Carros modernos coletam dados sobre praticamente tudo o que acontece dentro e ao redor do veículo: localização precisa de todos os trajetos, quem está no carro, o que toca no rádio, se o motorista usa cinto de segurança, se dirige acima da velocidade, se freia bruscamente e até suas expressões faciais. Segundo o G1, a Mozilla, responsável pelo navegador Firefox, analisou as políticas de privacidade de 25 marcas de automóveis e nenhuma atendeu aos padrões mínimos de segurança, levando a organização a classificar carros como “a pior categoria de produto que já avaliamos em termos de privacidade”.
A maioria dos veículos novos já sai de fábrica conectada à internet e pode transmitir esses dados enquanto o motorista dirige sem perceber. A consultoria McKinsey estimou que 50% dos carros em circulação em 2021 tinham conexão à internet e previu que esse número chegará a 95% até 2030. Entre os principais compradores desses dados estão as seguradoras, que usam as informações para cobrar preços mais altos de alguns motoristas, mas é impossível saber com precisão para onde todas as informações vão. Algumas montadoras admitem vender esses dados, porém não são obrigadas a revelar quem os compra. Segundo Darrell West, pesquisador do Brookings Institute, “basicamente, isso significa que a sua vida pode ser reconstruída quase segundo a segundo”.
O que os carros sabem sobre você
A lista de dados que carros modernos conseguem coletar é mais extensa do que a maioria dos motoristas imagina. Sensores nos bancos, no painel, no motor e no volante registram informações sobre peso, posição do corpo, força de frenagem e aceleração. Câmeras internas e externas captam imagens do motorista e dos passageiros. O sistema de GPS registra cada trajeto com precisão de metros. O sistema multimídia grava o que toca no rádio, quais aplicativos são usados e quais números de telefone são conectados via Bluetooth.
Segundo o relatório da Mozilla, as montadoras se reservam o direito de coletar informações como nome, idade, raça, peso, dados financeiros, expressões faciais e tendências psicológicas. A política de privacidade da Kia, por exemplo, sugere que a empresa pode coletar informações sobre a “vida sexual” e a saúde geral dos motoristas. O porta-voz da Kia afirmou que a empresa nunca coletou esses dados na prática e que as categorias aparecem na política apenas porque reproduzem a definição legal de “dados sensíveis” do Estado da Califórnia. Mas a presença dessas categorias no documento revela o alcance potencial da coleta.
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Seguradoras: o cliente mais polêmico dos seus dados
O uso mais concreto e documentado dos dados coletados por carros é a venda para seguradoras. A General Motors foi alvo de ações de órgãos estaduais e federais nos EUA por supostamente vender dados de localização sem consentimento dos motoristas para a empresa LexisNexis, especializada na compra e venda de informações de consumidores. Um motorista que conseguiu acessar seu dossiê descobriu que a LexisNexis tinha 130 páginas detalhando todas as viagens feitas por ele e pela esposa ao longo de seis meses.
Após o vazamento, o motorista foi informado por um corretor de seguros de que os dados haviam influenciado um aumento de 21% no valor do seu seguro. A Comissão Federal de Comércio dos EUA proibiu a GM de vender dados de veículos pelos próximos cinco anos, mas a LexisNexis e outras empresas continuam comercializando informações obtidas de outras montadoras e aplicativos. Segundo Michael DeLong, da Consumer Federation of America, “as seguradoras vêm coletando enormes quantidades de dados e usando isso para cobrar prêmios mais altos, negar cobertura ou classificar clientes em diferentes categorias”.
19 montadoras admitem vender seus dados
O relatório da Mozilla identificou que 19 das 25 montadoras analisadas afirmam em suas políticas de privacidade que podem vender dados dos usuários. Honda e Hyundai foram acusadas por senadores americanos de práticas semelhantes às da GM, e esses são apenas os casos que vieram a público. A venda de dados é legal desde que esteja descrita nas políticas de privacidade aceitas pelos motoristas, o que na prática significa aceitar formulários ao configurar o sistema multimídia do veículo ou aplicativos conectados.
“Elas pegam todas as informações que coletam sobre você e usam para tirar conclusões sobre quem você é, qual é o seu nível de inteligência, seu perfil psicológico e suas crenças políticas”, afirma Jen Caltrider, analista que liderou a pesquisa da Mozilla. As informações podem ser usadas para direcionar publicidade, influenciar decisões de contratação e até ser adquiridas por autoridades policiais quando não conseguem autorização judicial. Depois que os dados saem do carro, o motorista perde qualquer controle sobre seu destino.
A lei que vai piorar o problema
Nos Estados Unidos, uma lei federal determina que montadoras instalem em novos veículos tecnologias de prevenção à direção sob efeito de álcool ou fadiga, incluindo câmeras biométricas infravermelhas capazes de analisar linguagem corporal e rastrear movimentos dos olhos. O objetivo é impedir que pessoas embriagadas ou exaustas dirijam, mas a lei não prevê nenhuma regra sobre o destino dos dados gerados por essas tecnologias. Na prática, as montadoras terão acesso a informações que equivalem a dados médicos sem salvaguardas específicas.
“Muitos dos avanços de coleta de dados em carros são apresentados sob o argumento da segurança”, afirma Caltrider. A implementação deve ser adiada porque a tecnologia ainda não está pronta, mas especialistas em privacidade alertam que, quando as câmeras biométricas forem instaladas, o volume de dados pessoais coletados dentro dos carros dará um salto que tornará a situação atual parecer inofensiva em comparação.
O que você pode fazer para se proteger
Existem medidas que os motoristas podem tomar, embora nenhuma resolva o problema por completo. Não participar dos programas de telemetria das seguradoras é o primeiro passo: uma análise feita pelo Estado de Maryland mostrou que 31% dos motoristas tiveram redução no seguro, mas 24% passaram a pagar mais e 45% não viram diferença. O risco de ter dados de direção vendidos supera os possíveis descontos para a maioria dos motoristas.
No Brasil, a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) define regras sobre compartilhamento de dados pessoais, e consumidores podem solicitar cópia dos dados coletados e exigir exclusão. Algumas montadoras oferecem configurações de privacidade no sistema multimídia e nos aplicativos conectados ao veículo que limitam a coleta e o compartilhamento. Caltrider argumenta, porém, que consumidores não deveriam precisar fazer tanto esforço para proteger algo que deveria ser direito garantido: “Enquanto as regras não mudarem e os dados não forem realmente nossos, esse problema só vai piorar.”
Seu carro sabe mais sobre você do que você imagina
Carros modernos coletam dados sobre localização, expressões faciais, uso do cinto, comportamento ao volante e até informações biométricas, e a Mozilla classificou automóveis como a pior categoria de produto em privacidade já avaliada. 19 das 25 montadoras analisadas admitem poder vender esses dados, seguradoras os usam para aumentar preços e uma nova lei americana vai ampliar a coleta com câmeras infravermelhas sem regras sobre o destino das informações. Enquanto as leis não acompanharem a tecnologia, o motorista é o produto tanto quanto o passageiro.
Você leu a política de privacidade do seu carro? Conte nos comentários se sabia que seu veículo coleta essas informações, se já percebeu alterações no seguro que possam estar ligadas a dados de direção e como avalia a classificação da Mozilla. Queremos ouvir a sua opinião.

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