Chã das Caldeiras, em Cabo Verde, vive dentro da cratera do Pico do Fogo, foi destruída pela lava em 2014 e segue reconstruindo casas, vinhas e pousadas no mesmo lugar.
Segundo a AFP, em reportagem publicada pelo Malay Mail, existe em Cabo Verde uma das comunidades habitadas mais improváveis do planeta: Chã das Caldeiras, uma aldeia instalada dentro da cratera do Pico do Fogo, na ilha do Fogo. O vilarejo vive em uma relação permanente de risco e dependência com o vulcão, que destrói casas, plantações e estradas quando entra em erupção, mas ao mesmo tempo sustenta a economia local com solo fértil e turismo.
A comunidade fica dentro da grande caldeira do vulcão, cercada por paredões íngremes, e convive com um ciclo que já se repetiu várias vezes: a lava avança, os moradores são retirados, a paisagem é enterrada, e depois, quando o perigo diminui, eles voltam para reconstruir tudo exatamente no mesmo lugar. Foi assim depois da erupção de 1995 e voltou a acontecer após a erupção iniciada em 23 de novembro de 2014.
Chã das Caldeiras continua voltando porque o vulcão também sustenta a vida local
Segundo a AFP, o próprio Pico do Fogo gera a maior parte da riqueza da comunidade. A razão principal está no contraste entre destruição e fertilidade. A terra vulcânica da cratera permite o cultivo de uvas, figos, mandioca e outras culturas, algo valioso em um país marcado por clima seco e limitações hídricas. Ao mesmo tempo, o vulcão atrai visitantes interessados em subir até o cume e conhecer a paisagem moldada pela lava.
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A reportagem informa que o local recebe cerca de 5 mil turistas por ano, o que alimenta pousadas, restaurantes e o trabalho de guias. É por isso que muitos moradores tratam o vulcão como ameaça e fonte de sustento ao mesmo tempo. Sem ele, a aldeia perderia justamente aquilo que a mantém economicamente viva.
Essa contradição ajuda a explicar por que a saída definitiva nunca se consolida. O risco é real, mas a ligação econômica e afetiva com a terra continua sendo mais forte do que a pressão para abandonar a área.
Erupção de 2014 destruiu grande parte da aldeia e deixou cerca de 1.500 pessoas sem casa
Segundo a AFP, a erupção mais recente mudou radicalmente a paisagem da cratera. A lava engoliu pousadas, plantações, estradas e bairros inteiros da aldeia, deixando cerca de 1.500 pessoas desabrigadas. A evacuação foi feita a tempo, e a erupção não matou moradores, mas enterrou a base física da comunidade sob uma espessa camada de rocha vulcânica.
A Wired, ao acompanhar o início da erupção em novembro de 2014, relatou que as autoridades retiraram os moradores de Chã das Caldeiras quando a atividade vulcânica começou a ameaçar as rotas locais e a expandir fluxos de lava dentro da caldeira. A publicação também lembrou que a erupção anterior, em 1995, havia coberto mais de seis quilômetros quadrados do chão da cratera.
O episódio de 2014 reforçou que a ameaça do Pico do Fogo não é abstrata nem distante. Trata-se de um vulcão ativo, com histórico recente e com capacidade comprovada de apagar, em poucos dias, aquilo que levou anos para ser construído.
Moradores reconstruíram pousadas, casas e vinhas sobre a lava ainda quente
Segundo a AFP, o retorno começou logo depois da evacuação. Muitos moradores voltaram mesmo diante da oposição do governo e da precariedade extrema. A reconstrução foi feita em grande parte pelos próprios habitantes, que reabriram caminhos, buscaram materiais e reergueram pousadas e moradias sobre a nova camada de lava.

A reportagem descreve um detalhe impressionante dessa volta: anos depois da erupção, o piso de uma pousada reconstruída ainda permanecia quente ao toque em alguns pontos.
A dona do hotel, Marisa Lopes, contou que nos primeiros meses o chão era quente demais para andar descalço, porque a reconstrução havia sido feita rápido sobre a lava que ainda não tinha esfriado totalmente.
Isso mostra o grau de improviso e urgência que marcou a retomada da aldeia. Em vez de esperar condições ideais, os moradores escolheram voltar assim que conseguiram, mesmo sabendo que a paisagem ainda guardava calor, instabilidade e risco.
A ligação com a terra explica por que os moradores insistem em viver dentro do vulcão
Segundo a AFP, a explicação que os habitantes de Chã das Caldeiras dão para esse retorno repetido é direta: é o lar deles. Muitos nasceram ali, conhecem o solo, vivem do turismo e da agricultura local e não conseguem imaginar a própria vida fora da cratera.
O morador Cicilio Montrond, citado na reportagem, perdeu árvores frutíferas, bens e parte de sua vida material para a lava, mas voltou com a esposa depois de poucas semanas fora da aldeia. A lógica repetida por vários moradores é simples e poderosa: o vulcão pode destruir tudo, mas também é ele que torna possível viver ali.
Essa relação explica por que Chã das Caldeiras se tornou um símbolo raro de resiliência humana diante de forças geológicas extremas.
A comunidade sabe que o Pico do Fogo vai entrar em erupção de novo um dia. Ainda assim, segue plantando, recebendo turistas, reconstruindo casas e tratando a permanência ali como parte inevitável da própria identidade.


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