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Dono de loja avisa que Tabela Fipe “não condiz mais com o mercado” e diz que seminovo agora precisa custar menos para não ficar parado no estoque

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Escrito por Ruth Rodrigues Publicado em 30/08/2026 às 19:25
Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque.
Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque. (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)
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Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque.

Vender pelo valor indicado na Tabela Fipe deixou de ser suficiente para algumas revendas de Belém. Com veículos zero-quilômetro mais competitivos e consumidores mais cautelosos, lojistas passaram a reduzir os preços dos carros usados para evitar que unidades permaneçam paradas no estoque. Para o empresário do setor automotivo Igor Mutran, a referência nacional perdeu aderência ao valor efetivamente aceito nas negociações locais.

O cenário inverte uma prática que já permitiu a determinados veículos superar a própria tabela. Agora, segundo Mutran, alcançar a Fipe pode representar o limite da negociação, enquanto fechar abaixo dela se tornou necessário para acelerar as vendas. A pressão é maior quando o seminovo disputa atenção com um automóvel novo de preço próximo e mais recursos tecnológicos.

Fipe deixou de representar o valor que fecha negócio, diz lojista

A mudança aparece primeiro no balcão das lojas. Um veículo pode ter determinada cotação de referência e, ainda assim, precisar de desconto para encontrar comprador.

Mutran resume sua avaliação afirmando que “a Fipe hoje não condiz mais com o mercado”. A percepção vale tanto para a definição do preço de venda quanto para a avaliação feita pela revenda no momento de adquirir um automóvel para o próprio estoque.

Essa diferença cria um problema para o comerciante. Se a loja compra um carro calculando uma margem baseada em uma referência que depois não consegue sustentar diante do consumidor, o espaço para lucro diminui.

Por isso, acertar o valor de entrada no estoque passou a ser tão importante quanto definir o anúncio. Um erro nessa primeira etapa pode deixar o automóvel caro demais justamente em um momento de redução de preços.

Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque.
Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque. (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)

Carro parado pode perder valor antes de encontrar comprador

A preocupação das revendas não termina quando o veículo chega ao pátio.

Em um mercado em queda, tempo de estoque pode significar necessidade de novos cortes no preço. Quanto mais demora a venda, maior o risco de a loja precisar rever novamente o valor anunciado para acompanhar concorrentes e ofertas de veículos novos.

Essa dinâmica mudou a estratégia comercial. Mutran afirma que os revendedores precisam atualizar campanhas e reavaliar preços com maior frequência para continuar competitivos.

A prioridade passa a ser preservar o giro. Em vez de esperar indefinidamente por um comprador disposto a pagar a referência integral, a loja pode aceitar uma margem menor para liberar capital e abrir espaço para outro negócio.

Na visão do empresário, tentar sustentar preços que o mercado já não aceita aumenta justamente o problema que a revenda quer evitar: carros usados acumulados no estoque enquanto os valores continuam cedendo.

Zero-km mais barato diminuiu distância para o seminovo

Uma das forças por trás desse movimento está no mercado de veículos novos.

Mutran associa parte da transformação à entrada mais forte das fabricantes chinesas, que passaram a disputar consumidores combinando automóveis zero-quilômetro, tecnologia e garantias extensas.

Esse avanço provocou reação das marcas já estabelecidas. Para não perder clientes, fabricantes tradicionais também passaram a trabalhar preços e equipamentos de maneira mais agressiva.

O lojista cita como exemplo o Jeep Avenger, apresentado com preço inicial de R$ 114 mil. A importância desse movimento para as revendas não está apenas naquele modelo específico, mas na aproximação entre algumas ofertas de novos e o que vinha sendo cobrado por seminovos.

Quando a diferença diminui, o consumidor ganha outro parâmetro para decidir.

Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque.
Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque. Fonte: Arquivo pessoal.

Carros usados precisam entregar vantagem financeira evidente

A disputa muda quando o comprador compara um usado com um zero-quilômetro de valor relativamente próximo.

O seminovo deixa de concorrer apenas com outros veículos usados. Ele passa a enfrentar carros novos que chegam acompanhados de tecnologia e garantia, características destacadas por Mutran ao explicar a pressão atual.

Nesse ambiente, o preço precisa compensar.

Um carro usado que custa praticamente o mesmo que uma alternativa nova enfrenta maior dificuldade para justificar a escolha. A diferença financeira precisa ser suficientemente clara para manter o veículo atraente na avaliação do cliente.

É justamente nessa distância que as revendas de Belém vêm mexendo.

Localização também interfere no quanto é possível pedir

A perda de força da Fipe não significa que todos os automóveis brasileiros estejam sendo negociados pelo mesmo percentual abaixo da referência.

