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Cientistas criam um ‘Google Earth’ do corpo humano, escaneando órgãos inteiros em 3D com raio X de síncrotron e permitindo dar zoom até estruturas celulares sem cortar o tecido 

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Escrito por Ana Alice Publicado em 07/05/2026 às 23:59
Assista o vídeoAtlas 3D mostra órgãos humanos inteiros com raio X de síncrotron e permite ampliar estruturas internas sem cortar tecidos. (Imagem: Ilustrativa)
Atlas 3D mostra órgãos humanos inteiros com raio X de síncrotron e permite ampliar estruturas internas sem cortar tecidos. (Imagem: Ilustrativa)
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Atlas digital permite navegar por órgãos humanos em 3D, aproximar estruturas internas e observar detalhes microscópicos sem cortar tecidos, em uma plataforma aberta criada para pesquisa científica, ensino médico e estudos sobre doenças complexas.

Um atlas digital aberto permite observar órgãos humanos inteiros em três dimensões, navegar por estruturas internas e ampliar a imagem até detalhes próximos ao nível celular sem cortar o tecido.

A plataforma, chamada Human Organ Atlas, foi desenvolvida por um consórcio internacional liderado por cientistas do University College London, com tecnologia de imagem baseada em raios X de síncrotron no European Synchrotron Radiation Facility, em Grenoble, na França.

A comparação com um “Google Earth” do corpo humano aparece na divulgação do projeto porque a ferramenta permite partir da visão ampla de um órgão completo e avançar para regiões específicas em diferentes escalas.

Na prática, o sistema aproxima a radiologia, usada para visualizar órgãos inteiros, da histologia, que tradicionalmente depende de cortes finos de tecido analisados ao microscópio.

O atlas foi descrito em artigo publicado na revista Science Advances em 2026.

De acordo com os autores, a base reúne imagens tridimensionais multiescala de órgãos humanos e foi criada para apoiar pesquisa biomédica, ensino de anatomia, desenvolvimento de ferramentas computacionais e estudos sobre doenças que afetam diferentes sistemas do corpo.

Como funciona o atlas 3D do corpo humano

A tecnologia usada na plataforma é a Hierarchical Phase-Contrast Tomography, conhecida pela sigla HiP-CT.

Diferentemente de uma tomografia feita em ambiente hospitalar, o método utiliza feixes de raios X produzidos por um síncrotron, equipamento que acelera partículas para gerar radiação de alta intensidade aplicada à análise de materiais e tecidos.

Segundo o University College London, a fonte usada no ESRF pode ser até 100 bilhões de vezes mais brilhante que a de tomógrafos hospitalares convencionais.

Com isso, os pesquisadores conseguem escanear órgãos doados de forma não destrutiva e produzir imagens com resolução de 8 a 20 micrômetros em órgãos inteiros, além de ampliar regiões de interesse até cerca de 1 micrômetro.

O procedimento mantém a amostra preservada.

Em vez de fatiar o material biológico logo no início da análise, a equipe mapeia a arquitetura completa do órgão e identifica áreas que podem ser examinadas em maior detalhe.

Esse processo permite acompanhar vasos, cavidades, tecidos e alterações estruturais em uma mesma reconstrução tridimensional.

Para pesquisadores da área biomédica, esse tipo de imagem ajuda a estudar doenças que não se limitam a um ponto isolado.

Alterações vasculares, inflamatórias ou tumorais podem aparecer em diferentes regiões de um órgão ou envolver mais de um sistema, o que torna relevante observar a disposição espacial dessas estruturas.

O que já pode ser visto no Human Organ Atlas

A versão atual divulgada pela UCL reúne dados de 62 órgãos, com 319 conjuntos tridimensionais completos, obtidos a partir de 29 doadores.

O acervo cobre 12 tipos de órgãos e tecidos, entre eles cérebro, coração, pulmão, rim, fígado, cólon, olho, baço, placenta, útero, próstata e testículo.

Esses números substituem levantamentos anteriores, publicados durante a fase de desenvolvimento da plataforma, quando a base continha menos amostras.

Como o Human Organ Atlas continua sendo atualizado, a quantidade de órgãos, doadores e conjuntos de dados pode variar conforme novos materiais são preparados e disponibilizados ao público.

O volume de dados mostra a complexidade técnica do projeto.

Cada conjunto pode ocupar centenas de gigabytes ou ultrapassar um terabyte, e o maior arquivo citado pela UCL, referente a um cérebro, chega a 14 terabytes.

Para permitir a navegação pela internet, a equipe desenvolveu uma infraestrutura capaz de exibir imagens interativas pelo navegador, sem exigir programas especializados do usuário.

