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Carnê varejo volta com força em Belo Horizonte após limite do cartão de crédito estourar

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Escrito por Sara Aquino Publicado em 10/03/2026 às 10:38
Endividamento das famílias e limite do cartão de crédito impulsionam retorno do carnê varejo no comércio de Belo Horizonte.
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Endividamento das famílias e limite do cartão de crédito impulsionam retorno do carnê varejo no comércio de Belo Horizonte.

carnê varejo voltou a ganhar espaço nas lojas de Belo Horizonte como alternativa de pagamento para consumidores com limite do cartão crédito comprometido.

A estratégia tem sido adotada por varejistas para manter o giro de vendas e ampliar o acesso ao crédito consumidor, especialmente entre clientes que já estão endividados.

O movimento foi identificado em levantamento divulgado pela Fecomércio-MG em fevereiro, com dados referentes a janeiro. 

Segundo o estudo, a inadimplência na capital mineira apresentou uma leve redução de apenas 0,1%, um recuo considerado praticamente imperceptível.

Mesmo assim, o cenário continua pressionado pelo alto nível de endividamento famílias, principalmente por causa do uso intensivo do cartão. 

De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), 96,3% dos consumidores endividados em Belo Horizonte possuem dívidas no cartão de crédito. Entre famílias com renda superior a dez salários mínimos, o índice é ainda maior e chega a 99,2%

Diante desse cenário, o comércio tem retomado uma prática tradicional: oferecer crediário lojas por meio de carnês. 

Crescimento do carnê varejo após a pandemia 

Embora tenha perdido espaço nos últimos anos, o carnê varejo voltou a crescer no período pós-pandemia. O levantamento da Fecomércio-MG mostra que a modalidade passou por oscilações significativas ao longo da última década. 

Em janeiro de 2019, o carnê representava 21,6% das dívidas dos consumidores. Já em 2020, o percentual caiu para 13%, acompanhando a redução da demanda e o avanço dos pagamentos digitais e do cartão. 

No entanto, o cenário começou a mudar após a pandemia. Em janeiro de 2024, cerca de 27,4% das famílias endividadas utilizavam carnê. Atualmente, o índice chegou a 30,6%, evidenciando uma retomada consistente dessa forma de crédito consumidor

Esse crescimento revela uma mudança no comportamento financeiro das famílias. 

Cartão de crédito pressiona orçamento das famílias 

O aumento do uso do carnê varejo está diretamente ligado ao alto comprometimento da renda com o cartão crédito. Em muitos casos, o cartão tem sido utilizado para despesas básicas do dia a dia, o que reduz a capacidade de compra para produtos de maior valor. 

A economista da Fecomércio-MG, Gabriela Martins, explica que esse cenário limita o acesso a bens duráveis e semiduráveis. 

“Temos visto o uso do carnê subindo muito entre os consumidores. Isso nos indica que as pessoas provavelmente estão com o crédito do cartão já comprometido e, quando precisam comprar bens com valor agregado mais alto, não têm crédito disponível nem dinheiro.

Então acabam buscando o carnê, que é uma modalidade normalmente oferecida diretamente pelas empresas, principalmente do comércio varejista”, explica. 

Assim, itens como fogões, geladeiras, celulares e tablets acabam sendo comprados por meio do crediário lojas, alternativa oferecida diretamente pelos varejistas. 

Como o crediário das lojas mantém o consumo ativo 

Durante décadas, o carnê varejo foi um dos principais mecanismos de financiamento no comércio brasileiro. Grandes redes varejistas cresceram utilizando esse modelo de pagamento parcelado. 

Empresas como Casas Bahia e Magazine Luiza popularizaram o sistema, no qual o consumidor paga parcelas mensais com valores previamente definidos.

O modelo cria uma relação direta entre cliente e loja, sem intermediação de bancos ou operadoras de cartão. 

Além disso, o sistema ajuda a fidelizar consumidores. 

A lógica era simples: ao manter o nome limpo, o cliente continuaria tendo acesso ao crédito consumidor da loja e poderia realizar novas compras. Essa relação de confiança ajudava a sustentar o fluxo de vendas. 

Agora, com muitos consumidores sem limite disponível no cartão crédito, o varejo volta a apostar nesse formato. 

“Quando grande parte das famílias está com a renda muito comprometida — e às vezes até com todo o crédito do cartão esgotado —, elas não teriam meio, crédito ou renda disponível para fazer uma compra. Vendo isso, os varejistas estão impulsionando o carnê para não perder a venda nem o cliente.

Oferecem uma facilidade no pagamento — apesar dos juros também muito altos —, mas o cliente não deixa de comprar. É uma forma de fazer com que o consumidor endividado continue consumindo, para que as vendas não caiam”, comenta a economista. 

Carnê varejo exige atenção dos consumidores 

Apesar de facilitar o acesso ao crédito consumidor, o carnê varejo também exige cautela. Isso porque os juros embutidos nessa modalidade costumam ser elevados. 

Segundo especialistas, o parcelamento direto nas crediário lojas pode ampliar o endividamento famílias caso não haja planejamento financeiro. 

A economista Gabriela Martins alerta que o compromisso assumido no carnê pode pesar no orçamento ao longo do tempo, principalmente para quem já enfrenta dificuldades financeiras. 

Outro risco envolve o impacto no próprio comércio. 

Se o número de consumidores inadimplentes crescer, as lojas também podem sofrer com a redução das vendas e com dificuldades para recuperar créditos. 

“Famílias muito endividadas têm maior cautela na hora de consumir, e as inadimplentes muitas vezes não têm acesso a nenhuma forma de crédito.

O carnê é uma forma que as lojas encontram de aproximar esse consumidor e realizar a venda”, conclui Gabriela Martins. 

Veja mais em: Comércio de Belo Horizonte adota carnê para incrementar vendas

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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