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CEO da Ford chama a China de ameaça existencial enquanto Stellantis Mercedes e Volkswagen correm para adotar tecnologia chinesa nos seus próprios carros e o que está acontecendo agora pode definir quem sobrevive no futuro do setor automotivo mundial

Publicado em 07/04/2026 às 09:51
Atualizado em 07/04/2026 às 10:23
A China registrou cinco vezes mais patentes que a Alemanha e agora montadoras como Stellantis Mercedes e Volkswagen importam tecnologia chinesa de veículos elétricos enquanto o CEO da Ford classifica o avanço como ameaça existencial ao setor automotivo ocidental
A China registrou cinco vezes mais patentes que a Alemanha e agora montadoras como Stellantis Mercedes e Volkswagen importam tecnologia chinesa de veículos elétricos enquanto o CEO da Ford classifica o avanço como ameaça existencial ao setor automotivo ocidental
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A China já registrou cinco vezes mais patentes de transporte do futuro que a Alemanha e agora montadoras europeias e americanas estão importando plataformas software e até engenheiros chineses para seus próprios modelos enquanto o CEO da Ford Jim Farley classifica o avanço como ameaça existencial à indústria ocidental.

Segundo o portal Brasil 247, a China deixou de ser a fábrica do mundo para se tornar o cérebro da indústria automotiva global e as maiores montadoras do Ocidente já reconhecem isso. A Stellantis avalia usar plataformas de veículos elétricos e software da chinesa Leapmotor como base para modelos de marcas como Fiat, Opel e Peugeot. A Mercedes-Benz conversa com a Geely sobre cooperação em futuros elétricos. A Volkswagen firmou parceria com a Xpeng. A Renault desenvolveu o novo Twingo elétrico em Xangai. E o CEO da Ford, Jim Farley, descreveu esse cenário com duas palavras: “ameaça existencial”.

O que está acontecendo vai além de uma guerra comercial. A China impôs um novo ritmo à indústria, batizado de “China Speed” pelos próprios executivos ocidentais: ciclos de desenvolvimento que levam menos de dois anos contra cinco a sete das montadoras tradicionais, integração intensa entre fornecedores e fábricas, e capacidade de corrigir falhas por atualização remota no mesmo dia. Desde 2009, o governo chinês investiu ao menos US$ 230 bilhões em suporte ao setor de veículos elétricos, segundo o Center for Strategic & International Studies. O resultado é uma indústria que registrou mais de 343 mil patentes de tecnologias de transporte do futuro entre 2000 e 2023 quase cinco vezes o total da Alemanha e que agora exporta não apenas carros, mas a própria lógica de como carros são feitos.

O que é a “China Speed” e por que ela assusta as montadoras ocidentais

A expressão define um modelo de produção em que o veículo não precisa estar completamente finalizado para chegar ao mercado. Parte das fabricantes chinesas adotou a prática de lançar o carro e continuar ajustando-o por meio de atualizações remotas de software.

Um exemplo concreto: um Leapmotor C10 testado na Autobahn, na Alemanha, freou de forma brusca durante a condução. Após um e-mail aos engenheiros em Hangzhou, a China, o carro recebeu uma atualização que corrigiu o problema. Numa montadora europeia, a solução poderia levar semanas.

Essa velocidade tem raízes estruturais. Muitas das montadoras chinesas foram fundadas por empreendedores vindos do setor de tecnologia não da velha indústria automobilística.

Fundadores da Xpeng, Nio e Li Auto têm trajetória em startups de internet; Lei Jun, da Xiaomi, vem do universo do software.

As equipes são mais jovens, organizadas sob metas agressivas de desempenho, e a competição doméstica intensa na China obriga inovação contínua quem não evolui rápido simplesmente desaparece. É essa pressão interna que forjou o ritmo que agora assusta Detroit, Wolfsburg e Stuttgart.

Quais montadoras tradicionais já estão adotando tecnologia da China

A lista é extensa e cresce a cada mês. A Stellantis mantém conversas com Xiaomi e Xpeng sobre possíveis investimentos na Europa, além da parceria já existente com a Leapmotor.

