A cientista brasileira Lívia Eberlin desenvolveu uma caneta que detecta células de câncer em tempo real durante cirurgias, usando apenas uma gota de água e inteligência artificial para analisar o perfil molecular do tecido em segundos a tecnologia já foi testada em mais de 400 cirurgias em seis hospitais dos Estados Unidos, incluindo o MD Anderson, e agora é experimentada no Einstein e na Unicamp no Brasil.
Uma cientista brasileira criou algo que a medicina oncológica buscava há décadas: um dispositivo portátil capaz de identificar células de câncer em segundos, durante a própria cirurgia, sem precisar retirar tecido e enviar para laboratório. A caneta desenvolvida por Lívia Eberlin toca no tecido humano, libera uma gota de água que extrai moléculas da superfície e, com auxílio de inteligência artificial, informa ao cirurgião em tempo real se o que está à frente é tecido saudável ou tumoral. A invenção já foi usada em mais de 400 cirurgias nos Estados Unidos e agora é testada em hospitais brasileiros.
O caminho até aqui não foi fácil. Lívia enfrentou anos de subestimação por ser mulher, brasileira e latina em um ambiente dominado por homens. Trabalhou em laboratórios sem janela, ouviu que sua ideia era simples demais para funcionar e passou por exaustão criando três filhos enquanto desenvolvia a tecnologia. Mas a caneta funcionou. E hoje, o maior centro de pesquisa e tratamento de câncer do mundo o MD Anderson Cancer Center, em Houston já a utiliza em cirurgias reais, junto com outros cinco hospitais americanos.
Como funciona a caneta que detecta câncer em segundos
O dispositivo parece uma esferográfica comum. Lívia Eberlin costuma brincar: “Não é uma caneta que escreve, é uma caneta que lê.” O cirurgião segura a caneta, toca a ponta no tecido que precisa ser avaliado e aciona o mecanismo com um pedal. Uma gota de água é liberada na ponta, entra em contato com o tecido e extrai as moléculas presentes na superfície.
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A analogia que a cientista brasileira usa é direta: da mesma forma que usamos água quente para extrair moléculas do café moído, a caneta usa uma gota de água para extrair moléculas do tecido humano. Essas moléculas são analisadas instantaneamente por um espectrômetro de massas acoplado ao sistema, que gera um perfil molecular do tecido em frações de segundo.
É aí que entra a inteligência artificial. Algoritmos treinados com dados de centenas de cirurgias anteriores comparam o perfil molecular obtido com padrões conhecidos de tecidos normais e tumorais. O resultado aparece em tempo real: câncer ou normal.
O processo inteiro do toque no tecido à resposta na tela leva segundos. Para o cirurgião, isso significa tomar decisões durante a operação com uma precisão que antes só era possível dias depois, quando chegava o resultado do laboratório de patologia.
A cientista brasileira que enfrentou preconceito para revolucionar a oncologia

Lívia Eberlin cresceu frequentando o laboratório do pai, professor na Unicamp. A ciência sempre foi ambiente familiar para ela literalmente. Mas quando se mudou para os Estados Unidos para fazer carreira acadêmica, encontrou uma realidade muito diferente. O inverno americano era frio, as pessoas também, e ser mulher, brasileira e latina em departamentos dominados por homens trouxe desafios que iam além da ciência.
Em Stanford, onde lecionou, Lívia olhava para a parede de fotos dos professores e via apenas homens. “Será que eu pertenço ou será que eu não pertenço?”, lembra ter pensado. Em um jantar acadêmico, um professor fez piadas sobre mulheres brasileiras relacionadas à aparência e ao corpo. A cientista brasileira se sentiu desconfortável mas sua resposta ao preconceito foi consistente: tirar as melhores notas, fazer o melhor trabalho, produzir resultados que falassem mais alto que qualquer estereótipo.
A exaustão foi constante. Lívia teve três filhos em sequência rápida hoje com 11, 10 e 8 anos enquanto desenvolvia a caneta, dava aulas e conduzia pesquisas. Colocava as crianças para dormir e voltava a trabalhar: revisar dados, responder e-mails, preparar aulas. A persistência não era opcional era o único caminho para transformar uma ideia que muitos achavam simples demais em uma tecnologia que hoje salva vidas.
