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Com um investimento de €65 milhões e a primeira megafazenda do mundo projetada para cultivar polvos, a Espanha avança em pesquisas industriais e inicia a disputa pelo futuro da proteína mais controversa da aquicultura global

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 01/12/2025 às 13:22
Atualizado em 30/11/2025 às 23:43
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Espanha investe €65 milhões na primeira megafazenda de polvos do mundo e inicia disputa global por uma das proteínas mais controversas da aquicultura.

Em 2022, quando a empresa espanhola Nueva Pescanova anunciou oficialmente ter dominado o ciclo completo de reprodução do polvo em cativeiro, laboratórios e centros de aquicultura do mundo inteiro voltaram sua atenção para a Galícia, no noroeste da Espanha. A notícia, divulgada pela Reuters, BBC, CNN e confirmada em comunicados técnicos da própria companhia, marcou um ponto de virada na indústria mundial de proteína marinha. O polvo, até então considerado “impossível” de criar em escala industrial devido à alta mortalidade das larvas, ao comportamento complexo e ao canibalismo entre indivíduos, finalmente parecia próximo de entrar na aquicultura global.

A proposta espanhola é ousada: construir a primeira megafazenda de polvos do mundo, com um investimento estimado em €65 milhões, tecnologia própria e um modelo experimental de engorda, alimentação e reprodução ainda em avaliação. É um projeto descrito por especialistas como “revolucionário”, “controverso” e “sem precedentes”, capaz de redefinir o mercado gastronômico e científico.

A megafazenda de polvo: estrutura, tecnologia e ambição industrial

O projeto inicial prevê a instalação de tanques, módulos de reprodução e sistemas de monitoramento contínuo em uma área próxima ao porto de Las Palmas, nas Ilhas Canárias. Os documentos apresentados pela empresa às autoridades locais incluem salas climatizadas, controle de luminosidade, sistemas de filtragem de água marítima e um modelo de manejo que tenta simular parte das condições do habitat natural da espécie Octopus vulgaris.

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A tecnologia usada no laboratório baseia-se no trabalho iniciado em 2010 pelo Instituto Espanhol de Oceanografia (IEO), que conseguiu — após anos de estudo — levar polvos da fase larval até a fase juvenil. A Nueva Pescanova então firmou parceria com os pesquisadores e iniciou testes privados para ampliar o rendimento e reduzir a mortalidade, histórico gargalo da produção em cativeiro.

Segundo a Reuters, técnicos entrevistados afirmam que a empresa conseguiu completar várias gerações de polvos criados em laboratório, o que viabilizou a ambição de escalar o processo.

Apesar disso, o modelo industrial proposto continua em fase de análise e não há dados oficiais de tonelagem produzida apenas projeções, ainda sem validação final dos órgãos ambientais.

Polvo: uma das proteínas mais complexas e eticamente debatidas do planeta

A criação industrial de polvo não é apenas uma questão de engenharia. Envolve debates éticos, biológicos e científicos raramente vistos na aquicultura.

O polvo é considerado um dos animais mais inteligentes do mundo marinho. Estudos publicados na revista Nature mostram que esses animais:

  • resolvem problemas complexos
  • usam estratégias de camuflagem sofisticadas
  • demonstram comportamentos que sugerem memória e aprendizagem
  • manipulam objetos e escapam de ambientes com facilidade

Essas características, combinadas ao ciclo de vida curto e à alta sensibilidade ambiental, tornaram sua criação uma barreira para pesquisadores por décadas.

Por isso, quando a Espanha anunciou que havia chegado ao ponto de planejar uma megafazenda, cientistas de universidades europeias e entidades ambientais começaram a debater publicamente os riscos.

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A BBC destacou que grupos como a Compassion in World Farming questionam se a criação intensiva pode causar sofrimento, devido ao comportamento territorial, ao canibalismo e ao estresse decorrente da alta densidade de tanques.

A Nueva Pescanova afirma ter protocolos de bem-estar animal e pesquisas contínuas para mitigar estresse, mas até agora o projeto divide opiniões — o que só aumenta a curiosidade e a repercussão global.

Impacto econômico e a disputa internacional por uma nova fronteira da proteína

Apesar da controvérsia, o interesse econômico é inegável.

O polvo é uma das proteínas de maior valor agregado na gastronomia. Em cidades da Europa e da Ásia, o preço do polvo fresco pode ultrapassar €20 por quilo, e o mercado global movimenta centenas de milhões de euros por ano.

A Espanha, por sua vez, é um dos maiores consumidores de polvo do planeta, especialmente na Galícia, onde pratos tradicionais como o pulpo a la gallega fazem parte da identidade cultural.

Se o projeto espanhol atingir a escala pretendida, o país poderá:

  • reduzir a dependência da pesca extrativa
  • abastecer o mercado interno com produção rastreada
  • exportar tecnologia para outros países
  • se tornar pioneiro em uma cadeia global ainda inexistente

Mas nada disso é garantido. A megafazenda ainda aguarda autorizações ambientais definitivas para operar em produção plena, e seu desempenho industrial real em toneladas, rendimentos e taxa de sobrevivência — ainda não foi comprovado publicamente.

O que existe, hoje, é uma infraestrutura em construção, um investimento milionário e um potencial tecnológico inédito.

O que representa o projeto espanhol para o futuro da aquicultura

Se a criação de polvo avançar, a Espanha abrirá uma nova fronteira da aquicultura global comparável ao impacto que Noruega teve com o salmão e China com a carpa, tilápia e mariscos.

Mas se não avançar, o caso espanhol será lembrado como um dos experimentos mais ousados (e controversos) já tentados na criação de proteína marinha.

Independentemente do desfecho, a megafazenda espanhola já cumpre um papel histórico: acelerar o debate internacional sobre os limites da produção animal em ambientes industriais e sobre o quanto ciência e mercado estão dispostos a investir para transformar espécies complexas em produtos escaláveis.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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