Usina em Abu Dhabi amplia dessalinização com energia solar e reforça estratégia hídrica em região árida.
A usina de dessalinização de Al Taweelah, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, opera desde março de 2024 como a maior planta de osmose reversa de água do mar em atividade, segundo dados das autoridades locais de energia e água.
A instalação tem capacidade para gerar cerca de 909.200 metros cúbicos de água potável por dia, volume equivalente a 909 milhões de litros, parte dele associado a um parque solar dedicado de aproximadamente 70 megawatts (MW).
Essa combinação é apresentada pelo governo do emirado como uma forma de ampliar o abastecimento urbano com menor dependência de fontes fósseis.
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Al Taweelah e sua liderança global na dessalinização
Instalada na zona industrial de Khalifa, a planta integra o modelo de projeto independente de água (IWP) do país e possui contrato de compra de longo prazo com a Emirates Water and Electricity Company (EWEC).
A operação é conduzida pela Taweelah RO Desalination Company, com 40% de participação da ACWA Power, enquanto TAQA e Mubadala compõem o restante do consórcio.

O investimento de referência divulgado é de aproximadamente US$ 874 milhões, conforme relatórios públicos de mercado.
A implementação ocorreu em fases.
A primeira iniciou operação em junho de 2022, com cerca de metade da capacidade, e ampliou gradualmente o fornecimento à rede de Abu Dhabi.
Em 2023, o empreendimento alcançou aproximadamente 90% da produção contratada.
Em março de 2024, a planta recebeu a certificação de operação comercial plena, confirmando a produção próxima de 200 milhões de galões imperiais por dia, equivalente aos 909 mil metros cúbicos diários.
Com esse avanço, estimativas apresentadas pela EWEC indicam que a participação da dessalinização por osmose reversa no sistema hídrico de Abu Dhabi aumentaria de cerca de 13% para aproximadamente 30%.
No conjunto dos Emirados Árabes Unidos, dados oficiais apontam que cerca de 42% da água potável provém de processos de dessalinização.
Tecnologia de osmose reversa e etapas do tratamento
A tecnologia adotada é a osmose reversa de água do mar (SWRO), que utiliza membranas semipermeáveis e pressão elevada para separar sais e impurezas da água captada.
Em projetos desse porte, a pressão costuma atingir valores próximos de 60 bar, suficientes para forçar a passagem da água pelas membranas e reter a maior parte dos sólidos dissolvidos.
De acordo com fabricantes de equipamentos usados no setor, membranas de última geração atingem níveis superiores a 99% de retenção de sais.

A captação ocorre por tomadas submersas próximas à costa, que reduzem a entrada de organismos maiores.
Depois passam por pré-tratamento com filtração e dosagens químicas controladas, etapa considerada fundamental por especialistas para evitar incrustações e preservar a eficiência operacional.
Dentro dos módulos de osmose reversa, milhares de elementos de membrana funcionam em arranjos de alta recuperação, auxiliados por dispositivos de reaproveitamento de energia que utilizam a pressão residual da salmoura antes do descarte.
Documentos técnicos divulgados por empresas envolvidas apontam que o consumo específico da usina gira em torno de 2,81 kWh por metro cúbico, valor citado em publicações do setor como um dos mais baixos em empreendimentos dessa escala.
Após a separação, o permeado passa por remineralização, com adição controlada de cálcio e magnésio para estabilização do pH.
Na sequência, recebe desinfecção e é submetido a análises contínuas de qualidade antes de ser direcionado aos reservatórios e adutoras que abastecem Abu Dhabi e áreas industriais próximas.
Energia renovável e impactos ambientais monitorados
Parte da energia usada no processo vem de um parque solar de cerca de 70 MWp instalado próximo à usina.
Segundo informações disponibilizadas por autoridades e parceiros do projeto, a meta inicial é suprir cerca de 30% da demanda elétrica ao longo dos primeiros anos de operação, com possibilidade de ampliação gradativa.
Especialistas em dessalinização afirmam que a tecnologia por membranas consome menos energia que métodos térmicos, contribuindo para reduzir emissões associadas à produção de água.
Estudos citados por instituições setoriais mencionam reduções que podem superar 40% em projetos que fazem a substituição de processos térmicos por osmose reversa, especialmente quando há apoio de fontes renováveis.

A expansão global da dessalinização também impõe desafios ambientais.
Organizações internacionais estimam que as cerca de 16 mil a 23 mil plantas existentes no mundo produzem cerca de 95 milhões de metros cúbicos de água por dia, volume acompanhado por uma quantidade ainda maior de salmoura concentrada.
Descarte de salmoura e controle ambiental no Golfo
A salmoura gerada possui salinidade aproximadamente duas vezes maior que a da água captada.
Em Al Taweelah, esse efluente é misturado a correntes de água utilizadas em outros processos industriais da região, reduzindo a concentração antes do descarte no Golfo Pérsico.
Difusores instalados em áreas específicas auxiliam na dispersão e seguem parâmetros ambientais definidos pela autoridade reguladora local.
Sensores instalados na área de descarte monitoram salinidade, temperatura e oxigênio dissolvido.
De acordo com os órgãos responsáveis, esses dados subsidiam ajustes operacionais para evitar alterações bruscas no ambiente marinho, principalmente em áreas próximas a manguezais e formações de corais.
Estrutura financeira e operação contínua
O contrato de Al Taweelah segue o modelo em que a concessionária constrói, opera e mantém a planta, enquanto a EWEC compra a água por tarifas acordadas.
Informações divulgadas aos investidores indicam que o projeto utiliza alavancagem financeira superior a 80% em dívida de longo prazo.
A construção mobilizou milhares de trabalhadores e diversos fornecedores internacionais.

Na fase operacional, a usina mantém equipes técnicas especializadas em automação, manutenção e controle de qualidade da água.
Para Abu Dhabi, autoridades apontam que a capacidade adicional reforça a segurança hídrica em um período de crescimento populacional e expansão industrial.
Reservatórios subterrâneos recarregados com água dessalinizada também integram a estratégia de longo prazo do emirado.
Relevância para o Brasil e o Nordeste
O desempenho de Al Taweelah é citado por analistas como referência para países que enfrentam escassez hídrica e têm amplo litoral.
Estudos de mercado projetam expansão significativa da dessalinização nos próximos anos, concentrada em regiões semiáridas.
No Brasil, o projeto Dessal Ceará, em Fortaleza, é apontado pelo governo estadual como a primeira planta de grande porte do país, com capacidade estimada de 1 metro cúbico por segundo (86,4 mil metros cúbicos por dia).
A iniciativa utiliza osmose reversa e prevê reforço ao abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza.
Debates sobre o uso de energia renovável na futura operação seguem em discussão.
Especialistas consultados por órgãos estaduais afirmam que a combinação entre dessalinização e fontes limpas pode reduzir custos operacionais e emissões, tendência observada em empreendimentos do Oriente Médio.
Diante desse cenário, até que ponto projetos de dessalinização com apoio de energia renovável podem ganhar espaço no litoral brasileiro como complemento às fontes tradicionais de abastecimento?

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