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O setor que mais desperdiça pode ter achado um atalho surpreendente: transformar plástico em casas, reempacotar entulho em fachada urbana, cultivar tijolos de cogumelo e lembrar que existe uma casa de papel que não caiu em quase um século

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 01/03/2026 às 19:07
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Do plástico descartável transformado em estrutura habitável na Colômbia ao entulho compactado em Rotterdam, dos tijolos de micélio exibidos no MoMA PS1 à casa de papel construída na Grande Depressão, exemplos ao redor do mundo indicam que o futuro da arquitetura pode nascer justamente do que antes era descartado

O setor da construção civil gera montanhas de resíduos nos Estados Unidos — e uma parte enorme disso vem só das demolições. É aquele tipo de número que assusta, porque mostra o quanto ainda jogamos fora sem pensar duas vezes.

A construção pode virar desperdício num piscar de olhos, e o concreto, então, nem se fala: consome recursos demais. Mas a boa notícia é que a consciência sobre sustentabilidade está crescendo, e arquitetos e engenheiros estão correndo atrás de alternativas mais inteligentes.

O resultado? Ideias criativas, práticas e muito mais acessíveis. Materiais que antes eram “lixo” estão virando tijolos, paredes, isolamento e até casas inteiras. E sim: dá certo — e pode durar.

Plástico que vira tijolo: casas tipo LEGO

O impacto do plástico descartável no meio ambiente é enorme. Só reduzir o consumo não resolve tudo, porque ainda existe uma quantidade absurda de plástico já circulando por aí, sem destino.

A empresa colombiana Conceptos Plásticos resolveu atacar esse problema de frente. Eles transformam resíduos plásticos e de borracha em blocos que lembram peças de LEGO, encaixando com facilidade e rapidez.

Esses blocos permitem construir casas baratas, resistentes e simples de montar. E o projeto ainda pensa no detalhe: as cavidades dos “tijolos” ajudam a organizar a passagem de fiação elétrica por dentro da estrutura.

Entulho com cara de casa “normal” (e ninguém percebe)

Fachada construída em 2016, em Rotterdam, com 15 toneladas de resíduos de cerâmica, vidro, argila e tijolo compactados em novos blocos — um projeto do estúdio Architectuur Maken que transforma entulho de demolição em arquitetura quase indistinguível da alvenaria tradicional.

Demolição é uma fábrica de entulho: cerâmica, vidro, argila, tijolo… tudo misturado e difícil de reaproveitar. Por isso, encontrar novos usos para esses restos virou prioridade.

Na Holanda, o estúdio Architectuur Maken, de Rotterdam, chamou atenção ao usar materiais “comprometidos” — resíduos de construção — para criar uma arquitetura sem concessões, bonita e funcional.

Em 2016, eles levantaram uma casa usando 15 toneladas de resíduos compactados em tijolos para a fachada. O mais curioso? A estética foi pensada para combinar com as construções ao redor — e hoje quase ninguém distingue do tijolo tradicional.

Tijolos de cogumelo: biodegradável, mas com propósito

Pode soar contraditório: construir com algo biodegradável parece pedir para a casa “apodrecer”. Só que a ideia aqui é outra: criar materiais que durem o suficiente e, no fim da vida útil, voltem para a natureza sem virar problema.

Micólogos e pesquisadores têm cultivado tijolos a partir de resíduos orgânicos, usando micélio (a “rede” do fungo) como base. O material cresce em moldes até alcançar o formato desejado.

Em 2014, o arquiteto David Benjamin construiu uma estrutura de 12 metros no MoMA PS1, em Nova York, com tijolos de cogumelo feitos de cascas de milho e micélio. E já existem aplicações reais, como o isolamento Mushroom®, da Ecovative, usado em pequenas casas para manter conforto térmico.

Papel jornal que atravessa décadas

Construída durante a Grande Depressão por Elis Stenman, em Rockport (Massachusetts), a Casa de Papel utiliza papel comprimido e camadas de verniz como impermeabilização e, quase 100 anos depois, segue de pé como prova de que materiais reaproveitados podem superar o tempo e desafiar padrões convencionais da construção.

Nem toda casa feita de “resíduo” precisa ser tecnologia de ponta. Às vezes, o exemplo mais forte é justamente o que já provou seu valor com o tempo.

Durante a Grande Depressão, Elis Stenman, de Rockport (Massachusetts), construiu a chamada Casa de Papel, usando papel comprimido no lugar de materiais comuns como drywall e isolamento.

Para aguentar o clima, camadas de verniz serviram como impermeabilização. E o fato é simples: a casa continua de pé há quase 100 anos, mostrando o quanto materiais reaproveitados podem ser duráveis e versáteis.

Escritórios e trabalho com menos desperdício

É raro encontrar um escritório inteiro feito de resíduos, mas muitas empresas já incorporam reaproveitamento em partes da construção. Isso reduz a dependência de materiais pesados em recursos, como o concreto, e reforça compromissos ambientais de forma prática.

A plataforma Etsy construiu sua sede em Brooklyn (Nova York), em 2017, usando madeira invasora, recuperada, reutilizada ou de manejo responsável. E parte do mobiliário também foi reciclada ou feita com materiais mais sustentáveis.

Em outros lugares, contêineres de transporte viram estúdios cheios de estilo. E em Taiwan, até bombonas de gás antigas podem virar pés de mesa e vasos. No trabalho, como na arquitetura, a imaginação realmente é o limite.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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