Erguida sobre recifes do Pacífico, Nan Madol reúne canais, plataformas artificiais e colunas de basalto que ainda desafiam pesquisadores a entender a logística usada por uma sociedade insular há séculos.
Nan Madol, no atual estado de Pohnpei, nos Estados Federados da Micronésia, é um complexo arqueológico construído sobre recifes de coral, com canais navegáveis, plataformas artificiais e paredes formadas por colunas de basalto e blocos de coral.
Associado à dinastia Saudeleur, o sítio teve sua arquitetura monumental desenvolvida principalmente a partir do fim do século XII e entre os séculos XIII e XVI, segundo pesquisas arqueológicas e registros da Unesco.
A expressão “cidade flutuante” se refere à forma como as estruturas foram implantadas em uma lagoa, sobre uma base natural de coral em área rasa.
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Em vez de ocupar apenas terra firme, a antiga capital cerimonial foi organizada em ilhotas artificiais separadas por canais, o que criou uma paisagem urbana diretamente ligada à água.
O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos descreve Nan Madol como a única cidade antiga ainda existente construída sobre um recife de coral.
Nan Madol: cidade de pedra sobre recifes de coral
O conjunto reunia áreas residenciais, espaços cerimoniais, tumbas, plataformas e estruturas de pedra ligadas ao exercício do poder político e religioso.
De acordo com a Unesco, Nan Madol foi inscrita como Patrimônio Mundial em 2016 por representar um centro cerimonial da Micronésia Oriental e por reunir estruturas megalíticas associadas à organização social e religiosa das sociedades insulares do Pacífico.
A contagem das ilhotas varia conforme o critério usado pelas fontes.
A Unesco registra mais de 100 ilhotas no conjunto, enquanto levantamentos arqueológicos citam números próximos de 92, 93 ou 95 plataformas artificiais no núcleo principal.
Essa diferença decorre da delimitação da área analisada e do estado de preservação das estruturas, não de uma alteração substancial na dimensão do sítio.
A função principal do complexo era política, religiosa e funerária.
Pesquisadores associam Nan Madol à concentração do poder dos chefes Saudeleur, que controlavam rituais, sepultamentos e atividades administrativas em uma área separada do restante de Pohnpei por canais, manguezais e trechos de água rasa.
A organização espacial também indica uma distância física entre a elite governante e a população comum, que vivia em outras áreas da ilha.
Essa separação tinha consequências práticas.
Estudos sobre o sítio indicam que Nan Madol não tinha condições adequadas para produção agrícola em larga escala nem fonte interna suficiente de água doce.
Por isso, alimentos e água precisavam ser levados de outras partes de Pohnpei, o que tornava a manutenção do centro dependente de uma rede regular de abastecimento e de coordenação de trabalho.
Peso das colunas de basalto em Nan Madol
A engenharia de Nan Madol é analisada por arqueólogos principalmente pela quantidade de material transportado e pela forma de empilhamento das pedras.
Uma estimativa do arqueólogo William Ayres, da Universidade de Oregon, aponta que entre 500 mil e 750 mil toneladas métricas de material de construção foram deslocadas de diferentes pontos até o sítio.
Assim, o número de 750 mil toneladas deve ser lido como o limite superior de uma estimativa, e não como uma medição única e fechada.
As colunas de basalto usadas nas plataformas e nas paredes tinham pesos variados.
Parte dos blocos podia pesar de meia tonelada a cinco toneladas, segundo levantamento do Japan Consortium for International Cooperation in Cultural Heritage citado em documentação técnica sobre o sítio.
Outros registros apontam a existência de peças ainda maiores em determinados pontos do complexo, o que mostra que a expressão “blocos de cinco toneladas” descreve apenas uma parte do material empregado.
O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos também informa que as peças variavam bastante em tamanho.
Algumas podiam ser carregadas por uma pessoa, enquanto pilares maiores chegavam a cerca de 100 mil libras, o equivalente a aproximadamente 45 toneladas.
Esses dados indicam que a logística de construção envolveu materiais de diferentes dimensões e técnicas de movimentação ainda estudadas pela arqueologia.
Origem das pedras usadas na antiga capital Saudeleur
A origem de parte das pedras é um dos pontos mais documentados pelas pesquisas recentes.
Um estudo publicado na revista Quaternary Research usou análise geoquímica por fluorescência de raios X portátil para comparar colunas arquitetônicas de Nan Madol com formações vulcânicas de Pohnpei.
