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Cientista ganha cerca de R$ 500 mil após “traduzir” 11 cantos desse passarinho e mostrar que ele não emite apenas sons aleatórios, mas avisa quem é, o que faz e até reconhece outros pelo som

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Escrito por Geovane Souza Publicado em 01/07/2026 às 09:44 Atualizado em 01/07/2026 às 09:47
Cientista recebe cerca de R$ 500 mil por pesquisa que identificou 11 vocalizações usadas por mandarins para comunicação entre aves
Cientista recebe cerca de R$ 500 mil por pesquisa que identificou 11 vocalizações usadas por mandarins para comunicação entre aves
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A pesquisa premiada mostra que os tentilhões-zebra, conhecidos no Brasil como mandarins, não emitem sons aleatórios. As aves usam chamados diferentes para indicar identidade, contato, fome, perigo, corte e conflito. O achado aproxima a ciência de uma pergunta antiga, até onde humanos podem entender a comunicação de outras espécies sem transformar comportamento animal em fantasia.

A pesquisadora Julie Elie, da Universidade da Califórnia em Berkeley, recebeu o prêmio Coller-Dolittle de 2026 após identificar 11 vocalizações centrais dos tentilhões-zebra e mostrar que esses sons carregam informações reconhecidas pelas próprias aves.

O valor da premiação foi de US$ 100 mil, cerca de R$ 500 mil na conversão usada pela reportagem. O reconhecimento veio por um trabalho de mais de uma década, que combinou observação, gravações, testes com aves e aprendizado de máquina.

Segundo o The Guardian, Elie mostrou que os pássaros não apenas emitem chamados diferentes, mas também conseguem reconhecer quem está vocalizando e o que aquela vocalização significa em cada contexto.

A descoberta não permite dizer que humanos já podem “conversar” com animais, mas coloca a pesquisa em comunicação entre espécies em outro patamar.

O pássaro estudado é pequeno, vive em grupo e produz dados em quantidade

O tentilhão-zebra, chamado popularmente de mandarim no Brasil, é uma ave pequena, comum em estudos de vocalização. A escolha não foi casual. Esses pássaros são sociais, barulhentos e usam sons em várias situações do dia a dia.

Pequeno, sociável e barulhento, mandarim vira espécie-chave para entender como aves trocam informações em grupo
Pequeno, sociável e barulhento, mandarim vira espécie-chave para entender como aves trocam informações em grupo.

A Universidade da Califórnia em Berkeley informa que os mandarins vivem em grupos vocais e formam pares duradouros. Machos jovens também aprendem cantos de acasalamento de forma comparada, em alguns estudos, ao aprendizado vocal humano, o que tornou a espécie um modelo usado há décadas em pesquisas sobre cérebro, som e comportamento.

Esse detalhe muda o peso da descoberta. A pesquisa não se limitou ao canto bonito do macho, comum nos estudos com aves. Elie se concentrou nos chamados curtos, repetidos e menos chamativos, aqueles usados para contato, alerta, aproximação, disputa e outras interações sociais.

Mais de 8 mil sons ajudaram a montar um mapa das vocalizações

O estudo publicado na revista Science em 18 de setembro de 2025 descreve que os tentilhões-zebra usam cerca de 11 tipos de chamados ligados a fome, perigo, conflito social, contato e vínculo entre indivíduos. O artigo aparece indexado no PubMed com o DOI 10.1126/science.ads8482.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores reuniram milhares de vocalizações de dezenas de aves. Não bastava gravar o som. Era preciso registrar o que o animal fazia antes, durante e depois do chamado.

A partir daí, cada vocalização foi comparada com o contexto. Um som podia aparecer quando a ave buscava contato. Outro surgia em situação de alarme. Outro estava ligado a fome, corte, agressividade ou vínculo com o parceiro.

O aprendizado de máquina entrou para ajudar a lidar com a quantidade de dados. Os algoritmos permitiram procurar padrões acústicos e separar diferenças que o ouvido humano dificilmente classificaria com precisão.

