1. Início
  2. Curiosidades
  3. “Trabalhamos seis dias por semana, de dez a doze horas por dia”: brasileiros que vivem como decasséguis nas fábricas do Japão relatam salário pago por hora, dependência de horas extras para sobreviver e uma rotina exaustiva escondida atrás do sonho japonês, no retrato da vida real de quem sustenta a linha de produção do outro lado do mundo
Faça um comentário 6 min de leitura

“Trabalhamos seis dias por semana, de dez a doze horas por dia”: brasileiros que vivem como decasséguis nas fábricas do Japão relatam salário pago por hora, dependência de horas extras para sobreviver e uma rotina exaustiva escondida atrás do sonho japonês, no retrato da vida real de quem sustenta a linha de produção do outro lado do mundo

Imagem de perfil do autor Bruno Teles
Escrito por Bruno Teles Publicado em 28/08/2026 às 12:57 Atualizado em 28/08/2026 às 12:58
Brasileiros decasséguis no Japão relatam jornadas de até 12 horas, seis dias por semana, pagamento por hora, horas extras e desigualdades no trabalho industrial.
Brasileiros decasséguis no Japão relatam jornadas de até 12 horas, seis dias por semana, pagamento por hora, horas extras e desigualdades no trabalho industrial.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Brasileiros que trabalham como decasséguis no Japão enfrentam jornadas médias de seis dias por semana e dez a doze horas diárias, segundo pesquisa sobre imigrantes. Muitos recebem por hora, dependem de horas extras para garantir a subsistência e convivem com terceirização, diferenças salariais e insegurança apesar da formação e experiência.

Brasileiros que atravessaram o mundo para trabalhar nas fábricas japonesas encontram uma rotina marcada por jornadas que, em média, chegam a seis dias por semana e dez a doze horas por dia. Muitos decasséguis têm contratos terceirizados, recebem pelas horas efetivamente trabalhadas e recorrem às horas extras para assegurar a própria subsistência e, quando possível, formar alguma poupança.

Segundo texto da jornalista Juliana Sayuri, publicado pelo Blog da Boitempo em 3 de julho de 2026, as condições aparecem na pesquisa de Mariana Shinohara Roncato sobre brasileiros que trabalham no Japão. A socióloga realizou trabalho de campo entre 2016 e 2017, retornando à cidade de Toyota, onde havia vivido parte da infância e da juventude.

Cerca de 211 mil brasileiros vivem atualmente no Japão

Brasileiros decasséguis no Japão relatam jornadas de até 12 horas, seis dias por semana, pagamento por hora, horas extras e desigualdades no trabalho industrial.
Brasileiros decasséguis no Japão relatam jornadas de até 12 horas, seis dias por semana, pagamento por hora, horas extras e desigualdades no trabalho industrial.

O fenômeno decasségui atravessa décadas da relação migratória entre Brasil e Japão.

Segundo o texto, cerca de 211 mil brasileiros vivem atualmente no arquipélago, muitos inseridos nas condições de trabalho investigadas por Roncato.

A palavra japonesa dekassegui pode ser traduzida como “sair de casa para trabalhar”. A forma aportuguesada, decasségui, entrou nos dicionários brasileiros na década de 2000, quando o fluxo de nipo-brasileiros para fábricas japonesas já estava consolidado.

Pesquisa voltou à cidade de Toyota para ouvir trabalhadores

Roncato retornou à cidade de Toyota, que abriga a sede da montadora Toyota Motors, para investigar como vivem e trabalham os brasileiros inseridos naquele ambiente industrial.

A pesquisa analisou o fenômeno pelas perspectivas de classe, gênero, raça e etnia, com atenção tanto ao trabalho nas fábricas quanto às condições de reprodução da vida dos imigrantes.

A autora também tinha uma relação pessoal com aquela realidade: viveu dez anos como imigrante no Japão.

Homidanchi abriga mais de mil famílias brasileiras

Parte central da investigação ocorreu no Homidanchi, conjunto habitacional conhecido como Little Brazil.

O local reúne mais de mil famílias brasileiras e se tornou um dos espaços observados pela pesquisadora durante o trabalho de campo.

Foi nesse contexto que Roncato ouviu relatos sobre jornadas, salários, contratação por empreiteiras e diferenças de tratamento entre trabalhadores japoneses e estrangeiros.

Jornadas chegam a dez ou doze horas por dia

A pesquisa descreve uma rotina na qual, em média, um decasségui trabalha seis dias por semana.

A jornada diária costuma ficar entre dez e doze horas, podendo ser ainda maior dependendo da produção.

O número de horas trabalhadas ganha importância adicional porque a remuneração de muitos desses imigrantes é calculada por hora.

Horas extras ajudam a garantir a subsistência

Brasileiros decasséguis no Japão relatam jornadas de até 12 horas, seis dias por semana, pagamento por hora, horas extras e desigualdades no trabalho industrial.
Brasileiros decasséguis no Japão relatam jornadas de até 12 horas, seis dias por semana, pagamento por hora, horas extras e desigualdades no trabalho industrial.

