Uma cidade de apenas 12 mil habitantes em Santa Catarina produz 150 mil toneladas de hortaliças por ano em propriedades familiares de quatro hectares cada, abastece supermercados e feiras de quatro regiões do estado e carrega um título que poucos municípios no Brasil podem disputar
Antônio Carlos, na Grande Florianópolis, é considerada a Capital Catarinense das Hortaliças e produz cerca de 150 mil toneladas de vegetais por ano em propriedades de base familiar, segundo dados da Prefeitura. O município tem pouco mais de 12 mil habitantes e cerca de 1.162 famílias cadastradas na produção agrícola, cultivando mais de 75 tipos de hortaliças em propriedades com média de quatro hectares cada. O valor bruto da produção alcança R$ 31,85 milhões, conforme a Epagri, e o setor responde por cerca de 36% da atividade econômica local.
Com pouco mais de 12 mil habitantes segundo estimativa do IBGE para 2025, o município de Antônio Carlos, na Grande Florianópolis, produz cerca de 150 mil toneladas de hortaliças por ano em propriedades de base familiar. A cidade carrega o título informal de Capital Catarinense das Hortaliças e abastece feiras, supermercados e a Ceasa em diferentes regiões de Santa Catarina. São mais de 75 tipos de culturas plantadas em propriedades com média de quatro hectares cada, onde o trabalho é feito por núcleos familiares que colocam pai, filho e avô na mesma lavoura.
“A agricultura é a base da nossa economia. Se você tirar a agricultura familiar, você não fala de Antônio Carlos”, disse Marcelo Guesser, secretário municipal de Agricultura de Antônio Carlos, em entrevista ao portal ND Mais. A declaração não é exagero retórico: segundo a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), o valor bruto da produção agrícola do município alcança R$ 31,85 milhões, e o setor responde por cerca de 36% de toda a atividade econômica local.
O tamanho da produção que sai de propriedades de quatro hectares
Antônio Carlos tem cerca de 1.162 famílias cadastradas na produção agrícola, distribuídas em propriedades pequenas com média de quatro hectares cada. O volume de 150 mil toneladas de hortaliças por ano impressiona quando se considera que a área produtiva total do município é limitada pelo relevo acidentado que impede mecanização em larga escala. A maior parte do trabalho é braçal, com apoio de tratores e retroescavadeiras fornecidos pela prefeitura.
-
Abóbora bicolor que parece pintada à mão surgiu a partir de uma “mutação espontânea” e foi descoberta por pesquisadores da Embrapa, no DF; conheça a BRS Brasileirinha
-
Na China, um prédio de 26 andares cria 1,2 milhão de porcos por ano e leva a pecuária para a vertical com alimentação por tubos e câmeras de inteligência artificial vigiando os animais
-
Com quase 60% do território coberto por deserto, Israel dessaliniza a água do mar e recicla 90% do esgoto para transformar a areia numa potência agrícola bilionária de tâmaras e algodão
-
Churrasco de 74 horas bate recorde mundial: prepara 3,4 toneladas de carne, serve 10.500 refeições
A escala é alcançada pela diversidade e pela rotação intensiva de culturas. Enquanto grandes fazendas do Cerrado apostam em monocultura mecanizada, Antônio Carlos faz o oposto: muitas culturas diferentes em pouca terra, com ciclos curtos que permitem várias colheitas por ano na mesma área. A proximidade do litoral catarinense, principal mercado consumidor, reduz o tempo entre a colheita e a entrega, garantindo frescor que é o principal diferencial competitivo das hortaliças locais.
As principais culturas e para onde vão os vegetais

A Epagri registra dados de produção por cultura que revelam a diversidade de Antônio Carlos. A alface lidera com 2.611 toneladas anuais, seguida pelo chuchu (1.872 t), batata-doce (1.574 t), cebolinha (652 t), rúcula (614 t), salsa (569 t), cenoura (350 t), pepino (321 t), repolho (265 t) e brócolis (264 t). Essas dez culturas representam apenas uma fração do total de mais de 75 variedades plantadas no município.