A pesquisa identificou o plugue vulcânico de Pwisehn Malek, no lado oposto da ilha, como provável fonte de parte do basalto usado, especialmente em Nandauwas, área funerária de destaque dentro do complexo.
A datação por urânio-tório de corais utilizados na construção também ajudou a estabelecer uma cronologia mais precisa.
Segundo o mesmo estudo, a arquitetura monumental de Nan Madol já estava em curso por volta de 1180 a 1200, período compatível com a consolidação do poder Saudeleur em Pohnpei.
O método exato de transporte permanece sem comprovação definitiva.
Pesquisadores confirmam que parte das pedras veio de áreas distantes e que a operação exigiu planejamento, mão de obra e domínio do ambiente costeiro.
No entanto, não há registro arqueológico suficiente para afirmar, de forma categórica, se todo o deslocamento ocorreu por balsas, por arrasto terrestre, por canais, por mar aberto ou por uma combinação desses recursos.
Como as estruturas de Nan Madol foram erguidas
As paredes de Nan Madol foram construídas com colunas basálticas empilhadas em camadas cruzadas, técnica frequentemente descrita por pesquisadores como semelhante ao encaixe de troncos em estruturas de madeira.
A Unesco aponta a disposição de pedras colunares de basalto e o uso de plataformas de coral como características centrais do valor arqueológico do sítio.
A base natural de coral foi incorporada à construção.
Em vez de erguer a cidade sobre solo continental, os construtores aproveitaram o recife raso como suporte e criaram plataformas elevadas com preenchimento de coral e pedras.
Essa solução reduzia a necessidade de fundações profundas, mas dependia de conhecimento sobre marés, canais e estabilidade das bordas de contenção.
Nandauwas é uma das estruturas mais estudadas do complexo.
A área, associada a sepultamentos de elite, concentra paredes altas, câmaras internas e uso expressivo de colunas de basalto.
Para arqueólogos, a presença de material transportado de áreas distantes em um espaço funerário reforça a interpretação de que a construção também expressava autoridade política e religiosa.
Declínio de Nan Madol e queda dos Saudeleur
A queda da dinastia Saudeleur é associada, pela tradição oral de Pohnpei e por registros históricos, à ascensão de Isokelekel no século XVII.
O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos informa que, após a derrota dos Saudeleur, a importância de Nan Madol para os habitantes de Pohnpei diminuiu de forma gradual, até o abandono do sítio no século XVIII.
O abandono não é atribuído por especialistas a uma única causa.
A mudança de poder, a dependência de suprimentos externos, as dificuldades de abastecimento de água e alimentos dentro do complexo e alterações na organização política são fatores citados em análises sobre o processo.
A cidade, portanto, não deixou de funcionar de uma só vez; ela perdeu centralidade ao longo do tempo e passou a sofrer com vegetação, assoreamento e deterioração das estruturas.
Patrimônio Mundial em Perigo no Pacífico
Nan Madol foi inscrita pela Unesco em 2016 e, no mesmo ano, incluída na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo.
A entidade cita ameaças como assoreamento dos canais, crescimento descontrolado de manguezais e fragilidade das construções de pedra.
Documentos recentes apresentados ao Comitê do Patrimônio Mundial indicam que ações de manejo de vegetação, limpeza de canais e planejamento de conservação seguem em andamento.
Ao mesmo tempo, a Unesco ainda cobra medidas de longo prazo para enfrentar assoreamento, reparar muros de contenção, fortalecer a administração do sítio e preparar estratégias relacionadas a riscos climáticos.
Em decisão de 2025, o Comitê do Patrimônio Mundial manteve Nan Madol na lista de bens em perigo e pediu novo relatório sobre o estado de conservação.
A decisão também reforçou a necessidade de medidas de gestão, conservação estrutural, abertura do centro de visitantes e proteção contra ameaças ambientais.
Engenharia antiga e organização social no Pacífico
Para especialistas, Nan Madol é relevante por reunir evidências de navegação, organização de trabalho, uso de materiais locais, construção monumental e adaptação ao ambiente costeiro.
A ausência de metal, cimento moderno e maquinário não significa ausência de tecnologia; nesse caso, a técnica aparece vinculada ao conhecimento de marés, pedras, recifes, canais e mobilização de mão de obra.
A principal questão arqueológica não está apenas em saber como cada bloco foi deslocado, mas em compreender que tipo de organização social permitiu transportar, empilhar e manter milhares de toneladas de pedra sobre recifes durante gerações.

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