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Cerca de 700 moradores vivem dentro da cratera de um vulcão ainda ativo em Cabo Verde, casas e vinhas se espalham sobre a lava já solidificada e, a cada erupção que enterra a aldeia, a população volta e reconstrói tudo no mesmo lugar, num dos assentamentos mais extremos do planeta

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 19/06/2026 às 19:51
Assista o vídeoChã das Caldeiras, em Cabo Verde, vive dentro da cratera do Pico do Fogo, foi destruída pela lava em 2014 e segue reconstruindo casas, vinhas e pousadas no mesmo lugar.
Cerca de 700 moradores vivem dentro da cratera de um vulcão ainda ativo em Cabo Verde
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Chã das Caldeiras, em Cabo Verde, vive dentro da cratera do Pico do Fogo, foi destruída pela lava em 2014 e segue reconstruindo casas, vinhas e pousadas no mesmo lugar.

Segundo a AFP, em reportagem publicada pelo Malay Mail, existe em Cabo Verde uma das comunidades habitadas mais improváveis do planeta: Chã das Caldeiras, uma aldeia instalada dentro da cratera do Pico do Fogo, na ilha do Fogo. O vilarejo vive em uma relação permanente de risco e dependência com o vulcão, que destrói casas, plantações e estradas quando entra em erupção, mas ao mesmo tempo sustenta a economia local com solo fértil e turismo.

A comunidade fica dentro da grande caldeira do vulcão, cercada por paredões íngremes, e convive com um ciclo que já se repetiu várias vezes: a lava avança, os moradores são retirados, a paisagem é enterrada, e depois, quando o perigo diminui, eles voltam para reconstruir tudo exatamente no mesmo lugar. Foi assim depois da erupção de 1995 e voltou a acontecer após a erupção iniciada em 23 de novembro de 2014.

Chã das Caldeiras continua voltando porque o vulcão também sustenta a vida local

Segundo a AFP, o próprio Pico do Fogo gera a maior parte da riqueza da comunidade. A razão principal está no contraste entre destruição e fertilidade. A terra vulcânica da cratera permite o cultivo de uvas, figos, mandioca e outras culturas, algo valioso em um país marcado por clima seco e limitações hídricas. Ao mesmo tempo, o vulcão atrai visitantes interessados em subir até o cume e conhecer a paisagem moldada pela lava.

Cerca de 700 moradores vivem dentro da cratera de um vulcão ainda ativo em Cabo Verde
Cerca de 700 moradores vivem dentro da cratera de um vulcão ainda ativo em Cabo Verde

A reportagem informa que o local recebe cerca de 5 mil turistas por ano, o que alimenta pousadas, restaurantes e o trabalho de guias. É por isso que muitos moradores tratam o vulcão como ameaça e fonte de sustento ao mesmo tempo. Sem ele, a aldeia perderia justamente aquilo que a mantém economicamente viva.

Essa contradição ajuda a explicar por que a saída definitiva nunca se consolida. O risco é real, mas a ligação econômica e afetiva com a terra continua sendo mais forte do que a pressão para abandonar a área.

Erupção de 2014 destruiu grande parte da aldeia e deixou cerca de 1.500 pessoas sem casa

Segundo a AFP, a erupção mais recente mudou radicalmente a paisagem da cratera. A lava engoliu pousadas, plantações, estradas e bairros inteiros da aldeia, deixando cerca de 1.500 pessoas desabrigadas. A evacuação foi feita a tempo, e a erupção não matou moradores, mas enterrou a base física da comunidade sob uma espessa camada de rocha vulcânica.

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A Wired, ao acompanhar o início da erupção em novembro de 2014, relatou que as autoridades retiraram os moradores de Chã das Caldeiras quando a atividade vulcânica começou a ameaçar as rotas locais e a expandir fluxos de lava dentro da caldeira. A publicação também lembrou que a erupção anterior, em 1995, havia coberto mais de seis quilômetros quadrados do chão da cratera.

O episódio de 2014 reforçou que a ameaça do Pico do Fogo não é abstrata nem distante. Trata-se de um vulcão ativo, com histórico recente e com capacidade comprovada de apagar, em poucos dias, aquilo que levou anos para ser construído.

Moradores reconstruíram pousadas, casas e vinhas sobre a lava ainda quente

Segundo a AFP, o retorno começou logo depois da evacuação. Muitos moradores voltaram mesmo diante da oposição do governo e da precariedade extrema. A reconstrução foi feita em grande parte pelos próprios habitantes, que reabriram caminhos, buscaram materiais e reergueram pousadas e moradias sobre a nova camada de lava.

Chã das Caldeiras, em Cabo Verde, vive dentro da cratera do Pico do Fogo, foi destruída pela lava em 2014 e segue reconstruindo casas, vinhas e pousadas no mesmo lugar.
Cerca de 700 moradores vivem dentro da cratera de um vulcão ainda ativo em Cabo Verde

A reportagem descreve um detalhe impressionante dessa volta: anos depois da erupção, o piso de uma pousada reconstruída ainda permanecia quente ao toque em alguns pontos.

A dona do hotel, Marisa Lopes, contou que nos primeiros meses o chão era quente demais para andar descalço, porque a reconstrução havia sido feita rápido sobre a lava que ainda não tinha esfriado totalmente.

Isso mostra o grau de improviso e urgência que marcou a retomada da aldeia. Em vez de esperar condições ideais, os moradores escolheram voltar assim que conseguiram, mesmo sabendo que a paisagem ainda guardava calor, instabilidade e risco.

A ligação com a terra explica por que os moradores insistem em viver dentro do vulcão

Segundo a AFP, a explicação que os habitantes de Chã das Caldeiras dão para esse retorno repetido é direta: é o lar deles. Muitos nasceram ali, conhecem o solo, vivem do turismo e da agricultura local e não conseguem imaginar a própria vida fora da cratera.

O morador Cicilio Montrond, citado na reportagem, perdeu árvores frutíferas, bens e parte de sua vida material para a lava, mas voltou com a esposa depois de poucas semanas fora da aldeia. A lógica repetida por vários moradores é simples e poderosa: o vulcão pode destruir tudo, mas também é ele que torna possível viver ali.

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Essa relação explica por que Chã das Caldeiras se tornou um símbolo raro de resiliência humana diante de forças geológicas extremas.

A comunidade sabe que o Pico do Fogo vai entrar em erupção de novo um dia. Ainda assim, segue plantando, recebendo turistas, reconstruindo casas e tratando a permanência ali como parte inevitável da própria identidade.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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