Uma operação que combina dados, frota e mergulhadores tenta conter surtos recorrentes da estrela do mar que devora coral em áreas estratégicas do recife no nordeste da Austrália.
A estrela do mar coroa de espinhos pode parecer só mais um animal do recife, mas em densidades altas ela vira um predador capaz de derrubar grandes áreas de coral vivo em pouco tempo. Por isso, o controle deixou de ser pontual e passou a operar com lógica de escala, quase como uma linha de produção no mar.
Na prática, a missão é simples de explicar e difícil de executar. Reduzir a quantidade de coroa de espinhos em recifes prioritários até níveis considerados sustentáveis para o coral se recuperar.
O desafio é que a Grande Barreira de Corais no nordeste da Austrália, dentro do Great Barrier Reef Marine Park, ao largo da costa de Queensland, é imensa e os surtos não acontecem em um único lugar. Eles avançam ao longo do sistema, exigindo planejamento, monitoramento e repetição das ações.
-
O que muita gente trata como erva daninha virou bicicleta nas mãos de um chileno, José Tomás transforma o coligüe, bambu nativo que cresce até cinco vezes mais rápido que o pinheiro, em bikes, bengalas e talheres
-
Com 3,3 milhões de litros de água e esbanjando 23 mil metros quadrados, o AquaFoz está entre os maiores aquários da América do Sul e do mundo
-
Relatos sobre possível prisão de Diogo Defante nos EUA durante a Copa de 2026 repercutem nas redes e levantam dúvidas sobre o que realmente aconteceu
-
O pastor coreano de 71 anos que construiu uma caixa na parede para salvar bebês abandonados e já acolheu mais de 2 mil crianças sem pedir o nome de nenhuma mãe
É nesse contexto que entram tecnologias como robôs submarinos e inteligência artificial, não como mágica, mas como tentativa de aumentar a velocidade de resposta. Ao mesmo tempo, o trabalho pesado ainda recai sobre equipes humanas treinadas e um calendário contínuo de missões.
De praga natural a crise recorrente no maior recife do planeta
A coroa de espinhos é nativa do Indo Pacífico e existe naturalmente em baixas densidades, sem necessariamente causar desastre. O problema começa quando ocorre um surto, definido em geral por densidades nas quais ela consome coral mais rápido do que o recife consegue crescer.
Segundo a autoridade do parque marinho na Austrália, os grandes surtos contemporâneos na Grande Barreira tendem a seguir um padrão, com início recorrente a cada cerca de 15 anos em uma faixa ao norte e depois espalhamento para o sul ao longo de uma década ou mais.
Isso faz com que o impacto esteja presente em algum ponto do recife na maior parte do tempo, mudando de lugar conforme o avanço do surto.
Além do padrão espacial, existe um motivo operacional para o alarme. Estudos clássicos sobre a queda histórica de cobertura de coral indicaram que a predação por coroa de espinhos foi responsável por uma parcela grande das perdas observadas entre 1985 e 2012, o que ajuda a explicar por que o controle virou prioridade de gestão.
Como funciona o controle em escala de frota e dados
O programa moderno de controle na Grande Barreira foi estabelecido em 2012 e passou a operar como resposta tática dentro de um arcabouço mais amplo de manejo. A ideia central é concentrar esforço onde há maior retorno ecológico e econômico, já que não existe recurso para “proteger tudo”.
A própria autoridade do parque destaca que, desde 2018, aplicou um modelo de decisão inspirado em manejo integrado de pragas, tornando a operação mais estratégica e adaptativa. No mesmo período, houve expansão da capacidade operacional, incluindo aumento de embarcações em 2018-19 para alcançar regiões antes fora do alcance rotineiro.
Como o recife tem milhares de estruturas e uma área gigantesca, o coração do sistema é escolher “onde ir primeiro”. Para isso, entram dados de monitoramento, registros de avistamento e inteligência de campo, incluindo integração com informações do programa de monitoramento de longo prazo do AIMS.
No mar, o trabalho se divide entre vigilância e ação direta. A vigilância usa métodos como manta tow e levantamentos de saúde do recife para localizar áreas com atividade alta e medir o progresso após as missões.
Quando a área é definida, entram mergulhadores que fazem buscas sistemáticas e realizam a eliminação por injeção, registrando esforço e resultado para calcular indicadores de desempenho. A meta não é exterminar a espécie, mas derrubar a pressão de predação abaixo de limiares associados à recuperação do coral.
O que a temporada 2024 2025 revela sobre o tamanho da operação
Os números mais recentes consolidados pelo governo da Austrália dão dimensão do caráter quase industrial da resposta. No ciclo 2024-25, o programa atuou em 234 recifes alvo com ações de vigilância e controle, combinando milhares de levantamentos de campo.
No mesmo período, o painel oficial aponta 18.282 levantamentos por manta tow, 3.457 levantamentos de saúde do recife e a eliminação de 73.881 coroas de espinhos em 11.710 hectares, com 18.008 horas de trabalho submerso. É uma escala de esforço que depende de logística, repetição e priorização, não de uma única ação pontual.
Robôs submarinos entram como multiplicadores e levantam debate
A promessa dos robôs aparece como resposta a um gargalo óbvio, não há mergulhadores suficientes para cobrir todos os focos com velocidade. Um dos projetos mais citados é o COTSbot, descrito pela equipe de robótica da QUT como um veículo que usa visão computacional para identificar o animal e aplicar injeções letais, operando por horas e entregando centenas de “doses” em uma missão.
Mesmo assim, a gestão oficial deixa claro que a espinha dorsal do controle hoje é humana e baseada em frota e equipes de mergulho, com vigilância e repetição até atingir níveis sustentáveis. Em outras palavras, o robô entra como força adicional e potencial acelerador, não como substituto imediato do modelo atual.
A efetividade do controle direcionado também ajuda a explicar por que a operação continua crescendo. Em 30 de abril de 2024, o governo australiano divulgou resultados de estudo com dados do programa indicando que regiões com esforço suficiente e oportuno tiveram redução de coroa de espinhos em até seis vezes e aumento de 44 por cento na cobertura de coral, reforçando o argumento de que a intervenção funciona quando bem aplicada.
O ponto polêmico é que essa “guerra” acontece enquanto o recife enfrenta outros estressores, como eventos de branqueamento, ciclones e cheias, o que torna cada decisão de investimento mais disputada.
O AIMS descreve que o verão de 2024 trouxe múltiplos estressores e que o branqueamento em massa foi o principal fator de mortalidade naquele período, elevando a pressão para que medidas locais como o controle de coroa de espinhos sejam usadas para dar tempo ao coral.


Seja o primeiro a reagir!