Com investimento de R$ 3,1 bilhões e capacidade de 1 m³/s, a usina de dessalinização de Fortaleza garantirá água a 2 milhões de pessoas e será a maior do Nordeste.
O Ceará está prestes a inaugurar uma das obras mais emblemáticas do país no setor de abastecimento: a usina de dessalinização de Fortaleza, projeto avaliado em R$ 3,1 bilhões e conduzido pela CAGECE (Companhia de Água e Esgoto do Ceará) em parceria público-privada com o consórcio Águas de Fortaleza SPE. Quando concluída, a estrutura será a maior usina de dessalinização do Nordeste e a primeira em larga escala do Brasil, com capacidade de produzir 1 metro cúbico de água por segundo, o equivalente a 86 milhões de litros por dia, volume suficiente para atender 2 milhões de habitantes da Região Metropolitana de Fortaleza.
Uma resposta estrutural à crise hídrica no semiárido
O projeto nasceu de um contexto de escassez severa. Entre 2012 e 2018, o Ceará enfrentou um dos períodos de seca mais longos de sua história recente. A dependência de açudes e fontes superficiais colocou em risco o abastecimento da capital e de cidades vizinhas.
A solução veio com um plano de longo prazo do governo estadual para diversificar a matriz hídrica. A usina, ao utilizar a água do mar como fonte alternativa e permanente, representa um marco de independência hídrica para o semiárido nordestino.
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A planta será construída no bairro Praia do Futuro, em uma área de 90 mil metros quadrados. O processo usará a tecnologia de osmose reversa, na qual a água do mar passa por membranas semipermeáveis capazes de reter sais e impurezas, resultando em água potável dentro dos padrões exigidos pelo Ministério da Saúde.
O sistema será alimentado por energia elétrica da rede da Enel Ceará, e estudos já avaliam a possibilidade de integrar fontes renováveis, como solar e eólica, para reduzir a pegada de carbono do processo.
Escala e tecnologia inéditas no país
Com produção diária equivalente a 35 mil caminhões-pipa, a usina de Fortaleza será responsável por 12% de todo o volume de água consumido na Região Metropolitana.
O projeto inclui uma adutora de 14 km para levar a água tratada até o reservatório de Sabiaguaba e interligá-la ao sistema existente. A operação será totalmente automatizada, com controle digital de pressão, salinidade e vazão em tempo real, garantindo eficiência energética e segurança sanitária.
A estrutura também incorpora uma solução ambiental de referência: o sistema de difusão do efluente salino, que devolve a salmoura ao oceano de forma dispersa, minimizando o impacto ecológico sobre a fauna marinha. O estudo de impacto ambiental foi conduzido pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado e recebeu parecer favorável do IBAMA.
Investimento e geração de empregos
O investimento de R$ 3,1 bilhões é resultado de uma parceria público-privada com vigência de 30 anos, sendo R$ 500 milhões aplicados diretamente na fase de obras e o restante destinado à operação e manutenção. A obra mobiliza mais de 2 mil trabalhadores diretos e indiretos, além de gerar oportunidades em setores de engenharia, transporte e serviços.
Durante a fase de pico das obras, a expectativa é que 60% da mão de obra empregada seja local, reforçando o impacto econômico regional. Segundo a CAGECE, o projeto integra o Programa de Segurança Hídrica do Ceará, que prevê ações de longo prazo para garantir água de qualidade até 2050.
Fortaleza como modelo de inovação hídrica
Quando entrar em operação, a usina de dessalinização colocará Fortaleza no mapa global das cidades que investem em infraestrutura hídrica resiliente.
O modelo segue referências internacionais como Ashkelon (Israel), Carlsbad (EUA) e Al Khobar (Arábia Saudita) regiões que também enfrentaram escassez hídrica severa e encontraram na dessalinização uma solução sustentável.
Especialistas destacam que o Nordeste, pela proximidade do litoral e pela experiência acumulada em gestão de recursos hídricos, pode se tornar o principal polo de dessalinização da América Latina. A meta do governo estadual é que o projeto sirva de base técnica para futuras plantas em cidades como Natal, Recife e Maceió.
Um novo marco para o semiárido
O avanço da usina de Fortaleza representa mais do que uma obra de engenharia simboliza uma virada histórica na forma como o Brasil enfrenta a escassez de água. Em uma região marcada por secas cíclicas e dependência de reservatórios, a iniciativa inaugura uma era de segurança hídrica e inovação tecnológica.
Se o Nordeste aprendeu a conviver com a seca, agora o desafio é transformá-la em oportunidade e a dessalinização de Fortaleza é o primeiro passo concreto nessa direção.
A combinação entre tecnologia, investimento e gestão integrada promete não apenas mitigar os efeitos das estiagens, mas também posicionar o Ceará como referência global em soluções hídricas para climas áridos.

