dados sobre custos da pesquisa ou data exata do escaneamento por micro-CT.
A descoberta ocorreu durante pesquisa paleontológica na ilha de Aphae, não em canteiro de obras como às vezes relatado de forma imprecisa.
Ainda assim, o Doolysaurus abre uma janela para um período pouco explorado da pré-história coreana. Se mais fósseis emergirem das ilhas costeiras, como os pesquisadores esperam, a Coreia do Sul pode se consolidar como um novo polo paleontológico na Ásia.

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