A plataforma oferece visualização online, dados em múltiplas resoluções, tutoriais e ferramentas de análise.

O conteúdo é voltado a pesquisadores, médicos, educadores, estudantes e pessoas interessadas em conhecer a organização interna de órgãos humanos reais.

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Por que a imagem 3D pode ajudar no estudo de doenças

O desenvolvimento do atlas ganhou impulso durante pesquisas relacionadas à covid-19.

De acordo com a UCL, a técnica HiP-CT já foi usada em estudos que identificaram lesões microscópicas em vasos sanguíneos de pulmões de pessoas que morreram pela doença.

A mesma abordagem também aparece em pesquisas sobre alterações cardíacas e distúrbios ginecológicos.

Em doenças como câncer, hipertensão, diabetes, fibrose pulmonar e enfermidades cardiovasculares, cientistas investigam não apenas a presença de lesões, mas também a forma como elas se distribuem nos tecidos.

A análise de órgãos inteiros em 3D pode contribuir para esse tipo de estudo porque mantém a relação espacial entre estruturas que, em cortes microscópicos convencionais, podem aparecer separadas.

No caso do câncer, exames clínicos costumam detectar lesões maiores, enquanto a histologia examina fragmentos específicos de tecido.

A HiP-CT ocupa uma faixa intermediária de análise: permite rastrear áreas extensas em alta resolução e, depois, ampliar regiões selecionadas para observação mais detalhada.

Essa possibilidade foi descrita pelos pesquisadores como uma das aplicações da técnica em investigação biomédica.

Claire Walsh, pesquisadora do University College London e diretora do Human Organ Atlas Hub, afirmou em material institucional que a plataforma foi pensada para tornar os dados acessíveis e apoiar novas formas de estudar a fisiologia humana.

A equipe também considera que a base pode ser usada por grupos que desenvolvem modelos de inteligência artificial aplicados à medicina, desde que os resultados sejam testados e validados em pesquisa.

Ciência aberta e novas referências para a anatomia humana

O projeto reúne nove instituições da Europa e dos Estados Unidos, com participação de pesquisadores, engenheiros, médicos e especialistas em infraestrutura digital.

Peter Lee, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da UCL e investigador principal do tempo de uso do feixe de síncrotron ligado ao atlas, afirmou que a colaboração tem apoiado estudos sobre doenças como osteoartrite e problemas cardíacos.

A proposta de acesso aberto ocupa papel central no projeto.

Paul Tafforeau, cientista do ESRF e um dos pioneiros da técnica usada para criar o atlas, declarou que a intenção inicial era tornar os dados acessíveis a diferentes públicos e construir uma infraestrutura científica compartilhada em escala global.

No ensino médico, a ferramenta oferece uma forma de visualizar órgãos reais em três dimensões.

Em vez de observar apenas ilustrações, modelos físicos ou cortes isolados, estudantes podem navegar por reconstruções digitais e acompanhar a posição de vasos, cavidades e tecidos em diferentes profundidades.

O acervo também pode servir como referência para sistemas de inteligência artificial voltados à análise de imagens médicas.

Bases tridimensionais abertas, padronizadas e com alta resolução ainda são limitadas, segundo a divulgação do projeto, o que torna o Human Organ Atlas uma fonte de dados para tarefas como segmentação, detecção de padrões e reconstrução de imagens.

Limites do atlas digital de órgãos humanos

O atlas não representa toda a diversidade anatômica da população.

Como os órgãos vêm de doadores, há variações de idade, sexo biológico, histórico clínico e disponibilidade de amostras.

Os responsáveis pelo projeto afirmam que a coleção deve crescer com novos órgãos, mais amostras e ferramentas adicionais ao longo dos próximos anos.

Também não se trata de um exame para diagnóstico individual.

As imagens são obtidas de órgãos doados e analisados fora do corpo, em condições de laboratório.

A aplicação principal, segundo os autores, está na pesquisa, no ensino e na criação de referências anatômicas que possam ser consultadas por diferentes grupos científicos.

Outra limitação está na escala.

No estágio atual, o trabalho se concentra em órgãos isolados, embora os pesquisadores tenham relatado a intenção de desenvolver a técnica para produzir imagens de corpos humanos completos com resolução de 10 a 20 vezes maior que a obtida atualmente.

Ao reunir órgãos completos, imagens ampliáveis e dados de acesso aberto, o Human Organ Atlas cria uma forma de observação que ainda não faz parte da rotina médica, mas já integra pesquisas em anatomia, doenças vasculares, câncer, fibrose, covid-19 e inteligência artificial.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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