Sanções, apagões e saída de grandes redes hoteleiras aumentam a pressão sobre Cuba, que tenta sustentar um setor relevante para a entrada de divisas enquanto registra queda de visitantes, redução de voos e perda de confiança internacional em meio à crise econômica.
Cuba registrou uma nova pressão sobre o turismo após grandes redes hoteleiras estrangeiras reduzirem ou encerrarem operações na ilha, em meio ao endurecimento das sanções dos Estados Unidos contra empresas com vínculos econômicos com a Gaesa, conglomerado militar que controla parte relevante da hotelaria cubana.
A retração envolve grupos como Meliá, Iberostar, Blue Diamond e Archipelago International, ocorre em um setor que perdeu mais da metade dos visitantes no início de 2026 e amplia as dificuldades de uma economia dependente da entrada de divisas.
A espanhola Meliá informou na quarta-feira (03) a retirada imediata da gestão, comercialização e uso de marca em 15 dos 34 hotéis que operava em Cuba, todos ligados à Gaviota, braço turístico da Gaesa.
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Segundo informações divulgadas por agências internacionais, a decisão foi comunicada em um cenário de maior pressão jurídica, econômica e geopolítica para empresas estrangeiras que mantêm contratos no país.
Pouco antes, a Iberostar também havia encerrado a administração de 12 hotéis associados à Gaviota, mantendo apenas unidades sem ligação direta com o conglomerado militar cubano.
Também deixaram operações ou marcas no país a canadense Blue Diamond e a Archipelago International, que retirou a marca Aston de empreendimentos cubanos, incluindo hotéis localizados em áreas relevantes para o turismo da ilha.
Sanções dos EUA pressionam hotelaria em Cuba
O movimento das redes ganhou força depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou em 1º de maio de 2026 uma ordem executiva voltada a ampliar sanções contra pessoas e empresas ligadas à Gaesa.
Pelas novas regras, o prazo de transição terminava em 5 de junho, o que levou grupos internacionais a rever contratos antes da aplicação plena das medidas previstas por Washington.

O governo americano acusa a Gaesa de concentrar receitas estratégicas em benefício de setores militares e da elite cubana, enquanto Havana afirma que o conglomerado exerce papel econômico relevante diante do embargo comercial imposto pelos Estados Unidos há mais de seis décadas.
Com esse cenário, aumentou o custo jurídico de operar em Cuba, e empresas estrangeiras passaram a avaliar com mais cautela a manutenção de vínculos com ativos associados ao grupo militar cubano.
As redes não atribuíram todos os movimentos apenas às sanções americanas, pois também citaram ou enfrentam fatores ligados à operação diária na ilha.
Entre os elementos apontados por especialistas e fontes do setor estão escassez de combustível, instabilidade energética, deterioração dos serviços básicos e queda da demanda internacional, fatores que afetam contratos de hotelaria e reduzem a previsibilidade operacional.
Modelo turístico cubano depende de operadoras estrangeiras
O modelo turístico cubano difere do adotado em muitos destinos concorrentes, porque grande parte dos hotéis pertence a empresas estatais, mas a administração costuma ser entregue a operadoras estrangeiras por meio de contratos específicos.
Nesses acordos, as redes internacionais oferecem marca, sistemas de reserva, canais de venda, promoção no exterior e relações com operadoras de turismo, elementos usados para alcançar viajantes da Europa, do Canadá e de outros mercados tradicionais.
O economista Pavel Vidal explicou à BBC News Mundo que os hotéis permanecem sob controle da Gaesa, mas a gestão é concedida contratualmente a companhias internacionais.
Ricardo Torres, também ouvido pela BBC, afirmou que esse arranjo define a participação das operadoras nos lucros e cria uma ponte comercial entre Cuba e os principais mercados emissores de visitantes.
A saída das marcas estrangeiras não significa, necessariamente, fechamento automático dos hotéis, já que as unidades podem continuar sob administração estatal cubana.
Mesmo assim, segundo especialistas ouvidos pela BBC, os empreendimentos deixam de contar com redes comerciais, acordos com operadoras de turismo, sistemas globais de reserva e reputação de qualidade associada a grupos conhecidos por viajantes internacionais.
Cuba construiu, ao longo de décadas, uma estrutura hoteleira ampla para sustentar a expansão do turismo internacional, setor tratado pelo governo como uma das principais fontes de divisas.
Estimativas setoriais apontavam cerca de 77,8 mil quartos em 2022, número próximo dos 80 mil citados no debate sobre a capacidade instalada do país.
Queda de turistas aprofunda crise econômica
A retração das redes ocorre quando o turismo cubano já atravessa forte queda nos dados oficiais divulgados para o início de 2026.
Entre janeiro e abril de 2026, Cuba recebeu 328.608 turistas internacionais, baixa de 55,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Oficina Nacional de Estatística e Informação de Cuba, a Onei, citados por veículos especializados.
Esse resultado mostra a dificuldade de retomada após a pandemia de Covid-19, quando a ilha perdeu parte importante do fluxo internacional de visitantes.
Antes de 2020, Cuba costumava receber entre 4 milhões e 5 milhões de visitantes por ano, mas a combinação de crise econômica, apagões, falta de combustível, sanções e redução de voos limitou a recuperação do setor.
Mercados importantes também perderam força nos primeiros meses de 2026, com redução no envio de visitantes por países tradicionalmente relevantes para a ilha.
O Canadá, historicamente o principal emissor de turistas para Cuba, reduziu o envio de visitantes, enquanto rotas vindas da Espanha, da Rússia e do próprio Canadá foram afetadas por menor demanda e dificuldades ligadas ao abastecimento de aeronaves.
Nos principais polos turísticos, a menor presença de estrangeiros afeta hotéis, restaurantes, transporte, guias, comércio, casas particulares e fornecedores locais.
A retração também compromete a entrada de moeda forte, recurso importante para um país que enfrenta inflação elevada, restrições de importação e queda na oferta de bens básicos.
Confiança do visitante vira obstáculo para Cuba
A perda das operadoras internacionais acrescenta um problema de confiança ao setor turístico cubano, segundo economistas ouvidos pela BBC News Mundo.
Para parte dos viajantes, a presença de uma rede conhecida funciona como referência de padrão mínimo de serviço, previsibilidade nas reservas e capacidade de resposta em caso de falhas operacionais.
Sem esse respaldo comercial, a decisão de viajar para Cuba pode passar por avaliação mais cuidadosa, principalmente entre turistas que dependem de pacotes internacionais e redes de atendimento fora da ilha.
Ricardo Torres afirmou à BBC News Mundo que os poucos visitantes ainda dispostos a viajar para a ilha podem “pensar duas vezes”.
Segundo ele, a empresa estrangeira oferecia uma garantia adicional de qualidade na operação hoteleira, elemento que ganhou mais peso com a piora dos serviços básicos.
A manutenção das instalações aparece como outro desafio para o setor, porque hotéis exigem energia, reparos, reposição de equipamentos, limpeza, alimentação, transporte e equipes treinadas.
Esses custos ficam mais difíceis de sustentar em um cenário de baixa ocupação, restrição de recursos públicos e redução da entrada de divisas no país.
Na avaliação de Ricardo Torres, caso a situação se prolongue, as instalações podem se deteriorar pela falta de recursos para manutenção.
Com menor presença de operadores globais, redução de voos e queda no fluxo estrangeiro, a hotelaria cubana passa a depender mais de visitantes cubano-americanos, diplomatas, residentes com renda externa e turismo interno de menor poder aquisitivo.


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