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Com 22 anos quando o pai adoeceu, produtora de Goiás que poderia ter migrado para a cidade recusou largar a fazenda e implantou ILPF para virar premiada nacional em propriedades médias pelo Mulheres do Agro

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 24/11/2025 às 13:11
Atualizado em 24/11/2025 às 13:12
Produtora de Goiás transforma fazenda após sucessão familiar com ILPF, energia solar e bioinsumos, tornando-se destaque nacional no agro.
Produtora de Goiás transforma fazenda após sucessão familiar com ILPF, energia solar e bioinsumos, tornando-se destaque nacional no agro.
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Jovem produtora transforma fazenda familiar após assumir gestão em crise e adotar sistema ILPF.

A morte repentina do pai, em 2020, colocou a jovem Maria Lúcia Bessa diante de uma decisão incomum entre herdeiros de propriedades rurais.

Vender a Fazenda São Tomaz, em Rio Verde (GO), ou assumir sozinha a gestão de 500 hectares dedicados à pecuária leiteira e ao cultivo de grãos.

Em vez de buscar um emprego urbano em Goiânia, a cerca de 230 quilômetros, ela permaneceu no campo.

Redesenhou o sistema produtivo com integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), práticas regenerativas e energia renovável.

Quatro anos depois, tornou-se segunda colocada na categoria média propriedade do Prêmio Mulheres do Agro 2024, iniciativa da Bayer em parceria com a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

Estrutura produtiva e desafios da sucessão

Sob a liderança do pai, o modelo adotado na fazenda combinava soja em monocultura com áreas de pastagem já degradadas.

Isso resultava em solos exauridos e rebanho leiteiro de eficiência reduzida.

A média de 15 litros de leite por vaca/dia ficava abaixo de indicadores regionais.

As margens apertadas se somavam a dívidas agravadas pela pandemia e pela volatilidade das commodities.

No momento da sucessão, antigas fragilidades de gestão ficaram evidentes.

Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, mulheres ainda respondem por parcela minoritária da administração de propriedades médias.

Sem graduação concluída em agronomia, que cursava a distância, Maria Lúcia assumiu negociações com bancos e cooperativas.

Produtora de Goiás transforma fazenda após sucessão familiar com ILPF, energia solar e bioinsumos, tornando-se destaque nacional no agro.
Produtora de Goiás transforma fazenda após sucessão familiar com ILPF, energia solar e bioinsumos, tornando-se destaque nacional no agro.

Buscou alongar prazos, renegociar insumos e recuperar a capacidade de investimento da família.

Enfrentou também resistências culturais na região, onde a presença feminina à frente de fazendas de leite ainda é tratada como exceção.

A prioridade inicial foi evitar o fracionamento da área e um eventual leilão da terra para quitação de débitos.

A reestruturação financeira e operacional

A memória da fazenda, adquirida pela família na década de 1990, pesou na escolha de permanecer.

O imóvel representa renda e vínculo territorial no polo agrícola do Sudoeste goiano.

Desde a adolescência, a produtora participava das rotinas de ordenha e plantio, o que ajudou na transição.

Para recompor o caixa entre 2020 e 2021, ela vendeu lotes de gado desmamado considerados menos estratégicos.

Direcionou os recursos para sementes de melhor desempenho e contratou um zootecnista para revisar protocolos sanitários e nutricionais.

Esse ajuste estabilizou o fluxo de caixa por meio da venda de leite para laticínios regionais.

Os preços médios eram compatíveis com os boletins do período.

A estratégia priorizou a manutenção da atividade leiteira como fonte contínua de receita.

Enquanto isso, planejava-se uma mudança estrutural no uso do solo.

Implantação do ILPF e modernização da fazenda

Produtora de Goiás transforma fazenda após sucessão familiar com ILPF, energia solar e bioinsumos, tornando-se destaque nacional no agro.
Produtora de Goiás transforma fazenda após sucessão familiar com ILPF, energia solar e bioinsumos, tornando-se destaque nacional no agro.

A virada ocorreu em 2022, com a implementação de ILPF em cerca de 60% da área útil.

Pastagens cansadas deram lugar a um mosaico de eucalipto, soja em rotação e piquetes manejados para cerca de 250 vacas girolando.

O modelo, alinhado a estudos da Embrapa Cerrados, busca recuperar fertilidade do solo, manter cobertura permanente e reduzir erosão.

Permite também elevar a lotação animal por hectare.

