Um inglês e um canadense compraram um Reliant Robin, o carro de três rodas britânico dos anos 70 batizado de Sheila, e partiram de Londres rumo ao extremo sul da África em uma viagem de 22,5 mil quilômetros por 22 países. Sem ar-condicionado e com motor de baixa potência, a dupla levou mais de 120 dias para chegar à Cidade do Cabo.
A proposta era tão absurda que não podia ser recusada. Quando o canadense Seth Scott sugeriu ao inglês Ollie Jenks que atravessassem a África inteira em um carro de três rodas, a resposta veio sem hesitação. O veículo escolhido foi um Reliant Robin, modelo britânico que ficou famoso no Reino Unido por ser simples, barato e projetado para um único propósito: ir ao mercado e voltar. Com motor de baixa potência, sem ar-condicionado, sem direção hidráulica e desempenho ruim tanto em subidas quanto em descidas, o Robin é o oposto de tudo que se esperaria de um veículo para cruzar florestas tropicais, montanhas e desertos africanos.
O carro foi batizado de Sheila, comprado especialmente para a aventura e carregado com combustível e suprimentos básicos amarrados no pequeno teto. A dupla partiu de Londres em outubro com destino à Cidade do Cabo, na África do Sul, planejando percorrer cerca de 22,5 mil quilômetros por 22 países. O trajeto durou mais de 120 dias e custou entre US$ 40 mil e US$ 50 mil, bancados por patrocinadores e financiamento coletivo. A jornada foi documentada em uma página no Instagram que reuniu quase 100 mil seguidores sob o título que resume tudo: “14 mil milhas, 3 rodas, 0 bom senso”.
O que acontece quando um carro de três rodas enfrenta a África real
Segundo informações divulgas pelo portal do G1, os problemas mecânicos começaram antes mesmo de o carro de três rodas deixar a Europa. Nas primeiras semanas, Sheila precisou trocar as molas da roda, um sinal claro de que o veículo não havia sido projetado para suportar estradas fora do asfalto britânico. Em Gana, o câmbio quebrou e deixou o Robin preso na quarta marcha, forçando a dupla a dirigir centenas de quilômetros sem poder reduzir a velocidade de forma adequada.
-
Farol no meio do deserto intriga visitantes por estar a mais de 160 km do mar, ter 15 metros de altura, alcance de 19 km e ter sido criado por artista após anos de burocracia no Mojave
-
Adeus gerador a gasolina: a estação de energia Bluetti AC70 liga geladeira e Wi-Fi no apagão, entrega 1.000 W, recarrega no sol e tem bateria de 3.000 ciclos por R$ 4.499
-
Buraco negro gigantesco desafia o que a ciência acreditava ser possível: Phoenix A* teria massa de 100 bilhões de sóis, supera o famoso TON 618 e fica no centro de um dos maiores aglomerados de galáxias já conhecidos
-
Adeus deixar o vinho na geladeira comum: a adega climatizada da Midea guarda até 34 garrafas, controla a temperatura de 5 a 18 graus e gasta cerca de meio kWh por dia
Em Camarões, os problemas se acumularam: falhas na embreagem, defeito no distribuidor e, por fim, o motor simplesmente parou de funcionar. A viagem só não terminou ali porque desconhecidos ao longo do caminho se mobilizaram para ajudar. Um homem providenciou um novo câmbio para Gana. Entusiastas do Reliant Robin no Reino Unido enviaram um motor substituto para Camarões. Em um dos episódios mais improváveis, Sheila foi carregada em um caminhão de gado até a oficina mais próxima, onde mecânicos locais consertaram o veículo com ferramentas improvisadas e uma dose generosa de incredulidade.
Os perigos que a dupla enfrentou além das quebras mecânicas
Os problemas de Sheila eram previsíveis. O que ninguém podia antecipar era o cenário geopolítico que a dupla encontraria ao longo do trajeto. Jenks e Scott chegaram ao Benin durante uma tentativa de golpe de Estado e cruzaram o norte da Nigéria enquanto os Estados Unidos realizavam ataques aéreos contra alvos do Estado Islâmico na região. Em Camarões, a situação exigiu escolta militar por aproximadamente 480 quilômetros em uma área marcada por conflitos separatistas.
O contraste entre o carro de três rodas e o comboio militar que o acompanhava rendeu uma das cenas mais surreais da viagem. No Congo, um ônibus quase esmagou Sheila contra um penhasco, em um lembrete de que o trânsito africano pode ser tão perigoso quanto qualquer zona de conflito para um veículo que pesa menos que a maioria das motocicletas de carga. A dupla registrou cada episódio nas redes sociais, alimentando uma audiência que crescia a cada nova situação de risco.
As paisagens que fizeram tudo valer a pena
Nem tudo na travessia foi perigo e frustração mecânica. O Reliant Robin cruzou cadeias de montanhas, desertos impressionantes e paisagens que poucos viajantes motorizados conseguem acessar. Durante um safári, o carro de três rodas rodou ao lado de girafas, avistou rinocerontes e posou para fotos a poucos metros de um elefante, em cenas que pareciam saídas de um filme de comédia britânica ambientado na savana.
A reação das pessoas ao longo do trajeto foi outro aspecto que marcou a dupla. Mecânicos, moradores locais e viajantes que cruzaram o caminho de Sheila alternavam entre espanto e admiração, muitas vezes sem acreditar que aquele veículo prateado, com aspecto de brinquedo, havia saído de Londres e sobrevivido a milhares de quilômetros de estradas africanas. A generosidade de desconhecidos que ajudaram com peças, hospedagem e orientação foi, segundo Jenks, tão marcante quanto as paisagens.
A chegada à Cidade do Cabo e o destino final de Sheila
Mais de 120 dias após a partida, o Reliant Robin chegou à Cidade do Cabo com o motor superaquecido e as rodas tortas. Os últimos 1.600 quilômetros pelo deserto da Namíbia quase acabaram com Sheila de vez, e o veículo que havia sobrevivido a 22 países cruzou a linha de chegada mais como sobrevivente do que como vencedor. O sul-africano Graeme Hurst, que acompanhou a jornada, resumiu o sentimento geral ao dizer que a história é um símbolo de persistência com um lado cômico impossível de ignorar.
Na África do Sul, o carro de três rodas foi exibido temporariamente em um showroom de veículos de luxo, onde chamou mais atenção que modelos de marcas como Porsche e Mercedes, mesmo com janela quebrada, para-brisa manchado e marcas de desgaste por toda a carroceria. Sheila será restaurada e seguirá viagem até o Quênia, de onde será enviada de navio para a Turquia e depois de volta ao Reino Unido, onde deve ganhar um lugar permanente no London Transport Museum. Jenks resumiu a experiência com uma frase que só faz sentido para quem dirigiu um Robin por 22 países: “Era como dirigir um caixão motorizado.”
Você teria coragem de atravessar um continente inteiro em um carro de três rodas dos anos 70, ou a ideia já parece insana demais só de ler? Conte nos comentários qual foi a viagem mais maluca que você já fez ou sonha em fazer, queremos saber se essa história inspirou ou assustou você.
