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Com até R$ 5 mil por mês em garimpo ilegal, jovens da Amazônia trocam salas de aula por rios envenenados, enfrentam mercúrio tóxico sem equipamentos e revelam uma corrida pelo ouro que devasta comunidades indígenas isoladas

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 23/11/2025 às 22:32
Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.
Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.
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Jovens abandonam escola e mergulham em rios contaminados por mercúrio em busca de ouro na Amazônia peruana

Em balsas improvisadas no rio Nanay, na região de Loreto, no Peru, dezenas de jovens mergulham diariamente em águas turvas para extrair ouro com as mãos nuas e dragas rudimentares, ignorando os alertas de contaminação que se espalham pela correnteza.

O que impulsiona essa rotina é a promessa de rendas que chegam a US$ 1.000 mensais em períodos de alta produção, valor que triplica o salário mínimo local em atividades tradicionais como a pesca ou a agricultura de subsistência.

Mas o custo vai além do esforço físico: o mercúrio usado na separação do metal precioso libera vapores tóxicos que se infiltram no ar, no solo e na cadeia alimentar, afetando mais de 170 mil indígenas em territórios isolados ao longo do rio, que abastece água potável para quase meio milhão de pessoas na cidade de Iquitos.

Explosão do garimpo ilegal no rio Nanay

O garimpo ilegal explodiu na Amazônia peruana desde a pandemia de covid-19, quando o desemprego e a alta no preço do ouro – que ultrapassou US$ 3.000 por onça em 2024 – atraíram trabalhadores para as margens do Nanay.

Relatórios do Monitoring of the Andean Amazon Project (MAAP) identificaram 122 casos de mineração irregular ao longo do rio entre 2021 e julho de 2023, com o Nanay concentrando três vezes mais sítios de extração do que os outros dez rios afetados na região.

Em 2025, o número de dragas operando no rio chegou a 275, segundo análises de imagens de satélite divulgadas pelo MAAP em setembro.

Essas embarcações, proibidas por lei em corpos d’água, sugam o leito do rio, misturam sedimentos com mercúrio e liberam rejeitos contaminados de volta à corrente, transformando um ecossistema vital em uma veia envenenada que ameaça dezenas de comunidades indígenas.

Líderes indígenas relatam contaminação irreversível

Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.
Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.

José Manuyama Ahuite, líder comunitário nascido na confluência dos rios Ucayali e Tapiche, em Requena, a 160 km ao sul de Iquitos, testemunhou a mudança.

Em 2004, quando se mudou para a área, o Nanay ainda era fonte de peixes limpos e água para beber.

Hoje, ele integra patrulhas indígenas que tentam bloquear o avanço das dragas, mas os mineradores, muitas vezes armados e organizados em grupos criminosos transnacionais, respondem com tiroteios.

“O rio está condenado”, disse Manuyama ao Guardian em dezembro de 2023, ecoando o sentimento de isolamento que marca vilas como Mishana, onde cerca de 80 moradores dependem da pesca e do turismo comunitário para sobreviver.

A contaminação já se reflete nos corpos: um estudo do Center for Amazonian Scientific Innovation (CINCIA), de Wake Forest University, realizado em junho de 2025, analisou amostras de cabelo de 273 moradores de seis comunidades às margens do Nanay e do Pintuyacu, revelando que 80% apresentavam níveis de mercúrio acima do limite seguro.

Apenas 3% dos testados estavam abaixo desse patamar, com medianas quase quatro vezes maiores que o recomendado.

Onde fica o rio Nanay e como o ouro mudou Loreto

O rio Nanay serpenteia pela província de Maynas, em Loreto, o maior departamento do Peru, cobrindo uma bacia que se estende por mais de 100 km até desaguar no Amazonas, perto de Iquitos, a maior cidade da floresta e porta de entrada para povos indígenas do norte amazônico.

