Matera reúne cavernas habitadas desde a pré-história, patrimônio da UNESCO e uma paisagem urbana formada por casas esculpidas na rocha
Uma cidade esculpida diretamente nas rochas calcárias do sul da Itália continua chamando atenção de historiadores, arqueólogos e turistas do mundo inteiro.
Localizada na região da Basilicata, a cidade de Matera ergue-se sobre o planalto da Murgia Materana, às margens das ravinas formadas pelo rio Gravina.
A posição geográfica singular, próxima à fronteira com a região da Puglia e a cerca de 60 quilômetros do Mar Adriático, ajudou a moldar uma ocupação humana contínua ao longo de milênios.
Segundo registros históricos e arqueológicos citados pela UNESCO, a região já era habitada desde o Paleolítico, consolidando Matera como um dos assentamentos humanos mais antigos ainda ocupados do planeta.
Com o passar dos séculos, sobretudo a partir do Neolítico, a presença humana tornou-se mais intensa.
Posteriormente, por volta do século VIII a.C., a expansão urbana ultrapassou antigas muralhas defensivas construídas na Era Romana, ampliando o núcleo urbano e integrando novas áreas ao território da cidade.
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Os Sassi de Matera revelam um dos centros urbanos mais antigos da humanidade
O núcleo histórico da cidade é conhecido como Sassi di Matera, expressão que significa “pedras de Matera”.
Esse conjunto arquitetônico foi reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO em 1993, devido à importância cultural e histórica do local.
Segundo a organização internacional, o conjunto representa um raro exemplo de ecossistema urbano vivo, capaz de registrar modos de vida que remontam à pré-história.
A área histórica divide-se principalmente em três setores distintos que organizam a estrutura urbana da cidade.
Entre eles estão o Sasso Caveoso, caracterizado por cavernas escavadas diretamente nas rochas, e o Sasso Barisano, onde estruturas adaptadas às cavernas formam bairros inteiros.
Além dessas áreas, existe a Civita, localizada no ponto mais alto da cidade e protegida pelas antigas muralhas romanas.
Arquitetura escavada na rocha cria um labirinto urbano único
As moradias mais antigas foram literalmente escavadas nas paredes calcárias, utilizando uma rocha chamada calcarenita, também conhecida como tufo.
Esse material relativamente macio permitiu a abertura de abrigos e ambientes habitáveis diretamente na montanha.
Ao longo dos séculos, porém, a cidade desenvolveu uma arquitetura extremamente singular.
Em diversos trechos, ruas passam sobre os telhados de casas escavadas, criando níveis urbanos sobrepostos que formam uma paisagem arquitetônica incomum.
Além disso, novas construções foram sendo erguidas sobre cavernas antigas, o que gerou um emaranhado urbano orgânico integrado ao relevo montanhoso.
Esse processo construtivo moldou um dos cenários urbanos mais peculiares da Europa.
Transformação social marcou o século XX em Matera
Apesar da importância histórica, a vida nos Sassi era considerada extremamente precária no início do século XX.
Relatos históricos apontam que a região enfrentava pobreza, falta de infraestrutura básica e condições sanitárias inadequadas.
Diante desse cenário, o governo italiano iniciou, durante a década de 1950, programas de transferência populacional para áreas mais desenvolvidas ao redor da cidade.
Essas iniciativas buscaram melhorar as condições de vida da população local.
Mais tarde, entre 1970 e 1980, projetos de restauração e preservação cultural começaram a recuperar as cavernas históricas.
Com isso, muitas dessas estruturas foram transformadas em residências restauradas, museus e espaços culturais.
A transformação em patrimônio histórico, reforçada pelo reconhecimento da UNESCO em 1993, impulsionou o turismo e consolidou Matera como um importante polo cultural.
Atualmente, hotéis, restaurantes e museus recebem visitantes interessados em conhecer esse cenário milenar.
Escavações arqueológicas revelam vestígios de diversas civilizações
Desde o início do século XX, diversas expedições científicas vêm investigando as camadas arqueológicas da cidade.
Essas pesquisas revelaram estruturas e artefatos enterrados a aproximadamente 13 metros de profundidade.
Entre os achados estão estátuas e colunas da ocupação bizantina, datadas de aproximadamente 400 d.C.
Além disso, arqueólogos também encontraram moedas gregas e romanas, fragmentos de cerâmica com cerca de 3 mil anos e vestígios de invasões ocorridas até 800 d.C.
Essas descobertas indicam que Matera foi ponto de encontro de diferentes povos ao longo da história.
Entre eles estão gregos, romanos, bizantinos, sarracenos, aragoneses e bourbons, que deixaram marcas culturais e arquitetônicas na região.

Catedral medieval domina o ponto mais alto da cidade
No topo da colina de Civita, encontra-se a Catedral de Matera, um dos principais marcos históricos da cidade.
Inicialmente, a construção começou no século XIII.
Além disso, o templo foi dedicado à Virgem Maria da Bruna e a Santo Eustáquio, padroeiro local.
Arquitetonicamente, o edifício apresenta estilo românico-gótico típico do sul da Itália.
Embora a fachada seja relativamente simples, o interior apresenta três naves separadas por colunas.
Além disso, uma abóbada de pedra completa a estrutura arquitetônica.
No interior também aparecem pinturas medievais, esculturas sacras e objetos litúrgicos históricos, preservados em um pequeno museu.
Capital cultural europeia e cenário cinematográfico internacional
Mais recentemente, em 2019, Matera foi escolhida como Capital Europeia da Cultura.
Além disso, naquele ano a cidade dividiu o título com Plovdiv, na Bulgária.
Ao mesmo tempo, a paisagem de pedra da cidade ganhou destaque no cinema internacional.
Por exemplo, a região serviu de cenário para o filme “A Paixão de Cristo” (2004), dirigido por Mel Gibson.
Segundo os produtores da obra, a escolha ocorreu porque as construções de pedra lembram a aparência da antiga Jerusalém.
Assim, diante de uma história que atravessa milênios e reúne vestígios de diversas civilizações, Matera permanece como um dos exemplos mais impressionantes de adaptação humana ao ambiente natural.


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