Mutran ressalta que o comportamento varia entre estados e regiões. Oferta disponível, procura e concorrência local podem alterar o preço efetivamente aceito.

Em Belém, porém, o empresário observa um mercado no qual já não existe a mesma facilidade para vender acima da tabela.

Essa particularidade também exige cautela na avaliação. Uma cotação nacional pode continuar funcionando como ponto inicial, mas o preço necessário para fechar negócio depende das condições encontradas naquele mercado específico.

Juros altos também tiraram compradores das lojas

Enquanto a oferta ficou mais competitiva, a procura pelos seminovos enfrentou outra barreira: o orçamento das famílias.

Mutran aponta custo de vida elevado e juros altos entre os fatores que reduziram a disposição para trocar de automóvel. Ele menciona uma taxa Selic de 14% ao ano dentro do cenário analisado.

O efeito aparece principalmente quando existe financiamento. Crédito mais caro eleva o comprometimento mensal necessário para comprar um veículo e faz parte dos consumidores adiar a decisão.

Isso cria uma combinação desfavorável para a revenda: é preciso disputar o cliente com ofertas mais agressivas de carros novos justamente quando existe menos gente disposta a assumir uma nova compra.

Combustível e cenário internacional entram na conta do consumidor

A análise de Mutran não se limita aos juros.

O empresário também relaciona a cautela dos compradores às oscilações de combustível e ao impacto do cenário internacional sobre petróleo e dólar.

Essas despesas se somam ao custo de vida e afetam a quantidade de dinheiro disponível para assumir um automóvel ou substituir aquele que já está na garagem.

Diante dessa conjuntura, trocar de carro deixa de ser prioridade para parte das famílias, prolongando o ciclo de propriedade do veículo atual.

Para as lojas, o resultado aparece novamente no estoque: menos procura exige uma política de preços capaz de gerar interesse mesmo em um consumidor mais resistente a gastar.

Quem compra ganha mais espaço para negociar

Se o momento exige cautela dos lojistas, ele pode ampliar as possibilidades para quem está do outro lado da mesa.

Uma revenda preocupada em liberar unidades paradas tende a ter menos margem para insistir em valores elevados. Pesquisar anúncios semelhantes e comparar a distância para a Fipe pode ajudar o consumidor a identificar até onde existe espaço para negociação.

A presença de zero-quilômetro com preços mais competitivos cria ainda um segundo parâmetro. Antes de fechar a compra, o cliente pode colocar lado a lado o valor do seminovo e as alternativas novas disponíveis dentro de seu orçamento.

Essa comparação pressiona diretamente o vendedor a demonstrar por que o usado ainda representa uma escolha financeiramente interessante.

Revendas precisam reaprender a comprar antes de reaprender a vender

A nova fase também altera uma decisão menos visível ao público: quanto a loja pode pagar por um veículo que entra no estoque.

Se a expectativa de revenda diminuiu, a avaliação feita na compra precisa acompanhar essa realidade. Caso contrário, o comerciante começa a operação com uma margem que existe apenas no papel.

Isso ajuda a explicar por que Mutran fala em readaptação do setor. O desafio não é simplesmente colocar uma etiqueta menor no para-brisa.

Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque.
Preço dos carros usados cai em Belém, e dono de loja afirma que a Tabela Fipe deixou de acompanhar as negociações e exige descontos para girar estoque. (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)

A mudança começa no preço pago pelo automóvel, passa pela margem pretendida, chega à campanha de divulgação e termina na negociação final com o consumidor.

Quando uma dessas etapas utiliza referências antigas, aumenta o risco de o carro permanecer tempo demais sem comprador.

Carros usados entram em fase de preço mais negociado em Belém

A percepção apresentada por Igor Mutran aponta para um mercado diferente daquele em que a Fipe funcionava quase como destino natural da negociação. Em Belém, a tabela continua servindo de referência, mas o preço capaz de realmente tirar um veículo do estoque pode estar abaixo dela.

A concorrência dos zero-quilômetro, a reação das fabricantes tradicionais e a menor disposição do consumidor para assumir financiamentos criaram uma pressão dupla sobre as revendas.

Nesse cenário, o maior risco para o lojista é insistir em uma cotação que o cliente já não aceita e assistir ao automóvel perder competitividade enquanto permanece parado.

Para os carros usados, portanto, a mudança não está apenas na queda do preço anunciado. A nova lógica descrita por Mutran obriga a revenda a comprar melhor, reduzir margens quando necessário e negociar abaixo da Fipe para continuar girando o estoque.

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Ruth Rodrigues

Formada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), atua como redatora e divulgadora científica.

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