O teste mais forte veio quando as aves responderam aos próprios chamados

A parte mais relevante da pesquisa não foi apenas montar uma lista de sons. O ponto central foi testar se os próprios mandarins reconheciam essas categorias.

Nos experimentos, as aves ouviam diferentes vocalizações e podiam interromper sons que não levavam a recompensa. Quando acertavam o chamado associado ao prêmio, recebiam sementes. Com o tempo, aprenderam a separar os tipos de sons.

O resultado chamou atenção porque os erros não seguiram apenas a semelhança acústica. Em muitos casos, os pássaros confundiam chamados com sentidos próximos, mesmo quando os sons eram diferentes.

Esse padrão sugere algo mais complexo do que reflexo. As aves pareciam organizar os chamados por significado, não apenas por ruído. Para a ciência, essa diferença é grande. Um animal reagir a um som é uma coisa. Mostrar sinais de que separa sons por função social é outra.

O prêmio mira comunicação entre espécies, mas ainda há um limite claro

O Coller-Dolittle Prize foi criado pela Fundação Jeremy Coller em parceria com a Universidade de Tel Aviv para reconhecer avanços na comunicação entre humanos e outros organismos. A página oficial informa que o prêmio anual é de US$ 100 mil e que o desafio maior prevê US$ 10 milhões em investimento ou US$ 500 mil em dinheiro para uma solução mais ampla de comunicação entre espécies.

Esse detalhe é importante porque a pesquisa de Julie Elie não entrega um tradutor universal de animais. O trabalho mostra um método rigoroso para associar vocalizações, contexto e respostas comportamentais em uma espécie específica.

Também não significa que os pássaros falam como humanos. O que a pesquisa indica é que algumas vocalizações carregam categorias reconhecíveis pelas aves. A diferença é sutil, mas decisiva para evitar exageros.

A Scientific American destacou que Elie conseguiu validar parte da interpretação “perguntando” aos próprios pássaros, por meio de testes de discriminação e recompensa. Essa etapa é o que separa a descoberta de uma simples suposição feita a partir de gravações.

A inteligência artificial acelerou o processo, mas não substituiu anos de observação

A IA aparece na pesquisa como ferramenta de análise, não como atalho mágico. O trabalho exigiu anos de escuta, catalogação e comparação com comportamento real das aves.

Sem os registros de campo e de laboratório, o algoritmo teria apenas sons soltos. A força do estudo está justamente na combinação entre biologia comportamental, neurociência, estatística e testes controlados.

Esse caminho também explica por que falar em “traduzir animais” ainda exige cuidado. Para avançar, os cientistas precisam provar que o som tem função, que outros animais reconhecem essa função e que a resposta não é apenas automática.

Mesmo assim, o estudo com os mandarins mostra uma direção concreta. Em vez de tentar adivinhar emoções humanas nos animais, os pesquisadores analisaram padrões, testaram hipóteses e deixaram as próprias aves indicar se a classificação fazia sentido.

O que essa descoberta pode mudar nas próximas pesquisas

O avanço pode influenciar estudos com outras espécies vocais, como corvos, papagaios, golfinhos, morcegos, primatas e roedores. Cada grupo tem sons, contextos e limites próprios, mas a lógica experimental pode ser reaproveitada.

A pesquisa também ajuda a discutir bem-estar animal. Se cientistas conseguem identificar sinais de medo, fome, contato, estresse ou vínculo social com mais precisão, criadores, laboratórios, zoológicos e centros de conservação podem ter ferramentas melhores para interpretar comportamento.

O caminho ainda é longo. A comunicação bidirecional exigiria que humanos emitissem sinais compreensíveis para os animais e recebessem respostas consistentes em contextos variados. Hoje, o estudo dos mandarins mostra uma peça desse quebra-cabeça, não o quadro completo.

Se um pássaro de poucos gramas consegue organizar sons por significado, quantas mensagens de outras espécies ainda passam despercebidas todos os dias? Deixe seu comentário e diga se você acredita que a ciência vai conseguir criar um tradutor real para animais nos próximos anos.

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Geovane Souza

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