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Com 9.842 km quadrados, 16 plantas por metro e 825 toneladas ao ano, os restos de abacaxi viram fibras, Pinatex, pratos e detergentes entre Filipinas, Barcelona, Colômbia e Vietnã, enquanto metade da fruta ainda some no mercado global até 2026

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 14/02/2026 às 15:09
Atualizado em 14/02/2026 às 15:12
Assista o vídeoRestos de abacaxi viram fibras, Pinatex, pratos e detergentes em cadeias que conectam campo e indústria, com foco em logística, preço, escala e impacto ambiental.
Restos de abacaxi viram fibras, Pinatex, pratos e detergentes em cadeias que conectam campo e indústria, com foco em logística, preço, escala e impacto ambiental.
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Na cadeia do abacaxi, os restos de abacaxi que iam para queima, apodrecimento ou aterro entram em rotas industriais que misturam fibras e Pinatex para moda, pratos compostáveis com sementes e detergentes fermentados, conectando fazendas, fábricas, impostos e preço final em três continentes, sem depender de luxo, só de escala.

O que muda quando os restos de abacaxi deixam de ser lixo e passam a ser matéria prima com preço, padrão e rota definida. Em uma cadeia global descrita em apurações da Business Insider, a plantação ocupa mais de 9.842 km quadrados pelo mundo, área citada como suficiente para cobrir Nova York dez vezes, e cerca de metade de cada fruta termina como desperdício.

Em vez de focar só na polpa, produtores e fábricas estão testando três saídas para o mesmo problema. Transformar folhas em fibras e Pinatex para têxteis, prensar pratos compostáveis a partir de coroas e pedaços, e fermentar cascas e caroços para detergentes que prometem reduzir agressividade química sem abandonar desempenho.

O tamanho do desperdício e por que ele virou negócio

Restos de abacaxi viram fibras, Pinatex, pratos e detergentes em cadeias que conectam campo e indústria, com foco em logística, preço, escala e impacto ambiental.

A popularidade do abacaxi cresceu junto com a área plantada, e o efeito colateral é previsível.

Quando quase metade da fruta é descartada, os restos de abacaxi deixam de ser detalhe de bastidor e viram custo de manejo, risco ambiental e oportunidade industrial, sobretudo onde a destinação tradicional era queima a céu aberto ou decomposição sem controle.

Essa virada não depende de um milagre isolado.

Depende de logística curta, de equipamento simples para separar matéria prima e de contratos que tornem previsível a compra de resíduos.

O que antes era sobra passa a ser insumo com especificação, e isso muda a relação entre agricultor, processador e marca que compra o produto final.

Das Filipinas do século XVI à volta das fibras no século XXI

Restos de abacaxi viram fibras, Pinatex, pratos e detergentes em cadeias que conectam campo e indústria, com foco em logística, preço, escala e impacto ambiental.

A ideia de usar fibras de abacaxi não é nova. Nas Filipinas, a técnica remonta aos anos 1500 e gerou o tecido Piña, usado em peças formais como o barong tagalog.

A origem do abacaxi é atribuída à América do Sul, mas, depois que a fruta chegou à Europa, virou símbolo de status, oferecida a realeza como o Carlos II, e associada à expansão espanhola vinculada ao reinado de Fernando II.

Esse passado ajuda a explicar o salto recente.

Há cerca de uma década, a designer Carmen Ijosa retomou a lógica histórica e tentou transformá-la em escala industrial, buscando substituir couro animal por uma alternativa de base vegetal.

As folhas, com combinação de força e flexibilidade e comprimento que pode chegar a seis pés, sustentam o argumento técnico das fibras que entram em novos materiais.

Pinatex e fio a partir de restos de abacaxi com cadeia internacional

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A empresa Ananas Anam foi lançada em 2016 depois de décadas de desenvolvimento do processo, com duas frentes descritas.

Uma delas é o Pinatex, apresentado como material que imita características do couro, e a outra é o fio de Piña, que entra como alternativa para aplicações têxteis onde a estética e a resistência importam tanto quanto a origem.

A operação depende de parceria com fornecedores, incluindo a Dole Sunshine Company e agricultores independentes, com mais de 500 pessoas envolvidas na cadeia.

Folhas que seriam queimadas ou deixadas para apodrecer são passadas por uma máquina que extrai fibras, depois secas ao sol em poucas horas, antes de seguir rota industrial.

Nesse desenho, os restos de abacaxi viram fibras com destino certo, e o desperdício vira receita adicional para o produtor.

Barcelona e Portugal como rota de transformação do material

Depois da extração, parte do fluxo segue para Barcelona, onde as fibras passam por corte tipo guilhotina, alinhamento e moagem até ficar com aparência semelhante a algodão.

A massa é compactada em fardos, etapa que padroniza volume e facilita transporte, reduzindo variação na qualidade do insumo que chega às próximas fases.

A etapa final é descrita em Portugal, onde as fibras entram em uma agulha perfuradora, são tricotadas com fios feitos de amido de milho e passam por uma correia transportadora de 30 metros para tingimento e secagem.