Historicamente, a economia local girava em torno da agricultura de roça e da extração sustentável de recursos, com comunidades como as dos povos Ikito e Bora mantendo práticas ancestrais de pesca e coleta.

Loreto era vista como uma região pacífica, distante dos conflitos armados que assolam outras partes do país.

Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.
Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.

Mas a descoberta de veios aluviais de ouro nas décadas de 2010, combinada com a recessão pós-pandemia – que elevou a pobreza para 29% da população peruana em 2023 –, reconfigurou o território.

Em 2023, o MAAP mapeou a presença de mineração ilegal em 11 dos maiores rios de Loreto, afetando três áreas naturais protegidas e 31 territórios indígenas.

O Nanay emergiu como epicentro, com 98 dragas detectadas no meio do ano, contra nenhuma no início de 2020.

Até meados de 2025, o total de dragas identificadas na região de Loreto chegou a 989 desde 2017, segundo o relatório MAAP #233.

Essa expansão devasta 140 mil hectares de floresta desde 1984, com 225 rios e riachos impactados, incluindo o Nanay como artéria principal para ecossistemas e dezenas de comunidades.

Grupos estrangeiros armados, vindos de fronteiras como a com o Brasil e a Colômbia, infiltram-se nas áreas remotas, onde a ausência de autoridades permite que o crime organizado controle rotas de escoamento do ouro.

Exportações ilegais de ouro do Peru atingiram US$ 6,8 bilhões em 2024, um aumento de 41% em relação a 2023, superando em valor o tráfico de drogas na região.

Rotina diária nas dragas do rio Nanay

O dia começa antes do amanhecer nas margens do Nanay, com balsas de madeira e motores barulhentos partindo de acampamentos improvisados em vilas como Requena ou Belén.

Jovens, muitos na faixa dos 15 aos 25 anos, operam as dragas – máquinas flutuantes que aspiram cascalho do fundo do rio a profundidades de até 10 metros.

Sem máscaras ou luvas, eles manipulam o mercúrio diretamente: o metal líquido é misturado aos sedimentos para formar uma amálgama com o ouro, que depois é aquecida em fogueiras abertas, liberando vapores que se dissipam no ar úmido da floresta.

Cada balsa processa toneladas de material por dia, mas o rendimento varia com o preço global do ouro e a sorte na localização de depósitos.

Em dias produtivos, um grupo de quatro a seis mineradores extrai o suficiente para rendas de US$ 500 a US$ 1.000 por mês por pessoa, conforme relatos de trabalhadores à Thomson Reuters Foundation em setembro de 2024.

Um único draga pode gerar mais de US$ 135 mil mensais em operações otimizadas, segundo o Natural Resource Governance Institute em novembro de 2025, mas os lucros se dividem entre operadores, fornecedores de mercúrio e intermediários criminosos.

Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.
Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.

O processo é exaustivo: mergulhos repetitivos em águas lamacentas causam infecções de pele e fadiga muscular, enquanto o calor de 35 graus Celsius e a umidade de 90% agravam o desconforto.

Chuvas intensas, comuns na estação úmida, elevam o nível do rio e espalham os rejeitos contaminados para quilômetros downstream, alcançando vilas remotas.

Abandono escolar impulsiona mão de obra jovem no garimpo

O impacto recai pesado sobre a juventude indígena, que abandona salas de aula para entrar no ciclo do garimpo.

Em comunidades afetadas pelo Nanay, escolas registram evasão de até 40%, impulsionada pela necessidade imediata de renda familiar.

Jovens veem colegas retornando com ouro cru – vendido a compradores clandestinos por até US$ 70 por grama – e optam pelo trabalho imediato em vez de estudos que prometem retornos distantes.

O sistema educacional em áreas indígenas falha em oferecer ensino bilíngue intercultural, com infraestrutura precária e professores insuficientes, conforme relatório da Free the Slaves e da Onampitsite Noshaninkaye Tzinani em 2024.

Na prática, adolescentes revezam turnos nas dragas, contribuindo com 20% a 30% da renda familiar em vilas onde a pobreza extrema atinge 50% das famílias.

