A ABEEólica entregou aos candidatos à Presidência um documento com sete propostas para o setor elétrico e cobrou a criação de um plano nacional de redução do curtailment, o corte forçado de geração que tirou cerca de R$ 6,5 bilhões de eólicas e solares em 2025 e chega a atingir 45% da produção de alguns parques.
Conforme a entidade, o documento se chama Ventos Para Transformar o Brasil e foi apresentado pela presidente da entidade, Elbia Gannoum. São sete propostas para serem implementadas ao longo dos próximos quatro anos, e o curtailment aparece como o problema central, aquele que ameaça a viabilidade econômica dos projetos já construídos antes mesmo de se discutir a expansão futura.
Em primeiro lugar, curtailment é o nome do corte determinado pelo operador quando o sistema não consegue absorver toda a energia que os parques poderiam gerar. O gerador tem vento, tem turbina rodando e tem contrato, mas recebe ordem para reduzir. Segundo estimativa da consultoria Volts Robotics citada pela entidade, essas restrições geraram perdas de aproximadamente R$ 6,5 bilhões a geradores eólicos e solares em 2025.

Por que sobra energia limpa que ninguém consegue usar
De fato, o problema não é falta de energia, é falta de fio. O Nordeste brasileiro concentrou nos últimos anos uma quantidade enorme de parques eólicos e solares, atraídos por um recurso natural de qualidade excepcional. A rede de transmissão que leva essa energia para os grandes centros de consumo, porém, não cresceu no mesmo ritmo, e existe um limite físico de quanto se consegue escoar por linha.
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Quando a geração local supera essa capacidade de escoamento, o operador não tem alternativa: precisa cortar. E o corte não é distribuído igualmente. Conforme a associação, alguns parques chegam a sofrer restrições de até 45% da geração, quando o patamar considerado normal em sistemas maduros fica entre 3% e 5%. A diferença entre 5% e 45% é a diferença entre um projeto que paga o financiamento e um que não paga.
Por outro lado, o agravante é que esse gargalo apareceu depois que os investimentos foram feitos. Quem construiu parque no Nordeste com base em um cenário de escoamento projetado descobriu, anos depois, que a linha prometida atrasou ou que a fila de novos projetos consumiu a margem disponível. Recentemente, o próprio operador nacional identificou capacidade zero para novos projetos de geração no Nordeste, com uma fila expressiva de pedidos travados.

O plano nacional contra o curtailment que a associação pede
Nesse sentido, a proposta central é um plano nacional com metas anuais progressivas de redução do curtailment, o que na prática significa transformar um problema hoje difuso em um compromisso com número e prazo. Sem meta, o corte vira dano tolerado; com meta, vira indicador que alguém precisa perseguir e prestar contas.
Além disso, a entidade defende a adoção imediata de sinais horários de preço. A ideia é que a energia custe diferente conforme a hora do dia, refletindo se ela está sobrando ou faltando naquele momento. Preço horário incentiva consumidor a deslocar consumo para a janela em que há excedente, o que aproveita energia que hoje é simplesmente cortada, e desestimula o uso na hora em que o sistema aperta.
Além do mais, a associação pede a inclusão de baterias nos leilões do sistema e o fim geral de subsídios que, segundo ela, encarecem a tarifa no horário de ponta. Armazenamento é a resposta técnica mais direta ao problema do excedente: bateria guarda a energia que sobraria ao meio-dia e devolve no fim da tarde, quando o sol some e a demanda sobe. A discussão sobre leilão de baterias de grande porte, aliás, já está em curso na agência reguladora.
Convém explicar por que o Nordeste virou o epicentro dessa história. A região reúne uma combinação rara: vento constante e de boa qualidade ao longo de quase todo o ano, irradiação solar elevada e terreno relativamente barato. Esse conjunto derrubou o custo do megawatt-hora renovável a patamares que tornaram os leilões brasileiros competitivos internacionalmente. O sucesso, porém, criou o próprio gargalo, ao concentrar geração longe dos maiores centros de consumo, que estão no Sudeste.
Ao mesmo tempo, há uma assimetria de risco que incomoda o setor. Quando o corte acontece por limitação da rede, quem perde receita é o gerador, ainda que a falha esteja na infraestrutura de transmissão, que é responsabilidade de outro elo da cadeia. Discussões sobre ressarcimento por cortes passados vêm ganhando adesão justamente por isso, e a definição de quem arca com o prejuízo é um dos pontos mais sensíveis da agenda regulatória atual.
O tamanho do parque instalado explica por que a conta ficou grande. O Brasil se tornou um dos maiores mercados eólicos do mundo em capacidade instalada, com milhares de aerogeradores concentrados em poucos estados. Quando o percentual de corte sobe alguns pontos nesse volume, o prejuízo agregado salta para a casa dos bilhões, mesmo que cada parque individualmente perca apenas uma fração da geração possível.
Uma agenda entregue em ano eleitoral
Por outro lado, vale registrar o timing. Documento setorial entregue a presidenciáveis é peça de pressão organizada, e a ABEEólica não está sozinha nesse movimento: a associação das distribuidoras de gás fez algo parecido na mesma semana, com nove medidas próprias. É o setor de energia inteiro tentando pautar o próximo governo antes que a agenda se feche.
Ainda assim, isso não invalida o diagnóstico, que é sólido. Um país que atraiu bilhões em investimento renovável e agora corta até 45% da geração de alguns parques tem um problema real de planejamento, não uma queixa de lobby. Consequentemente, o curtailment prolongado encarece o crédito para novos projetos, porque o financiador passa a descontar essa perda no fluxo de caixa projetado.
Olhando assim, dá pra entender por que a entidade escolheu esse tema como bandeira. Não adianta discutir a próxima década de expansão eólica se a década atual está produzindo energia que se perde no ar por falta de linha. Resolver transmissão e armazenamento é menos glamouroso do que anunciar novo parque, mas é o que decide se o investimento já feito vai dar retorno.
Cortar até 45% da geração de um parque eólico é falha de planejamento ou preço da transição?