Uma resina derivada de plantas e petróleo dá cor e durabilidade, e um rolo aquecido achata o têxtil e seca a resina.

O argumento industrial é que o Pinatex seria 95% de recursos renováveis, com 5% ainda fora dessa meta, e que um metro quadrado de Pinatex utiliza folhas suficientes para 16 plantas de abacaxi, além da estimativa de evitar que cerca de 825 toneladas de folhas sejam queimadas por ano.

Pratos na Colômbia e o choque de preço no varejo

O caminho dos pratos aposta em outra lógica.

Em vez de uma cadeia têxtil internacional, a proposta é aproveitar coroas e pedaços que já sobram do processamento local, misturar com papel reciclado e prensar chapas que viram pratos compostáveis.

A promessa não é luxo, é escala: um resíduo volumoso entra como substituto parcial do plástico, e o produto precisa funcionar no carrinho do supermercado.

Na Colômbia, a Life Pack trabalha com essa fórmula e afirma produzir até 10.000 pratos em um dia movimentado, além de recipientes e copos.

Parte dos produtos inclui mangas com sementes de plantas comestíveis, ideia que reforça a narrativa de circularidade quando os pratos chegam ao solo e à água.

O preço citado é cerca de 2,5 dólares por dúzia, mais que o dobro do prato plástico de varejo.

Esse é o ponto em que pratos verdes podem perder para o bolso, mesmo quando a política pública empurra o consumidor na direção oposta.

Imposto sobre plástico, demanda e a corrida para ampliar pratos

O contexto regulatório aparece como motor de mercado.

O país introduziu em 2017 um imposto sobre plásticos de uso único que aumenta ano a ano, e, em algumas cidades, catadores informais passaram a receber salários como funcionários municipais.

Isso cria incentivo para alternativas, mas não elimina o atrito do preço e a resistência de hábitos de consumo.

A Life Pack é descrita como fundada há 12 anos em Cali por um casal, com prêmios de pequenas empresas e aparição na versão colombiana do Shark Tank.

Os pratos são vendidos em três grandes redes de supermercados no país e a empresa recebe encomendas semanais pelo próprio site, inclusive com alguns clientes nos Estados Unidos.

O desafio declarado é modernizar equipamentos para ampliar produção e franquear o modelo para outros países.

Detergentes no Vietnã e a aposta na fermentação enzimática

No Vietnã, a Fuwa Biotech trabalha com cascas e caroços de abacaxi para produzir sabões e detergentes naturais.

O ponto de partida é uma fábrica de conservas onde milhares de frutas são cortadas diariamente, e a pilha de resíduos de meio dia costumava ir para aterros próximos, gerando odor e metano.

A solução foi encurtar a logística: os restos de abacaxi seguem de caminhão por cerca de três quilômetros até o local de produção.

A transformação depende de açúcar e água e, segundo o processo descrito, usa cerca de duas toneladas métricas de açúcar por mês.

A mistura fermenta e libera ácidos e enzimas, que são o núcleo funcional dos detergentes.

Os trabalhadores mexem todos os dias, e o cronograma citado fala em cerca de um mês para a mudança visível, dois meses para formar uma massa microbiana e três meses para filtrar e obter a base líquida.

Aqui, os restos de abacaxi deixam de ser passivo ambiental e viram insumo para detergentes com base enzimática.

Teste, segurança e o limite técnico da estabilidade dos detergentes

A Fuwa afirma manter laboratório para medir pH, testar aditivos e comparar produtos concorrentes.

A discussão ambiental entra pelo histórico de detergentes convencionais ricos em fósforo e nitrogênio, que podem acelerar crescimento de algas e formar camadas que sufocam a vida aquática, associadas ao caso do Lago Erie na América do Norte nos anos 1960, quando o lago quase ficou biologicamente morto.

A hipótese é que detergentes baseados em enzimas podem reduzir parte dessa carga, mas o desempenho precisa ser demonstrado em mais cenários.

Mesmo assim, o limite técnico é claro: a evidência citada ainda é parcial e precisa de testes com uma gama maior de microorganismos para validar eficácia em diferentes superfícies e condições.

Outro gargalo é a vida útil, porque certas enzimas podem ser inativadas por temperatura; a Fuwa diz que seus detergentes duram cerca de dois anos, faixa semelhante à de sprays químicos.

O método teria sido aprendido por Huang com Ponbong, que teria compartilhado a fórmula gratuitamente para que outros a aplicassem.

Quando fibras, Pinatex, pratos e detergentes disputam o mesmo resíduo, a pergunta deixa de ser se os restos de abacaxi têm valor.

A disputa passa a ser quem consegue padronizar coleta, manter preço competitivo e provar desempenho sem empurrar custo para o consumidor, enquanto políticas públicas tentam reduzir plástico e poluição.

Pelo seu senso prático, qual rota tem mais chance de sair do nicho, fibras e Pinatex na moda, pratos no varejo ou detergentes por fermentação, e que experiência sua com preço, qualidade ou confiança te faria defender uma escolha e criticar outra com convicção?

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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