Um estudo de 2025 na província de Puno, vizinha a Loreto, indica que distritos mineradores têm 10% menos jovens de 18 anos completando o ensino médio, um padrão replicado no norte amazônico.

A lógica é pragmática: um mês na mineração cobre despesas com comida e remédios que um ano de colheita de mandioca não garante.

Mas o conhecimento adquirido é o da sobrevivência tóxica – como evitar vapores de mercúrio ou negociar com traficantes –, não o das salas de aula.

Líderes indígenas como Eusebio Ríos, dos Harakmbut, alertam que o peixe contaminado, pilar proteico da dieta, agrava a vulnerabilidade, forçando mais crianças a saírem da escola para ajudar na pesca ou no garimpo.

Técnicas artesanais e uso intenso de mercúrio

Os garimpeiros do Nanay empregam métodos artesanais, longe da sofisticação industrial.

Dragas movidas a diesel, com tubos de sucção e peneiras manuais, substituem escavadeiras em terra firme.

O mercúrio é aplicado diretamente: após aspirar o sedimento, os trabalhadores agitam baldes com o químico, formando grumos que são prensados e queimados.

Essa técnica, banida em convenções internacionais como a Minamata, libera cerca de 114 kg de mercúrio por mês por draga, conforme operação conjunta de Colômbia, Brasil e EUA que destruiu 19 equipamentos em 2023.

Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.
Garimpo ilegal no rio Nanay atrai jovens com renda rápida, espalha mercúrio tóxico e ameaça comunidades indígenas da Amazônia peruana.

Sem centrífugas ou filtros, o processo depende de força bruta e sorte, limitando a escala mas permitindo entrada barata – uma balsa custa menos de US$ 5.000, financiada por empréstimos de chefes locais.

Na estação chuvosa, o volume d’água facilita a separação, mas aumenta deslizamentos e dispersão de tóxicos.

Em 2025, o MAAP registrou 42 dragas ativas no alto Nanay, sobrepondo-se a áreas protegidas como a Reserva Nacional Allpahuayo-Mishana, onde patrulhas do Sernanp treinam indígenas em vigilância, mas enfrentam limitações logísticas.

Renda rápida em meio à vida precária nas margens do rio

Apesar dos ganhos, a existência nas margens do Nanay permanece rudimentar.

Parte da renda financia combustível para dragas e suprimentos básicos, como arroz e ferramentas, em mercados de Iquitos.

Em dias bons, um jovem minerador leva para casa US$ 30 a US$ 50, o suficiente para comprar remédios ou roupas para a família.

Veículos motorizados, como canoas rápidas, facilitam o transporte entre vilas isoladas e pontos de venda de ouro, mas casas continuam de palafitas ou barro, ligadas a programas de reassentamento indígena.

O benefício imediato reforça a adesão: em Loreto, o garimpo injeta liquidez onde a agricultura rende meses de colheita equivalentes a semanas de mineração.

No entanto, a contaminação eleva custos médicos, com tratamentos para envenenamento por mercúrio consumindo economias rápidas.

Em 2025, uma operação aduaneira desmantelou rede que traficou 200 toneladas de mercúrio de minas mexicanas para o Peru entre 2019 e junho, destacando a dependência do suprimento ilegal.

Garimpo clandestino ameaça futuro da Amazônia peruana

A região de Loreto permanece à margem do radar global, mas o garimpo no Nanay ilustra como booms econômicos informais reorganizam vidas em rincões amazônicos, com efeitos em educação, saúde e governança.

Em meio a patrulhas indígenas e queixas internacionais, os jovens continuam a apostar no ouro, apesar dos rios que carregam não só promessas, mas venenos silenciosos.

E você, ao ver jovens indígenas trocarem o futuro na escola por ouro envenenado hoje, acha que o preço do metal vale o risco de um rio inteiro contaminado para gerações?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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