De protótipos impressos em 3D a mais de 400 cirurgias reais
O desenvolvimento da caneta passou por dezenas de protótipos. A cientista brasileira e sua equipe usaram impressoras 3D para fabricar versões cada vez mais refinadas do dispositivo, testando cada uma em tecidos congelados de diferentes tipos de câncer.
“Vamos no freezer, vamos pegar todos os tecidos que a gente tem e ver se funciona para câncer de mama, de pulmão, de ovário, de tireoide”, lembra Lívia sobre o momento em que decidiram testar a caneta de forma abrangente.
No começo, conseguir financiamento foi difícil. Muitos investidores e revisores achavam que a ideia não funcionaria ou que era simples demais para ter impacto real.
A virada aconteceu quando os dados começaram a se acumular e a provar que a caneta realmente distinguia tecido saudável de tumoral com alta precisão. As publicações em revistas científicas importantes validaram a tecnologia e abriram portas.
Hoje, a caneta já foi usada em mais de 400 cirurgias nos Estados Unidos, em seis hospitais. Os tipos de câncer testados incluem mama, pulmão, cérebro, ovário e pâncreas. O MD Anderson Cancer Center considerado o mais importante centro de pesquisa e tratamento de câncer do mundo já utilizou o dispositivo em mais de 70 pacientes.
O Dr. Sudhakar Reddy, da equipe do MD Anderson, afirmou que a caneta representa “um avanço importante na forma como planejamos cirurgias complexas e difíceis”.
A caneta chega ao Brasil: testes no Einstein e na Unicamp
O primeiro país a testar a caneta fora dos Estados Unidos é o Brasil a terra natal da cientista brasileira que a inventou. O Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, já utiliza o dispositivo em caráter experimental em cirurgias de câncer de tireoide e de pulmão.
Cerca de 30 cirurgias já foram realizadas com resultados que a equipe médica classifica como “muito promissores”.
Na Unicamp a mesma universidade onde o pai de Lívia trabalhava e onde ela corria pelos corredores olhando pôsteres científicos quando criança médicos estão testando a caneta para diagnóstico de câncer de boca.
O ciclo se fecha de forma simbólica: a tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos por uma cientista brasileira volta ao Brasil para ser aplicada na instituição onde tudo começou.
A expectativa é que, após a conclusão dos testes e a obtenção de aprovação regulatória, a caneta possa ser adotada em hospitais brasileiros de forma ampla.
Para pacientes de câncer no Brasil, isso significaria diagnósticos mais rápidos durante cirurgias, menos necessidade de reoperações e maior precisão na remoção de tumores avanços que podem impactar diretamente as taxas de sobrevivência.
Por que a caneta pode mudar o padrão das cirurgias de câncer no mundo
O problema que a caneta resolve é antigo e grave. Durante uma cirurgia de remoção de tumor, o cirurgião precisa decidir em tempo real até onde cortar. Se retira tecido de menos, células cancerosas podem ficar para trás e o câncer volta. Se retira de mais, destrói tecido saudável desnecessariamente.
O método tradicional enviar amostras para análise em laboratório de patologia pode levar de 20 minutos a vários dias, deixando o paciente na mesa de cirurgia ou exigindo uma segunda operação.
A caneta da cientista brasileira Lívia Eberlin elimina essa espera. Com resposta em segundos, o cirurgião sabe imediatamente se o tecido que está tocando é canceroso ou normal, ajustando o procedimento em tempo real.
Isso reduz a chance de margens positivas quando células tumorais são encontradas na borda do tecido removido, indicando que o câncer não foi completamente retirado.
A tecnologia também é útil após quimioterapia, ajudando a diferenciar células cancerosas residuais de cicatrizes deixadas pelo tratamento uma distinção que os métodos tradicionais têm dificuldade em fazer. Se a caneta for adotada em escala global, ela pode redefinir o padrão de cirurgias oncológicas, transformando uma gota de água e inteligência artificial na diferença entre um câncer removido com precisão e uma reoperação evitável.
Com informações do Canal do G1.
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