A Venezuela passou da riqueza do petróleo ao colapso econômico, mergulhando em crise humanitária e no maior êxodo migratório das Américas.
A Venezuela, país vizinho do Brasil, enfrenta hoje uma profunda crise humanitária e protagoniza um dos maiores êxodos migratórios da história recente das Américas.
O colapso começou após décadas de dependência do petróleo, agravou-se por decisões políticas e econômicas e culminou em um severo colapso econômico que empurrou milhões de pessoas para fora do país.
O drama se intensificou principalmente a partir da última década, quando a economia desabou, a inflação saiu de controle e as condições básicas de vida se deterioraram.
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A era de ouro do petróleo na Venezuela
Durante grande parte do século 20, a Venezuela foi vista como um símbolo de prosperidade na América Latina.
A exploração do petróleo transformou o país em uma potência energética e garantiu receitas capazes de sustentar um elevado padrão de vida.
Ainda na primeira metade do século, os venezuelanos já figuravam entre os maiores produtores globais da commodity.
A consolidação desse crescimento ocorreu após 1958, com o fim do regime militar de Marcos Pérez Jiménez. A partir daí, o país entrou em um ciclo de estabilidade política e expansão econômica.
Entre 1959 e 1983, período frequentemente descrito como o mais próspero da história venezuelana, a economia cresceu de forma consistente e o desemprego permaneceu relativamente controlado.
Consumo, poder de compra e prestígio internacional
Nos anos 1970, impulsionada pela alta internacional do petróleo, a Venezuela alcançou níveis inéditos de consumo.
Segundo índices da OCDE, o poder de compra da população era o maior da América Latina, superando com folga países como o Brasil.
Caracas se modernizou rapidamente, exibindo infraestrutura urbana avançada, grandes rodovias e hotéis considerados luxuosos para a época.
Nesse contexto, o país chegou a ser conhecido como a “Arábia Saudita da América Latina”, um reflexo direto da abundância de recursos naturais e da estabilidade econômica.
Além disso, a Venezuela figurou entre os 20 países mais ricos do mundo durante o auge do ciclo do petróleo.
Sinais de fragilidade antes do colapso econômico
Apesar do cenário positivo, a dependência quase exclusiva do petróleo começou a expor vulnerabilidades estruturais.
A economia venezuelana tornou-se pouco diversificada, ficando extremamente sensível às oscilações do mercado internacional.
Ainda assim, há cerca de 25 anos, o PIB do país superava US$ 120 bilhões, com crescimento superior ao de outras grandes economias da região.
Por outro lado, a ausência de reformas estruturais e o aumento dos gastos públicos prepararam o terreno para um futuro instável.
Esse cenário se agravaria drasticamente a partir da mudança no comando político do país.
Do protagonismo regional ao colapso econômico
A chegada de Hugo Chávez ao poder marcou o início de uma ruptura profunda no modelo econômico venezuelano.
O processo se intensificou sob o governo de Nicolás Maduro, quando a combinação de má gestão, corrupção e concentração de poder acelerou o colapso econômico.
Segundo a Associated Press, com base em entrevistas com economistas, “a queda da Venezuela é o maior colapso econômico fora de uma guerra em pelo menos 45 anos”.
Entre 2014 e 2021, o PIB encolheu cerca de 70%, enquanto a hiperinflação atingiu níveis extremos, chegando a 300 mil por cento em 2019.
Crise humanitária e colapso social
Como consequência direta do colapso, a crise humanitária se espalhou por todo o território venezuelano.
Serviços básicos entraram em colapso, hospitais passaram a operar sem insumos e a insegurança alimentar tornou-se uma realidade cotidiana.
Dados da ONU e da USAID indicam que milhões de pessoas dependem de ajuda humanitária para sobreviver.
Relatórios apontam que uma parcela significativa da população deixa de fazer ao menos uma refeição por dia, enquanto milhares enfrentam desnutrição severa.
Atualmente, mais de 90% dos venezuelanos vivem abaixo da linha da pobreza, um retrato dramático da deterioração social.
Êxodo migratório sem precedentes nas Américas
Diante desse cenário, o êxodo migratório tornou-se inevitável.
De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), quase 8 milhões de venezuelanos deixaram o país, configurando o maior movimento migratório da história moderna do continente.
Hoje, a Venezuela é responsável por cerca de 70% das pessoas que atravessam o perigoso Estreito de Darién em direção à América do Norte.
O fluxo afeta diretamente países vizinhos, inclusive o Brasil, que recebe milhares de refugiados em busca de trabalho, segurança e dignidade.
Um país entre as maiores reservas de petróleo e a pobreza extrema
Paradoxalmente, mesmo diante do colapso econômico, a Venezuela ainda detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta.
No entanto, a incapacidade de transformar esse recurso em desenvolvimento sustentável mantém o país entre os piores colocados nos rankings globais de prosperidade.
No Índice de Prosperidade do Legatum Institute, a nação ocupa uma das últimas posições da América Latina, à frente apenas do Haiti.
O contraste entre riqueza natural e pobreza extrema sintetiza uma das maiores tragédias econômicas e sociais do século 21.

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