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China descobriu o truque que a Toyota usou para conquistar a Europa e agora BYD, Chery e outras montadoras são as maiores exportadoras do mundo

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 09/05/2026 às 18:15
Atualizado em 09/05/2026 às 18:31
Montadoras chinesas seguem estratégia da Toyota e criam carros exclusivos para ampliar avanço da BYD e Chery na Europa.
Montadoras chinesas seguem estratégia da Toyota e criam carros exclusivos para ampliar avanço da BYD e Chery na Europa.
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Montadoras chinesas aceleram uma ofensiva global inspirada na estratégia que ajudou a Toyota a crescer na Europa, apostando agora em carros criados especificamente para consumidores europeus enquanto ampliam exportações, desafiam marcas tradicionais e transformam mercados como Reino Unido, Austrália e América Latina.

China descobriu uma nova fórmula para ampliar sua presença global no setor automotivo: desenvolver veículos pensados desde o início para consumidores estrangeiros, especialmente europeus, repetindo uma estratégia que ajudou a Toyota a consolidar sua expansão no continente com o Yaris, lançado em 1999.

As fabricantes chinesas abandonam gradualmente a lógica inicial de apenas exportar carros concebidos para o mercado doméstico com pequenas adaptações.

Agora, BYD, Chery, Changan, MG, Hongqi e outras marcas investem em modelos desenhados especificamente para preferências regionais.

A mudança acontece em meio à forte pressão sobre as margens dentro da China, onde a guerra de preços se arrasta há anos e dificulta a rentabilidade de um setor extremamente competitivo.

Com um mercado doméstico saturado e mais de 100 fabricantes disputando espaço, exportar deixou de ser apenas um plano de crescimento e passou a representar uma estratégia central de sobrevivência.

A expansão internacional já alterou o equilíbrio da indústria global.

A China ultrapassou o Japão e se consolidou como a maior exportadora de veículos do mundo, impulsionada pelo crescimento das vendas de elétricos, híbridos e modelos de combustão em mercados emergentes e desenvolvidos.

Montadoras chinesas tentam repetir o “efeito Yaris” na Europa

A nova etapa da ofensiva chinesa vai além de preço competitivo e volume de produção.

As fabricantes perceberam que descontos agressivos ajudam na entrada em novos mercados, mas não garantem fidelidade em regiões mais exigentes, como a Europa.

Consumidores europeus priorizam carros menores, acabamento mais discreto, ergonomia familiar e soluções práticas para uso urbano, características nem sempre presentes nos veículos desenvolvidos originalmente para o mercado chinês.

A comparação com o Toyota Yaris ganhou força justamente por causa dessa estratégia.

O hatch japonês foi concebido na Europa para consumidores europeus e acabou se tornando um dos pilares da expansão da Toyota no continente.

Montadoras chinesas seguem estratégia da Toyota e criam carros exclusivos para ampliar avanço da BYD e Chery na Europa.
Montadoras chinesas seguem estratégia da Toyota e criam carros exclusivos para ampliar avanço da BYD e Chery na Europa.

Pedro Pacheco, analista da Gartner, classificou a movimentação atual das montadoras chinesas como um possível “momento Yaris”, numa referência à busca por um carro capaz de destravar escala regional e melhorar margens fora da China.

Dan Hearsch, co-líder global do setor automotivo na AlixPartners, afirmou que modelos com relevância global funcionam como um “Santo Graal” para as fabricantes, porque permitem ganhar escala sem sacrificar rentabilidade.

BYD aposta em hatch europeu para ganhar espaço fora da China

A BYD aparece entre as empresas mais agressivas nessa estratégia.

A montadora desenvolveu o Dolphin G especificamente para o mercado europeu, com lançamento previsto para junho, segundo Stella Li, vice-presidente executiva da companhia.

O modelo mira um segmento extremamente relevante em países do sul da Europa.

Segundo Li, os hatches representam mais de 40% das vendas de veículos novos em partes da região, embora esse tipo de carro tenha pouca relevância no mercado chinês.

“Se não temos o carro certo nesse setor, a gente perde”, afirmou a executiva ao explicar a importância do projeto.

A avaliação reflete um problema enfrentado por diversas fabricantes chinesas.

Mesmo com forte avanço em elétricos e híbridos, muitas empresas ainda possuem portfólios excessivamente concentrados em SUVs, categoria que domina o mercado chinês, mas nem sempre atende às preferências europeias.

Diferenças culturais influenciam design e tecnologia dos carros

O desafio vai além do tamanho dos veículos.

