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Enquanto no Brasil a Ferrogrão espera há 40 anos, a China furou 19 falhas sísmicas e perfurou um túnel de 34 km sob montanhas para construir a ferrovia mais difícil do mundo em 14 anos…

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 18/04/2026 às 18:00
Escavação do túnel Gaoligong de 34 km na ferrovia mais difícil do mundo, na província de Yunnan, China
A ferrovia Dali-Ruili exigiu 14 anos de obra e a perfuração de 34 km sob as montanhas Gaoligong, atravessando 19 falhas sísmicas ativas
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Com 330 km de extensão, 19 falhas sísmicas ativas e um túnel de 34 km sob montanhas de 3.000 metros, a ferrovia mais difícil do mundo na China desafiou tudo o que a engenharia conhecia — e levou 14 anos para sair do papel

Nas profundezas das montanhas Gaoligong, no sudoeste da China, máquinas gigantescas avançam centímetro por centímetro há mais de uma década. A ferrovia Dali-Ruili é considerada a ferrovia mais difícil do mundo, e os números explicam por quê.

Segundo reportagem da Exame, a obra começou em 2008. O túnel principal, batizado de Gaoligong, tem exatos 34.538 metros — mais de 34 km perfurados sob uma cordilheira que atinge 3.000 metros de altitude.

E o desafio não é só a distância. São 19 zonas de falha sísmica ativa no caminho.

Enquanto no Brasil projetos como a Ferrogrão — uma ferrovia de 933 km ligando Mato Grosso ao Pará — acumulam décadas de atrasos e disputas judiciais, a China entrega trechos inteiros de ferrovias em condições que muitos engenheiros consideravam impossíveis.

Ponte ferroviária suspensa sobre vale profundo entre montanhas em Yunnan, China

A ferrovia mais difícil do mundo em números: 330 km, 14 anos e 19 falhas sísmicas

A ferrovia Dali-Ruili tem 330 km de extensão total, divididos em dois trechos.

O primeiro, entre Dali e Baoshan, tem 133 km. Começou a ser construído em 2008 e entrou em operação em 2022.

O segundo trecho, entre Baoshan e Ruili, começou em 2015. É nele que está o túnel Gaoligong — o coração da obra.

Pontes e túneis respondem por 75% da extensão total dos 330 km da ferrovia. A região das montanhas Hengduan apresenta relevo íngreme, geologia instável e vegetação densa.

  • Extensão total: 330 km
  • Túnel principal (Gaoligong): 34.538 metros (34,5 km)
  • Falhas sísmicas no percurso: 19 zonas ativas
  • Início das obras: 2008 (trecho Dali-Baoshan)
  • Conclusão do túnel prevista: dezembro de 2027
  • Operação total da linha: 2028

Além disso, quando concluída, a viagem de Kunming — capital de Yunnan — até Ruili, na fronteira com Mianmar, cairá de 9 horas para 4,5 horas.

Dentro do túnel Gaoligong: calor extremo, água subterrânea e rochas que se movem

O engenheiro sênior Gao Shangjie, do departamento de transportes de Mangshi, na prefeitura autônoma de Dehong Dai e Jingpo, acompanha a obra de perto.

“Avanços técnicos recentes aceleraram o ritmo das obras”, disse Gao Shangjie à imprensa chinesa.

Porém, os desafios dentro do túnel são brutais. Rochas moles que cedem sob pressão. Água subterrânea abundante que invade os corredores de escavação. E calor geotérmico intenso, que transforma o interior da montanha em uma estufa subterrânea.

Os engenheiros precisaram mudar o método de escavação diversas vezes por causa das condições geológicas imprevisíveis.

Diferentemente de outras megaobras chinesas como a autoestrada marítima Shenzhen-Zhongshan, aqui o inimigo não é a água do mar — são as próprias montanhas.

Engenheiros analisam estrutura no interior do túnel Gaoligong durante a construção da ferrovia mais difícil do mundo

O corredor China-Mianmar: por que essa ferrovia importa para a Ásia inteira

A ferrovia Dali-Ruili não é apenas uma obra de engenharia. É uma peça estratégica do corredor ferroviário China-Mianmar.

Portanto, quando os trilhos chegarem a Ruili — cidade fronteiriça com Mianmar —, a China terá uma rota direta de carga e passageiros para o Sudeste e o Sul da Ásia.

Dessa forma, a integração logística beneficia não só a província de Yunnan, mas todo o comércio bilateral entre China e seus vizinhos ao sul.

Contudo, o projeto vai além da economia. Regiões remotas e montanhosas de Yunnan, historicamente isoladas, ganham conexão com o restante do país.

Por consequência, comunidades que dependiam de estradas precárias e viagens de 9 horas terão acesso a uma ferrovia moderna em menos da metade do tempo.

Outros megaprojetos chineses que desafiaram o impossível

A China não é estranha a obras consideradas impossíveis. Assim, o túnel Tianshan Shengli, por exemplo, tem 22 km e atravessa 16 falhas geológicas.

Aquele túnel foi concluído em 52 meses — 25% mais rápido que o prazo original de 72 meses. Cerca de 3.000 trabalhadores enfrentaram frio extremo e terrenos instáveis.

Além disso, a ferrovia no deserto da Mongólia se estende por 2.700 km em trilhos elevados. As fundações precisam alcançar camadas estáveis abaixo das dunas de areia movediça.

Ainda assim, o túnel Gaoligong se destaca entre todos. São 19 falhas sísmicas contra 16 do Tianshan. E a extensão de 34,5 km faz dele o que será o maior túnel ferroviário da Ásia quando concluído.

No Brasil, projetos ferroviários como a elevação dos trilhos em Criciúma mostram que investimentos em infraestrutura também avançam, ainda que em escala diferente.

Trem moderno cruzando paisagem montanhosa de Yunnan ao pôr do sol na ferrovia mais difícil do mundo

O que pode dar errado: prazos, custos e riscos sísmicos

Por outro lado, é importante considerar as ressalvas. Não há dados oficiais sobre o custo total da ferrovia Dali-Ruili. Também não há informações públicas sobre o número exato de trabalhadores ou eventuais acidentes durante a construção.

A previsão de conclusão do túnel Gaoligong para dezembro de 2027 — e operação total em 2028 — depende de que não haja novos colapsos ou inundações subterrâneas.

A região está sujeita a terremotos, e as 19 falhas sísmicas ativas representam um risco permanente, mesmo após a inauguração.

Além disso, as fontes disponíveis não mencionam estudos sobre impactos ambientais de longo prazo da perfuração sob as montanhas Gaoligong — uma área de biodiversidade reconhecida pela UNESCO.

Ainda assim, se tudo correr conforme o planejado, a China terá demonstrado que até as montanhas mais hostis do planeta podem ser vencidas — centímetro por centímetro, falha por falha, ano após ano.

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Claudinei
Claudinei
25/04/2026 12:04

E porque eles não tem ONGs e partidos que ficam contra as obras e secretarias de meio ambiente

Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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