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Cientistas encontram 332 cânions submarinos gigantescos com até 4.000 metros sob o gelo da Antártida e isso muda tudo

Publicado em 31/12/2025 às 09:07
Atualizado em 31/12/2025 às 09:18
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Imagem: Ilustração artística / IA
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Pesquisa internacional mapeia fundo marinho antártico, identifica cânions com até 4.000 metros, explica diferenças geológicas regionais e mostra como relevo submarino influencia correntes oceânicas, derretimento do gelo e modelos climáticos

A Antártida, tradicionalmente associada a gelo e isolamento, teve seu fundo marinho revelado por um estudo recente que identificou centenas de cânions submarinos profundos, estruturas que conectam o gelo ao oceano profundo e influenciam diretamente o sistema climático global.

O trabalho foi publicado na revista Marine Geology e conduzido por David Amblàs, da Universidade de Barcelona, e Riccardo Arosio, do University College Cork.

A pesquisa mapeou 332 sistemas de cânions submarinos distribuídos ao redor do continente antártico.

Esse número é muito superior às estimativas anteriores e indica que o relevo submerso da Antártida é significativamente mais complexo do que se imaginava até agora pelos cientistas.

Alguns desses cânions ultrapassam 4.000 metros de profundidade, alcançando dimensões comparáveis às maiores formações oceânicas já conhecidas em outras regiões do planeta.

O avanço foi possível com o uso do IBCSO v2, o International Bathymetric Chart of the Southern Ocean, considerado o modelo batimétrico mais detalhado já produzido para áreas ao sul do paralelo 50°S.

O modelo possui resolução de 500 por 500 metros, permitindo identificar feições que antes apareciam distorcidas, incompletas ou simplesmente invisíveis em mapas mais antigos.

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Contrastes marcantes entre Antártida Oriental e Ocidental

A análise revelou diferenças claras entre duas grandes regiões do continente. Na Antártida Oriental, predominam cânions longos, extensos, ramificados e com encostas suaves ao longo do relevo submarino.

Essa morfologia é compatível com uma atividade geleira antiga e prolongada, capaz de esculpir o fundo marinho por milhões de anos e transportar grandes volumes de sedimentos.

Já na Antártida Ocidental, os cânions identificados são mais curtos, com declives acentuados e formatos simples, sugerindo um desenvolvimento geológico mais recente e dinâmico.

Essas diferenças reforçam uma hipótese discutida anteriormente com base em registros sedimentares, indicando maior antiguidade e estabilidade da camada de gelo oriental em relação à ocidental.

Agora, essa distinção aparece registrada diretamente na geomorfologia do fundo do mar, oferecendo uma nova linha de evidência sobre a evolução do continente.

Cânions como corredores entre gelo e oceano profundo

Mais do que estruturas geológicas, os cânions submarinos funcionam como corredores naturais entre a plataforma continental e o oceano profundo, facilitando fluxos essenciais ao sistema terrestre.

Por meio deles ocorre o transporte eficiente de sedimentos, nutrientes e massas de água que desempenham papel central na dinâmica oceânica e climática global.

Um processo-chave associado a essas estruturas é a formação da Água de Fundo Antártica, considerada uma das massas de água mais frias e densas do planeta.

Essa água se espalha pelos oceanos globais e integra a chamada esteira transportadora oceânica, responsável por redistribuir calor e influenciar o clima em escala planetária.

Sem a presença desses cânions, o intercâmbio entre águas rasas e profundas seria significativamente menos eficiente, afetando a circulação oceânica global.

Relevo submarino e o derretimento do gelo

Os autores também destacam que a topografia do fundo do mar pode canalizar a entrada de águas relativamente mais quentes em direção às bases das plataformas de gelo.

Correntes como a Circumpolar Deep Water podem alcançar áreas sensíveis, dependendo da presença de cânions profundos ou limiares submersos ao longo do relevo.

Em regiões vulneráveis, como o entorno do mar de Amundsen, esse processo pode intensificar o derretimento basal das geleiras e enfraquecer estruturas que sustentam o gelo continental.

Pequenas variações topográficas, como um cânion mais profundo ou um desnível específico, podem ter impactos desproporcionais no contato entre água quente e gelo.

Implicações para modelos climáticos

O estudo aponta uma limitação relevante dos modelos climáticos e oceanográficos atuais, que frequentemente simplificam ou representam mal a topografia submarina.

Sem mapas detalhados, essas simulações deixam de capturar mecanismos fundamentais de circulação oceânica, comprometendo projeções climáticas mais precisas.

Por isso, os autores defendem a ampliação do mapeamento batimétrico de alta resolução em áreas ainda pouco exploradas do oceano antártico.

Atualmente, mesmo com avanços tecnológicos, apenas uma fração do fundo oceânico global foi cartografada com esse nível de detalhe.

A identificação dos 332 cânions reforça a constatação de que vastas áreas do planeta permanecem pouco conhecidas, apesar de sua importância climática.

Sob o gelo da Antártida, o relevo marinho guarda pistas sobre o passado geológico, o funcionamento climático atual e possíveis cenários futuros do nível do mar.

Mapear essas estruturas representa um passo essencial para compreender como o sistema terrestre responde às transformações em curso em um mundo em aquecimento acelerado.

Com informações de Gizmodo.

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Romário Pereira de Carvalho

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