Na China, fabricantes disputam atenção com telas enormes, recursos digitais avançados, materiais chamativos e soluções tecnológicas voltadas para um consumidor mais jovem e conectado.

Esse perfil nem sempre combina com o comportamento médio de compradores europeus ou americanos.

Alfonso Albaisa, vice-presidente sênior de design global da Nissan, citou diferenças de gosto entre os mercados ao comentar que alguns modelos chineses apostam em interiores com cores consideradas incomuns fora da Ásia.

Ele mencionou, por exemplo, opções em tom rosa arroxeado disponíveis em veículos vendidos na China.

Francois Roudier, secretário-geral da Organização Internacional dos Construtores de Veículos Automotores, também apontou o contraste geracional entre os mercados.

Segundo ele, funções como karaokê integrado ao carro podem atrair consumidores chineses mais jovens, mas não necessariamente compradores europeus de perfil familiar.

Essas diferenças ajudam a explicar por que tantas fabricantes chinesas passaram a investir em centros de design regionais e equipes internacionais de engenharia.

No Salão de Pequim realizado no fim de abril, a Hongqi apresentou um “SUV global” pensado para venda em 80 países, embora desenvolvido principalmente para uso urbano europeu, segundo o chefe de design Giles Taylor.

Chery, MG e Changan aceleram novos projetos globais

A Chery, maior exportadora chinesa de veículos, também tenta reduzir sua dependência de SUVs.

Em 2025, a empresa vendeu 2,8 milhões de veículos globalmente, dos quais 2,3 milhões pertenciam justamente à categoria de utilitários esportivos.

Ivan Dulanovic, chefe de design da Lepas, nova marca internacional da Chery, afirmou que o hatch Lepas 2 está em desenvolvimento com foco específico na Europa.

A MG, controlada pela SAIC, segue uma linha semelhante.

A fabricante prepara o MG2 para o mercado europeu, mirando consumidores urbanos que preferem carros compactos.

Segundo o chefe de design Jozef Kaban, os europeus “não gostam de carros enormes”, resumindo um dos principais desafios enfrentados pelas montadoras chinesas.

A estatal Changan também trabalha numa nova linha formada por hatches, SUVs compactos e picapes voltadas para Europa e outros mercados internacionais.

Os lançamentos estão previstos a partir do fim de 2027, segundo Klaus Zyciora, chefe de design da empresa.

Para ele, a competição global exige investimentos elevados e volume suficiente para garantir rentabilidade.

Exportações mudam até a ordem de lançamento dos veículos

A pressão por crescimento internacional já começa a alterar a própria lógica de lançamento de produtos dentro das montadoras chinesas.

Em alguns casos, veículos passam a estrear primeiro fora da China antes de chegarem ao mercado doméstico.

A Jetour, marca de SUVs da Chery, desenvolveu seu primeiro elétrico puro, o compacto TX, com foco no consumidor europeu.

Segundo Ke Chuandeng, presidente internacional da marca, a futura picape F700 também mira mercados como Austrália e Brasil.

O modelo deve ser lançado primeiro no México antes de chegar à China.

Na Austrália, a Chery prepara ainda uma picape híbrida diesel plug-in para este ano.

Lucas Harris, diretor local da companhia, afirmou que o mercado australiano funciona como uma espécie de teste extremo para esse tipo de veículo.

“Não somos gentis com nossas utes”, declarou Harris ao usar o termo local para picapes. Segundo ele, se o veículo resistir às condições australianas, provavelmente conseguirá enfrentar qualquer mercado.

Participação chinesa cresce rapidamente no Reino Unido e Europa

Os números mais recentes mostram por que a disputa internacional ganhou tanta importância para as montadoras chinesas.

No Reino Unido, as marcas da China dobraram participação no primeiro trimestre e chegaram a 14,2% do mercado.

Na Europa, a fatia também avançou rapidamente, passando de 3,5% para 6%, segundo dados da consultoria Inovev.

Apesar do crescimento acelerado, analistas avaliam que competir apenas por preço pode não ser suficiente para sustentar o avanço no longo prazo.

Phil Dunne, diretor da Grant Thornton Stax, afirmou que as fabricantes chinesas precisam “subir de nível”, criando veículos realmente alinhados às preferências europeias.

Isso inclui desenvolver carros menores, mais práticos e menos dependentes de soluções exageradamente tecnológicas.

A disputa agora entra numa fase em que preço competitivo sozinho já não garante vantagem automática.

As fabricantes chinesas tentam provar que conseguem compreender hábitos locais, padrões urbanos e preferências regionais sem abrir mão da escala industrial que transformou a China numa potência automotiva global.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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