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Conheça as ferramentas de pedra mais antigas e duradouras já encontradas, produzidas há 2,75 milhões de anos e reutilizadas por quase 300.000 anos

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 16/01/2026 às 21:25
Ferramentas de pedra usadas entre 2,75 e 2,44 milhões de anos revelam continuidade tecnológica inédita entre hominídeos na África Oriental.
Ferramentas de pedra usadas entre 2,75 e 2,44 milhões de anos revelam continuidade tecnológica inédita entre hominídeos na África Oriental.
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Descobertas no sítio arqueológico de Namorotukunan, na Bacia de Turkana, indicam que hominídeos produziram e utilizaram as mesmas ferramentas de pedra entre 2,75 e 2,44 milhões de anos atrás, mantendo uma tradição tecnológica contínua por quase 300.000 anos apesar de incêndios, secas severas e profundas transformações ambientais no leste da África

Um estudo publicado em 4 de novembro de 2025 na Nature Communications revela que hominídeos utilizaram ferramentas de pedra no sítio de Namorotukunan, na Bacia de Turkana, no Quênia, entre 2,75 e 2,44 milhões de anos atrás, mantendo a mesma tradição tecnológica por quase 300.000 anos apesar de intensas transformações ambientais.

Um registro arqueológico excepcional no leste da África

O sítio arqueológico de Namorotukunan, localizado na Bacia de Turkana, abriga um dos registros mais longos e antigos de ferramentas de pedra do período Olduvaiense já documentados. As descobertas indicam uma sequência contínua de produção e uso dessas ferramentas ao longo de aproximadamente 300.000 anos.

As ferramentas identificadas pertencem ao período entre 2,75 e 2,44 milhões de anos atrás. Elas apresentam bordas afiadas e formatos multifuncionais, comparados pelos pesquisadores a um tipo inicial de “canivete suíço” criado por hominídeos.

Segundo os autores, esse conjunto demonstra não um episódio isolado de inovação, mas uma tradição tecnológica duradoura.

A repetição das técnicas ao longo de centenas de milênios sugere transmissão consistente de conhecimento entre gerações sucessivas.

O estudo foi conduzido por uma equipe internacional de pesquisadores vinculados a instituições como a Universidade George Washington, o Instituto Max Planck, a Universidade de Utrecht e a Universidade de São Paulo.

Continuidade tecnológica em meio a ambientes instáveis

Os dados indicam que os fabricantes dessas ferramentas enfrentaram um dos períodos climáticos mais instáveis da história da Terra. A região passou por incêndios florestais frequentes, secas severas, mudanças nos cursos dos rios e aumento progressivo da aridez.

Apesar desse cenário, a tecnologia lítica permaneceu notavelmente estável. Para o autor principal, David R. Braun, professor de antropologia da Universidade George Washington, o sítio revela uma história extraordinária de continuidade cultural ao longo do tempo.

Braun afirma que o que se observa em Namorotukunan é uma longa tradição tecnológica, e não uma adaptação pontual. A permanência das técnicas sugere que o uso de ferramentas já estava profundamente integrado à forma como esses hominídeos interagiam com o ambiente.

A pesquisadora Susana Carvalho, diretora de ciência do Parque Nacional da Gorongosa, acrescenta que os resultados indicam que o uso de ferramentas pode ter sido uma adaptação mais generalizada entre ancestrais primatas do que se supunha anteriormente.

Métodos científicos e reconstrução do clima antigo

Para reconstruir o contexto ambiental em que essas ferramentas foram produzidas, os pesquisadores aplicaram um conjunto diversificado de técnicas científicas. Entre elas estão a datação de cinzas vulcânicas e a análise de sinais magnéticos preservados em sedimentos antigos.

Também foram examinadas assinaturas químicas das rochas e restos microscópicos de plantas. Esses dados permitiram reconstituir uma sequência detalhada das mudanças climáticas que afetaram a região durante o período estudado.

O registro fóssil vegetal indica uma transformação gradual da paisagem. Áreas inicialmente caracterizadas por pântanos exuberantes deram lugar a pastagens secas, ambientes devastados pelo fogo e, posteriormente, regiões semidesérticas.

Segundo Rahab N. Kinyanjui, dos Museus Nacionais do Quênia e do Instituto Max Planck, enquanto a vegetação mudava drasticamente, a produção de ferramentas permaneceu constante, evidenciando um padrão de resiliência tecnológica prolongada.

Uso de ferramentas, dieta e sobrevivência

As ferramentas encontradas em Namorotukunan apresentam marcas consistentes de uso, incluindo evidências associadas ao abate e ao processamento de animais. Marcas de corte identificadas no sítio conectam diretamente essas ferramentas ao consumo de carne.

De acordo com Frances Forrest, da Universidade de Fairfield, esses vestígios revelam uma dieta diversificada que persistiu mesmo com a transformação das paisagens ao redor. A tecnologia permitiu explorar novos recursos alimentares.

Niguss Baraki, também da Universidade George Washington, destaca que as descobertas mostram que, por volta de 2,75 milhões de anos atrás, os hominídeos já dominavam a fabricação de ferramentas afiadas. Isso sugere que o início da tecnologia Olduvaiense pode ser mais antigo do que se estimava.

A combinação entre estabilidade tecnológica e flexibilidade ambiental indica que essas ferramentas tiveram papel central na sobrevivência dos grupos humanos primitivos. A tecnologia ajudou a transformar dificuldades ambientais em vantagens adaptativas, mesmo em períodos de caos climático contíno.

Autorizações, parcerias e financiamento da pesquisa

A pesquisa foi realizada com autorização dos Museus Nacionais do Quênia e do Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia do Quênia. O trabalho ocorreu em parceria com a Escola de Campo Koobi Fora.

O financiamento envolveu diversas instituições internacionais, incluindo a Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, a Fundação Leakey, o Fundo Científico Paleontológico, o Conselho Holandês de Pesquisa e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Também contribuíram o Museu Americano de História Natural e a Autoridade Nacional Romena para Pesquisa Científica. O conjunto de apoios permitiu análises detalhadas de materiais arqueológicos e ambientais ao longo de vários anos de investigação.

Os autores concluem que Namorotukunan oferece uma rara janela para um mundo em transformação que já não existe. Rios em movimento, incêndios devastadores e aridez crescente moldaram o ambiente, enquanto as ferramentas permaneceram estáveis por quase 300.000 anos, revelando talvez uma das raízes mais antigas do uso humano da tecnologia para proteção e sobrevivência.

Este artigo foi elaborado com base no estudo “A tecnologia Oldowan inicial prosperou durante a mudança ambiental do Plioceno na Bacia de Turkana, Quênia”, publicado em 2025 na Nature Communications.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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