Tecnologia brasileira transforma resíduos agrícolas em ingrediente vegetal com aroma de carne e valor nutricional ampliado, usando fermentação com fungos amazônicos sem solventes químicos e com potencial para revolucionar alimentos plant-based e a indústria sustentável.
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas desenvolveram uma tecnologia que transforma resíduos agrícolas, como cascas de batata, aveia e subprodutos do açaí, em um ingrediente vegetal com aroma que remete à carne cozida.
O material, obtido com fungos originários da Amazônia, pode ser incorporado diretamente a alimentos na forma de pasta ou farinha e já teve pedido de patente depositado com apoio da Inova Unicamp.
A pesquisa foi conduzida na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp em colaboração com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e o Good Food Institute Brasil.
-
Aspirador importado de mais de R$ 3 mil mira tapetes com pelos de cachorro, limpeza profunda e odores de pets enquanto modelo Shark chama atenção em casas com carpetes, manchas difíceis e rotina intensa de animais domésticos no Brasil urbano
-
Portugal testa um grafeno tão discreto que pode fazer um caça F-16 parecer apenas um pássaro no radar e agora quer transformar o material em tinta para drones e aeronaves militares
-
Cientistas descobrem por que o ouro não perde o brilho tão fácil
-
Japão abre os cofres, reúne gigantes como SoftBank e Sony e prepara quase US$ 6 bilhões para criar sua própria inteligência artificial e colocar 10 milhões de robôs em fábricas, hospitais, restaurantes e outros setores até 2040
O trabalho nasceu de uma demanda por ingredientes capazes de melhorar aroma, sabor e desempenho de produtos vegetais inspirados na carne, mas acabou abrindo uma frente mais ampla de aproveitamento de resíduos agroindustriais.
Aroma de carne em alimentos vegetais
Nos testes iniciais, os pesquisadores combinaram diferentes fungos amazônicos com substratos vegetais sólidos e encontraram, em algumas fermentações, um aroma intenso semelhante ao de maracujá.
A mudança apareceu depois do aquecimento do produto fermentado, quando o cheiro frutado passou a lembrar caldo ou carne cozida, resultado que chamou a atenção da equipe por seu potencial de uso na formulação de alimentos vegetais.
Em relato divulgado pela Unicamp, o professor Juliano Lemos Bicas afirmou que os ensaios avançaram a partir da observação desse comportamento aromático.
Segundo ele, a equipe testou diferentes fungos e substratos até identificar o cheiro de maracujá e, como o aroma de carne costuma surgir durante o cozimento, decidiu aplicar calor ao material, momento em que ocorreu a conversão sensorial para uma nota associada à carne cozida.
Fermentação sem solventes e com menor impacto ambiental

O processo utiliza fermentação em estado sólido, modelo em que o microrganismo cresce diretamente sobre o resíduo vegetal sem exigir grandes volumes de água nem o uso de solventes químicos.
Essa característica reduz etapas industriais, diminui a necessidade de purificação e permite que o ingrediente fermentado siga para a formulação do alimento sem passar por uma extração isolada do aroma.
Na prática, a proposta se distancia da lógica mais comum da indústria de aromas, que costuma depender de grandes quantidades de matéria-prima para obter pequenas frações aromáticas concentradas.
Nesse caso, a própria matriz fermentada passa a funcionar como ingrediente, o que, segundo os pesquisadores, amplia a eficiência do aproveitamento dos resíduos e aproxima a tecnologia de processos já consolidados em alimentos fermentados tradicionais.
Bicas compara essa aplicação ao uso de ingredientes fermentados em produtos já conhecidos do consumidor, como ocorre com certos queijos, vinhos e outros alimentos obtidos por ação microbiana.
Na avaliação apresentada pela equipe, a vantagem está em incorporar ao produto final um ingrediente funcional e aromático ao mesmo tempo, em vez de separar, purificar e depois reintroduzir apenas parte dos compostos gerados ao longo da fermentação.
Aumento de proteínas e presença de vitamina D
Além do efeito sensorial, os experimentos indicaram ganho nutricional no material fermentado.
De acordo com o professor Mário Roberto Maróstica Junior, o crescimento do fungo sobre o substrato enriquece a matriz, eleva o teor de proteínas, altera o perfil de aminoácidos e favorece a formação de compostos bioativos, entre eles o ergosterol, precursor da vitamina D.
O pesquisador também informou que o processo reduz antinutrientes, substâncias que podem dificultar a absorção de vitaminas e proteínas pelo organismo.
Com isso, resíduos de baixo valor inicial passam a ter aplicação mais nobre na indústria de alimentos, especialmente em categorias que buscam combinar apelo nutricional, reaproveitamento de matéria-prima e formulações com menos etapas de processamento.
A equipe ainda observou propriedades tecnológicas relevantes para o desenvolvimento de novos produtos, como retenção de água e capacidade de emulsificação, fatores importantes para textura e estabilidade.
Essas características ampliam o leque de aplicações para além dos análogos cárneos e podem incluir pães, snacks e outros alimentos processados que dependem de ingredientes com função estrutural, sensorial e nutricional ao mesmo tempo.
Patente e potencial de uso na indústria alimentícia
Segundo a Unicamp, a tecnologia já entrou na fase de proteção intelectual por meio de um pedido de patente depositado e agora depende de parcerias para licenciamento, desenvolvimento complementar e produção em escala.
Participaram da pesquisa, além de Bicas e Maróstica Junior, a docente Liliana de Oliveira Rocha, o pós-graduando Gustavo Aparecido Martins e as pesquisadoras do Inpa Ceci Sales-Campos, Larissa Ramos Chevreuil e Maria Aparecida de Jesus.
O avanço dialoga com uma agenda mais ampla da indústria de alimentos, que busca ingredientes de origem rastreável, menor impacto ambiental e maior aproveitamento de subprodutos.
Nesse cenário, a combinação entre fungos amazônicos, fermentação sólida e resíduos agrícolas coloca a pesquisa brasileira em uma frente de inovação que une aroma, funcionalidade e enriquecimento nutricional em um mesmo ingrediente.