A Audi trabalha com a SAIC Motor em modelos elétricos sobre plataforma local chinesa. A Renault pretende obter 40% das peças do novo Twingo elétrico, em valor, de fornecedores na China. A Nissan anunciou investimento de pelo menos US$ 1,4 bilhão para criar veículos elétricos na China destinados a mercados externos.

Até fornecedores tradicionais estão migrando. A Robert Bosch, maior fabricante de autopeças do mundo, está cortando milhares de empregos na Alemanha enquanto desloca atividades de baterias e assistência ao motorista para a China.

Engenheiros da Bosch em Suzhou redesenharam um conector elétrico em seis meses cerca de metade do tempo que equipes na Alemanha precisariam. A empresa reconheceu que os prazos de desenvolvimento na China costumam ser muito menores e classificou o país como polo importante de inovação.

Por que o CEO da Ford chama a China de ameaça existencial

Jim Farley não está usando hipérbole. A Ford enfrenta um cenário em que montadoras chinesas avançam sobre mercados que eram considerados territórios seguros Brasil, México, Reino Unido, Oriente Médio enquanto a proteção tarifária nos EUA apenas retarda uma entrada que muitos consideram inevitável.

Analistas do UBS estimam que só as células de bateria já garantem a fabricantes chinesas como a BYD uma vantagem de custo de cerca de US$ 2 mil por veículo. O banco projeta que a participação dessas empresas no mercado global subirá de 25% em 2025 para 35% até 2030.

Farley discute com o governo de Donald Trump formas de estruturar joint ventures entre empresas americanas e chinesas caso a entrada da China no mercado dos EUA se amplie.

A Ford reconhece que não pode competir apenas com o que tem precisa de alguma forma incorporar a velocidade e o custo chinês para sobreviver. Executivos europeus já comparam o momento a um “momento Nokia” referência ao impacto que o iPhone provocou na líder finlandesa de celulares. A sugestão é clara: quem não se adaptar, desaparece.

Os riscos da velocidade chinesa que ninguém deve ignorar

A “China Speed” não é apenas virtude. O modelo de “lançar e depois corrigir” já gerou problemas concretos.

Em outubro, a pesquisa anual da JD Power registrou queda na confiabilidade dos carros vendidos na China pelo segundo ano consecutivo, com joint ventures japonesas e americanas superando marcas locais em desempenho. O estudo apontou que sistemas insuficientes de validação em pesquisa e desenvolvimento, combinados com pressão por redução de custos, estão se tornando risco sistêmico para a qualidade.

Um caso emblemático aconteceu em fevereiro, quando um SUV Lynk & Co Z20 desligou os faróis à noite depois que o motorista pediu ao sistema de voz para apagar uma luz interna de leitura.

O veículo ficou no escuro e colidiu com o canteiro central da pista ninguém se feriu, mas o episódio levantou debate sobre consumidores se tornando testadores involuntários de produto. A montadora instalou uma atualização e o executivo sênior pediu desculpas, mas o incidente expôs que velocidade sem validação adequada tem custos reais.

As montadoras ocidentais ainda mantêm vantagem relevante em confiabilidade de longo prazo a questão é se essa vantagem é suficiente para compensar a diferença de preço e velocidade.

O que tudo isso significa para o futuro dos carros que você dirige

O CEO da Volkswagen, Oliver Blume, resumiu o cenário numa frase: “Não há outra região no mundo onde a transformação do nosso setor esteja ocorrendo de forma mais consistente, dinâmica ou rápida. É na China que se decide quem estará na linha de frente dessa transformação.”

O chanceler alemão Friedrich Merz, após visitar a China, foi ainda mais direto: “A Alemanha simplesmente já não é produtiva o suficiente.”

Para o consumidor, o impacto virá na forma de carros elétricos mais baratos, com mais tecnologia embarcada e atualizações constantes mas possivelmente com menos garantia de que cada recurso foi exaustivamente testado antes de chegar às ruas.

A China mudou as regras do jogo: velocidade e custo passaram a valer mais que tradição e pedigree. As montadoras ocidentais que entenderem isso a tempo podem se reinventar. As que não entenderem podem se juntar à Nokia na lista de gigantes que subestimaram a velocidade da mudança.

O que você acha: as montadoras ocidentais vão conseguir competir com a China ou o futuro do carro será decidido em Xangai? Deixe sua opinião nos comentários.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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