Sócio do irmão em uma pequena distribuidora, Paulo André Alves esperava cerca de R$ 8 mil para pagar compromissos da empresa. O crédito incompatível com as vendas foi comunicado ao banco, mas o primeiro estorno também atingiu recursos que pertenciam ao negócio.
Paulo André Alves conhecia o movimento da distribuidora de bebidas da família o suficiente para perceber que havia algo errado quando abriu a conta empresarial e encontrou mais de R$ 77,6 milhões registrados como faturamento de vendas em cartão.
Ele esperava ter aproximadamente R$ 8 mil disponíveis para compromissos da empresa, valor muito distante da cifra mostrada pelo banco. Em vez de sacar, transferir ou gastar parte do dinheiro, procurou a instituição para informar a inconsistência.
-
Aos 36 anos, Zé Neto transforma fazenda no Tocantins num império rural onde gado Nelore de elite divide grandes áreas verdes com heliponto, manejo genético, carretas boiadeiras, frota de seis caminhões e um refúgio reservado para toda família
-
Brasileira deixa Teresina para fazer doutorado, troca escola particular no Brasil pela rede pública em Portugal e passa da carreira de jornalista à pesquisa, enquanto filha que chegou aos 12 anos supera dificuldades na escola e entra em faculdade portuguesa
-
Aos 77 anos, Djavan mantém seu sítio em Araras, na Região Serrana do Rio, como um refúgio botânico, onde preserva Mata Atlântica, cultiva mais de 800 orquídeas de 350 espécies e mantém produção orgânica em meio à floresta
-
Sem aulas online por um ano, jovem do Rio começou a trabalhar após o pai adoecer e conquista bolsa anual de R$ 42 mil para estudar Design em Dubai
O episódio ocorreu em dezembro de 2018, na Região Metropolitana de Curitiba, e foi relatado posteriormente pela Folha de S.Paulo. Alves era sócio do irmão em uma pequena distribuidora e costumava conferir pela manhã o que havia entrado na conta e quais pagamentos precisavam ser feitos.
A identificação do crédito como faturamento de cartão tornava a situação ainda mais incompatível com a rotina do negócio. As vendas nessa modalidade faziam parte da operação, mas o comerciante sabia que a empresa não havia realizado transações capazes de produzir uma receita de dezenas de milhões de reais.
Nos primeiros instantes, Alves tentou entender de onde poderia ter surgido o saldo. Ao confrontar o valor exibido na tela com as vendas que reconhecia como legítimas, concluiu que o dinheiro não correspondia à atividade da distribuidora.
A preocupação passou então para a origem do crédito e para as consequências de qualquer movimentação. O empresário cogitou a possibilidade de fraude ou invasão da conta e decidiu buscar uma explicação antes de tocar no valor que aparecia disponível.
Banco atribuiu o crédito a erro sistêmico
Alves entrou em contato com o Banco Safra para relatar o problema e tentar descobrir de onde haviam surgido os recursos. Conforme contou à Folha, a instituição atribuiu o depósito milionário a um “erro sistêmico”, sem apresentar a ele uma explicação detalhada sobre o mecanismo que provocara o lançamento.
O comerciante aguardou a retirada do valor sem tratar o saldo temporariamente disponível como patrimônio próprio. A expectativa era que o estorno eliminasse os R$ 77,6 milhões indevidos e devolvesse a conta à situação anterior, com o dinheiro que realmente pertencia à empresa.
Segundo o relato publicado pelo jornal, o problema começou a ser tratado por volta das 8h30 e a movimentação foi regularizada perto das 13h. Durante esse intervalo, Alves acompanhou a conta até o crédito extraordinário deixar de aparecer.
A retirada dos milhões, porém, trouxe uma segunda inconsistência. Quando voltou a consultar o saldo, o empresário encontrou R$ 14 mil negativos, embora antes do lançamento indevido houvesse aproximadamente R$ 8 mil que pertenciam à distribuidora.
Esse novo erro atingia diretamente uma obrigação da empresa. O dinheiro que estava disponível antes do crédito milionário seria usado para pagar fornecedores, e o saldo negativo deixou temporariamente o comerciante sem acesso aos recursos que esperava utilizar.
Alves não reivindicava qualquer parcela dos R$ 77,6 milhões. Depois de informar que a quantia não correspondia às vendas da distribuidora, seu objetivo era recuperar o saldo existente antes da movimentação bancária e normalizar os pagamentos do negócio.
A inconsistência posterior também foi corrigida. Assim, a conta passou, em poucas horas, do saldo esperado pela empresa para dezenas de milhões de reais e, após o estorno, para um valor negativo antes de voltar à normalidade.
Conta era usada para acompanhar o caixa da distribuidora
A conta jurídica fazia parte da rotina de controle das entradas e saídas do estabelecimento. Era por meio dela que Alves verificava os recebimentos e organizava os pagamentos, o que ajudou a identificar rapidamente que o faturamento exibido pelo banco não poderia corresponder às operações reais.
A diferença entre os valores reforçava essa percepção: o comerciante esperava cerca de R$ 8 mil para compromissos imediatos e encontrou mais de R$ 77,6 milhões associados a vendas em cartão, uma modalidade presente no negócio, mas em dimensão incompatível com o movimento reconhecido por ele.
A distribuidora era administrada por Alves e pelo irmão e tinha origem em um negócio familiar. A reportagem informou que a empresa havia sido criada como continuidade de um bar fundado pelo pai dos dois, em Fazenda Rio Grande, município da Região Metropolitana de Curitiba.
A família também tinha planos de ampliar a operação com a abertura de uma nova unidade. Depois do episódio bancário, Alves indicou que pretendia seguir com o projeto e priorizar recursos próprios em vez de recorrer a financiamento para viabilizar a expansão.
O caso terminou sem uma explicação pública detalhada sobre a origem dos R$ 77,6 milhões ou sobre a razão de o estorno ter levado inicialmente a conta a R$ 14 mil negativos. A Folha informou que procurou a assessoria de imprensa do Banco Safra, mas a instituição não quis comentar o episódio.