Os vegetais de Antônio Carlos abastecem a Ceasa de Santa Catarina, supermercados de grandes redes e feiras livres em pelo menos quatro regiões do estado, incluindo a Grande Florianópolis, Blumenau, Tubarão e Joinville. A entrega é feita diretamente pelos produtores ou por intermediários que compram na propriedade, modelo que elimina etapas da cadeia e permite ao agricultor reter mais valor do preço final. Cada caixa de alface que chega à gôndola percorre em média menos de 100 quilômetros, distância que garante o frescor.
Como uma colonização alemã do século XIX criou a vocação agrícola
A história da agricultura em Antônio Carlos começa com a colonização alemã na década de 1830. Os primeiros colonos cultivavam cana-de-açúcar e aipim para produção de farinha, atividades adaptadas ao relevo acidentado e às propriedades pequenas que a geografia impunha. Com o tempo, a vocação migrou para hortaliças, cultivo que se adapta melhor a terrenos inclinados, gera renda em ciclos curtos e aproveita a proximidade do litoral como mercado consumidor.
O município preserva traços culturais da imigração, incluindo o Hunsrückisch como língua cooficial, detalhe que poucos brasileiros conhecem. A tradição familiar que sustenta a produção de hortaliças é herança direta dessa colonização: as propriedades passam de geração em geração, e o conhecimento sobre plantio, manejo e colheita é transmitido dentro do núcleo familiar. Guesser explicou que as origens do povo se deram pelo cultivo de cana e aipim, e que o escoamento facilitado pela proximidade do litoral consolidou a transição para hortaliças.
O valor econômico que a agricultura gera para o município
O valor bruto da produção agrícola de Antônio Carlos alcança R$ 31,85 milhões, segundo dados da Epagri. A galinha responde por 25% desse valor, o bovino por 12,8% e a alface por 11,5%, distribuição que mostra que a economia agrícola do município vai além das hortaliças e inclui proteína animal. Os 36% de participação da agricultura na atividade econômica local, segundo o secretário, tornam o setor insubstituível para a sustentação financeira do município.
Para uma cidade de 12 mil habitantes, R$ 31,85 milhões em valor bruto de produção agrícola é um número expressivo que coloca Antônio Carlos acima de municípios muito maiores em termos de produção per capita. Cada hectare produtivo do município gera mais valor econômico do que a média estadual para horticultura, resultado da combinação entre diversidade de culturas, ciclos curtos de colheita e acesso direto a mercados consumidores de alto poder aquisitivo.
Os desafios que ameaçam o futuro da Capital das Hortaliças
A narrativa de sucesso de Antônio Carlos esconde desafios reais que podem comprometer o futuro da produção. A sucessão rural é o mais urgente: filhos de agricultores migram para cidades em busca de empregos com carteira assinada e salários fixos, deixando propriedades sem mão de obra qualificada para manter o volume de produção. O envelhecimento dos produtores ativos é um problema que atinge a agricultura familiar em todo o Brasil, e Antônio Carlos não é exceção.
Eventos climáticos extremos também pressionam o setor. A Epagri registrou lavouras de Antônio Carlos destruídas por chuvas intensas em novembro, e a instabilidade climática tende a se agravar nos próximos anos. O custo do diesel, essencial para o transporte rodoviário que leva as hortaliças às quatro regiões do estado, é outro fator que corrói a margem dos produtores a cada reajuste na bomba. Em um setor onde o valor do produto final é baixo e o volume precisa ser alto, qualquer aumento de custo logístico pode inviabilizar a operação.
Você conhecia Antônio Carlos como a Capital Catarinense das Hortaliças ou é a primeira vez que ouve falar dessa cidade? Conte nos comentários se a alface e o chuchu que você compra no supermercado vêm de Santa Catarina e o que acha de uma cidade de 12 mil habitantes alimentar boa parte do estado.