No projeto apresentado ao Prêmio Mulheres do Agro, Maria Lúcia relatou que a equipe identificou gargalos de manejo e de custo.

Identificamos gargalos como a desatualização no manejo e investimos em análise de custos para triplicar a produção diária de leite“, afirmou.

O plantio de eucalipto em linhas consorciadas passou a fornecer biomassa para suplementação alimentar.

Isso contribuiu para reduzir gastos com ração industrializada.

Paralelamente, a fazenda intensificou o foco em genética e nutrição de precisão.

Com o uso de embriões de raças europeias, o rebanho passou a registrar médias próximas de 35 litros de leite por dia.

Alguns animais selecionados superaram esse volume.

A dieta passou a incorporar subprodutos do milho e da soja produzidos no local.

As fórmulas foram ajustadas com base em análises de solo e tecido vegetal.

Em poucos anos, a combinação entre ILPF, melhoramento genético e ração ajustada aumentou de forma significativa o volume de leite.

A Fazenda São Tomaz passou a produzir cerca de 120 mil litros por mês.

O volume é direcionado a indústrias que exigem rastreabilidade e bem-estar animal.

Energia solar, bioinsumos e diversificação

A agenda de sustentabilidade não ficou restrita ao solo.

Em 2023, foram instalados painéis solares de 50 kW.

Eles passaram a suprir grande parte da energia necessária para ordenha, resfriamento e iluminação.

Segundo especialistas, a adoção de energia fotovoltaica em propriedades leiteiras tem avançado por reduzir emissões e custos.

O manejo da lavoura também foi revisto com a introdução de bioinsumos em áreas de soja consorciadas.

Inoculantes e microrganismos substituíram parte dos fertilizantes químicos.

Pesquisadores apontam essa prática como estratégica para reduzir pegada de carbono e dependência de insumos caros.

Essa mudança ampliou o alinhamento da fazenda a critérios ambientais, sociais e de governança.

Na comercialização, a produtora diversificou canais.

Além do leite entregue à indústria, passou a produzir queijos artesanais vendidos em feiras de Rio Verde.

Parte da silagem é negociada com propriedades vizinhas, em parceria com cooperativas locais.

Reconhecimento e expansão das práticas

Produtora de Goiás transforma fazenda após sucessão familiar com ILPF, energia solar e bioinsumos, tornando-se destaque nacional no agro.
Produtora de Goiás transforma fazenda após sucessão familiar com ILPF, energia solar e bioinsumos, tornando-se destaque nacional no agro.

O reconhecimento nacional veio com o Prêmio Mulheres do Agro 2024.

O anúncio ocorreu durante o Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, em São Paulo.

Entre cerca de 500 inscrições na categoria média propriedade, Maria Lúcia ficou em segundo lugar.

O projeto da Fazenda São Tomaz foi descrito pela organização do prêmio como caso de referência em práticas integradas.

A visibilidade ampliou a rede de contatos da produtora.

Ela passou a integrar grupos de mentoria e eventos técnicos promovidos por entidades do setor.

Em encontros com outras gestoras, compartilha protocolos de rotação, estratégias de financiamento e rotinas de monitoramento.

Hoje, aos 27 anos, Maria Lúcia coordena uma equipe de cerca de uma dúzia de funcionários e consultores.

Agrônomos utilizam drones para mapear vigor das pastagens e planejar reformas.

A diversificação inclui faixas de apicultura e produção de mel em pequena escala.

Há também uma área de compostagem que transforma esterco em fertilizante orgânico.

A propriedade investe ainda em irrigação por pivô central para reforçar segurança hídrica.

Papel da nova geração e futuro dos sistemas integrados

O caso da Fazenda São Tomaz se insere em um movimento mais amplo de adoção de sistemas integrados e permanência de jovens no campo.

Estudos sobre ILPF indicam expansão contínua da área integrada no país.

Dados oficiais mostram saída expressiva de jovens de áreas rurais.

Iniciativas de protagonismo feminino, como o Prêmio Mulheres do Agro, linhas de crédito específicas e assistência técnica, buscam alterar esse cenário.

Em um contexto de mudanças climáticas e demanda crescente por rastreabilidade, sistemas como o ILPF são apontados por especialistas e entidades como alternativas que associam recuperação de áreas, produtividade e menor emissão de gases de efeito estufa.

Até que ponto histórias como a de Maria Lúcia podem influenciar decisões de outras famílias rurais sobre sucessão e manutenção de propriedades?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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