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A ABEEólica entregou aos presidenciáveis sete propostas para o setor elétrico e cobrou um plano nacional contra o curtailment, que tirou R$ 6,5 bilhões de eólicas e solares em 2025 e chega a cortar 45% da geração de alguns parques

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 04/09/2026 às 13:38 Atualizado em 04/09/2026 às 13:51
Parque eólico com turbinas alinhadas sobre a água
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A ABEEólica entregou aos candidatos à Presidência um documento com sete propostas para o setor elétrico e cobrou a criação de um plano nacional de redução do curtailment, o corte forçado de geração que tirou cerca de R$ 6,5 bilhões de eólicas e solares em 2025 e chega a atingir 45% da produção de alguns parques.

Conforme a entidade, o documento se chama Ventos Para Transformar o Brasil e foi apresentado pela presidente da entidade, Elbia Gannoum. São sete propostas para serem implementadas ao longo dos próximos quatro anos, e o curtailment aparece como o problema central, aquele que ameaça a viabilidade econômica dos projetos já construídos antes mesmo de se discutir a expansão futura.

Em primeiro lugar, curtailment é o nome do corte determinado pelo operador quando o sistema não consegue absorver toda a energia que os parques poderiam gerar. O gerador tem vento, tem turbina rodando e tem contrato, mas recebe ordem para reduzir. Segundo estimativa da consultoria Volts Robotics citada pela entidade, essas restrições geraram perdas de aproximadamente R$ 6,5 bilhões a geradores eólicos e solares em 2025.

Turbinas eólicas ao lado de linhas de transmissão

Por que sobra energia limpa que ninguém consegue usar

De fato, o problema não é falta de energia, é falta de fio. O Nordeste brasileiro concentrou nos últimos anos uma quantidade enorme de parques eólicos e solares, atraídos por um recurso natural de qualidade excepcional. A rede de transmissão que leva essa energia para os grandes centros de consumo, porém, não cresceu no mesmo ritmo, e existe um limite físico de quanto se consegue escoar por linha.

Quando a geração local supera essa capacidade de escoamento, o operador não tem alternativa: precisa cortar. E o corte não é distribuído igualmente. Conforme a associação, alguns parques chegam a sofrer restrições de até 45% da geração, quando o patamar considerado normal em sistemas maduros fica entre 3% e 5%. A diferença entre 5% e 45% é a diferença entre um projeto que paga o financiamento e um que não paga.

Por outro lado, o agravante é que esse gargalo apareceu depois que os investimentos foram feitos. Quem construiu parque no Nordeste com base em um cenário de escoamento projetado descobriu, anos depois, que a linha prometida atrasou ou que a fila de novos projetos consumiu a margem disponível. Recentemente, o próprio operador nacional identificou capacidade zero para novos projetos de geração no Nordeste, com uma fila expressiva de pedidos travados.

Aerogerador em área rural com pastagem

O plano nacional contra o curtailment que a associação pede

Nesse sentido, a proposta central é um plano nacional com metas anuais progressivas de redução do curtailment, o que na prática significa transformar um problema hoje difuso em um compromisso com número e prazo. Sem meta, o corte vira dano tolerado; com meta, vira indicador que alguém precisa perseguir e prestar contas.

Além disso, a entidade defende a adoção imediata de sinais horários de preço. A ideia é que a energia custe diferente conforme a hora do dia, refletindo se ela está sobrando ou faltando naquele momento. Preço horário incentiva consumidor a deslocar consumo para a janela em que há excedente, o que aproveita energia que hoje é simplesmente cortada, e desestimula o uso na hora em que o sistema aperta.

Além do mais, a associação pede a inclusão de baterias nos leilões do sistema e o fim geral de subsídios que, segundo ela, encarecem a tarifa no horário de ponta. Armazenamento é a resposta técnica mais direta ao problema do excedente: bateria guarda a energia que sobraria ao meio-dia e devolve no fim da tarde, quando o sol some e a demanda sobe. A discussão sobre leilão de baterias de grande porte, aliás, já está em curso na agência reguladora.

Convém explicar por que o Nordeste virou o epicentro dessa história. A região reúne uma combinação rara: vento constante e de boa qualidade ao longo de quase todo o ano, irradiação solar elevada e terreno relativamente barato. Esse conjunto derrubou o custo do megawatt-hora renovável a patamares que tornaram os leilões brasileiros competitivos internacionalmente. O sucesso, porém, criou o próprio gargalo, ao concentrar geração longe dos maiores centros de consumo, que estão no Sudeste.

Ao mesmo tempo, há uma assimetria de risco que incomoda o setor. Quando o corte acontece por limitação da rede, quem perde receita é o gerador, ainda que a falha esteja na infraestrutura de transmissão, que é responsabilidade de outro elo da cadeia. Discussões sobre ressarcimento por cortes passados vêm ganhando adesão justamente por isso, e a definição de quem arca com o prejuízo é um dos pontos mais sensíveis da agenda regulatória atual.

O tamanho do parque instalado explica por que a conta ficou grande. O Brasil se tornou um dos maiores mercados eólicos do mundo em capacidade instalada, com milhares de aerogeradores concentrados em poucos estados. Quando o percentual de corte sobe alguns pontos nesse volume, o prejuízo agregado salta para a casa dos bilhões, mesmo que cada parque individualmente perca apenas uma fração da geração possível.

Uma agenda entregue em ano eleitoral

Por outro lado, vale registrar o timing. Documento setorial entregue a presidenciáveis é peça de pressão organizada, e a ABEEólica não está sozinha nesse movimento: a associação das distribuidoras de gás fez algo parecido na mesma semana, com nove medidas próprias. É o setor de energia inteiro tentando pautar o próximo governo antes que a agenda se feche.

Ainda assim, isso não invalida o diagnóstico, que é sólido. Um país que atraiu bilhões em investimento renovável e agora corta até 45% da geração de alguns parques tem um problema real de planejamento, não uma queixa de lobby. Consequentemente, o curtailment prolongado encarece o crédito para novos projetos, porque o financiador passa a descontar essa perda no fluxo de caixa projetado.

Olhando assim, dá pra entender por que a entidade escolheu esse tema como bandeira. Não adianta discutir a próxima década de expansão eólica se a década atual está produzindo energia que se perde no ar por falta de linha. Resolver transmissão e armazenamento é menos glamouroso do que anunciar novo parque, mas é o que decide se o investimento já feito vai dar retorno.

Cortar até 45% da geração de um parque eólico é falha de planejamento ou preço da transição?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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