Os decasséguis retratados na pesquisa não têm necessariamente o mesmo tipo de vínculo dos japoneses contratados por tempo indeterminado.

Segundo Roncato, o trabalhador imigrante recebe por hora, o que aumenta a necessidade de realizar horas extras.

A extensão da jornada serve para garantir a subsistência e, se houver margem financeira, permitir a formação de uma poupança.

Contratos são terceirizados e passam por empreiteiras

As condições observadas entre 2016 e 2017 reproduziam aspectos que a própria família da pesquisadora havia vivido décadas antes.

O pai de Roncato trabalhou por muito tempo como operário no Japão durante a década de 1990, submetido a jornadas semelhantes às relatadas pelos trabalhadores entrevistados posteriormente.

Entre as características encontradas estavam contratos terceirizados mediados por empreiteiras e pagamento de acordo com as horas trabalhadas.

Nacionalidade e gênero aparecem nas diferenças salariais

A pesquisa também identificou remunerações distintas conforme nacionalidade e gênero.

Segundo os relatos reunidos por Roncato, mulheres recebem menos e ainda enfrentam outras jornadas de trabalho dentro de casa.

As mães solo aparecem no estudo em situação de maior isolamento e vulnerabilidade.

Relatos apontam hierarquia salarial entre imigrantes e japoneses

As desigualdades não se limitam à divisão entre japoneses e estrangeiros.

Segundo os depoimentos reunidos na investigação, não seria incomum que uma operária chinesa recebesse menos que uma brasileira, enquanto a brasileira ganhasse menos que uma japonesa.

Um dos entrevistados classificou como “óbvio” que as condições fossem diferentes, mostrando como a discriminação salarial podia ser tratada com naturalidade naquele ambiente.

Ônibus nacionalista levou discurso de ódio ao Little Brazil

Roncato relata ainda um episódio de hostilidade explícita contra os moradores estrangeiros.

Um grupo nacionalista percorreu o Homidanchi em um ônibus, utilizando um megafone para propagar discursos de ódio contra imigrantes.

A cena expôs outra dimensão da experiência enfrentada por brasileiros que haviam partido para o Japão esperando principalmente trabalhar, economizar e depois retornar ao Brasil.

Muitos pretendiam juntar dinheiro e voltar ao Brasil

A expectativa inicial de grande parte dos brasileiros era permanecer temporariamente no Japão.

Eles pretendiam trabalhar, guardar dinheiro e voltar ao Brasil depois de alcançar seus objetivos financeiros.

A trajetória de muitos, porém, tomou outro caminho: permaneceram no país durante períodos cada vez maiores.

Imigrantes ficaram “para sempre temporários”

Roncato descreve parte desses trabalhadores como “para sempre temporários”.

O termo resume a situação de pessoas que inicialmente imaginavam uma passagem curta pelo Japão, mas acabaram ficando durante anos sem necessariamente alcançar integração plena à sociedade japonesa.

Segundo o texto, muitos permanecem à margem de uma série de direitos, incluindo direitos políticos.

Desigualdades também atravessam a vida fora da fábrica

A investigação mostra que a experiência migratória não termina quando acaba o turno de trabalho.

As condições dos brasileiros no Japão são atravessadas por desigualdades socioeconômicas, discriminações étnico-raciais e opressões de gênero.

Para as mulheres, a pesquisa chama atenção especialmente para salários menores e para a carga adicional do trabalho realizado dentro de casa.

Pesquisa compara realidade atual à vivida por operários nos anos 1990

A experiência do pai de Roncato permitiu observar uma continuidade entre gerações de trabalhadores.

Ele havia sido operário no Japão na década de 1990, enquanto a investigação de campo realizada pela filha entre 2016 e 2017 encontrou jornadas e formas de contratação semelhantes.

A permanência dessas características ajuda a explicar por que o trabalho decasségui continua associado a vínculos terceirizados, pagamento por hora e jornadas extensas.

Livro reúne investigação sobre trabalho e migração decasségui

A pesquisa foi apresentada na obra Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social, da coleção Mundo do Trabalho.

O estudo analisa a migração brasileira para o Japão articulando as dimensões de classe, gênero, raça e etnia e as condições enfrentadas por trabalhadores inseridos nas fábricas e em outros empreendimentos.

O fluxo migratório retratado já soma cerca de 30 anos, com uma comunidade brasileira superior a 200 mil pessoas no arquipélago.

Jornada longa e pagamento por hora permanecem no centro da experiência

O retrato apresentado pela pesquisa mostra brasileiros que continuam dependendo diretamente da quantidade de horas trabalhadas para sustentar a vida no Japão.

Com jornadas médias de seis dias por semana e dez a doze horas por dia, terceirização e diferenças salariais por gênero e nacionalidade, muitos permaneceram no país muito além do período que imaginavam quando partiram do Brasil.

Para você, jornadas tão extensas e contratos pagos por hora justificam o projeto de permanecer no Japão ou tornam o custo pessoal alto demais para os trabalhadores imigrantes? Deixe sua opinião nos comentários.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x