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Brasil muda de patamar e atinge pela primeira vez nível de muito alto desenvolvimento humano, mostra IBGE

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 27/05/2026 às 11:26
Atualizado em 27/05/2026 às 11:31
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Indicador inédito coloca o Brasil na faixa mais alta do desenvolvimento humano municipal, mas o avanço perde força quando desigualdades de renda, raça, gênero e território entram no cálculo, revelando diferenças que ainda afastam parte da população dos ganhos registrados no país.

O Brasil alcançou em 2024, pela primeira vez, a faixa de muito alto desenvolvimento humano no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, o IDH-M, ao atingir 0,805 ponto, maior marca da série analisada pelo Pnud, em parceria com a Fundação João Pinheiro e o IBGE.

De acordo com matéria publicada pela Folha de S. Paulo nesta segunda-feira (26), o resultado consta no Radar IDHM, relatório que acompanha a evolução do indicador entre 2012 e 2024. Nesse intervalo, o índice nacional passou de 0,744 para 0,805, avanço que levou o país ao patamar mais elevado da classificação usada no levantamento.

Apesar da melhora no indicador geral, o cálculo ajustado à desigualdade mostra um retrato diferente. Quando entram na conta as perdas associadas a renda, educação, longevidade e condições sociais, o Brasil deixa a faixa de muito alto desenvolvimento humano e aparece em nível médio.

Esse contraste é apresentado pelo relatório como evidência de que a média nacional não traduz, sozinha, as condições vividas por toda a população. O índice ajustado indica que os ganhos em saúde, escolaridade e renda não chegam de forma equivalente a todos os grupos sociais.

IDH-M do Brasil avança, mas desigualdade reduz alcance do resultado

O IDH-M mede três dimensões do desenvolvimento humano: longevidade, educação e renda. A metodologia segue a lógica do IDH global, mas foi adaptada ao contexto brasileiro, o que impede uma comparação direta entre o indicador municipal nacional e o índice usado para comparar países.

Entre 2012 e 2024, houve crescimento nas três dimensões observadas pelo estudo. A educação foi o componente com maior evolução no período, com aumento médio anual de 1,35%, embora tenha registrado queda pontual em 2021, durante os efeitos da pandemia de Covid-19.

Longevidade e renda também avançaram, mas em ritmo menor, com média de 0,31% ao ano. No caso da longevidade, o levantamento informa que o indicador voltou a crescer após as perdas observadas nos anos mais críticos da crise sanitária.

O pior resultado da série de longevidade ocorreu em 2021, segundo o relatório, em razão dos impactos da pandemia. Depois de dois anos consecutivos de queda, em 2020 e 2021, a recuperação começou em 2022 e levou o componente ao maior valor em 2024.

Na dimensão renda, a trajetória foi descrita como oscilante pelo estudo. O relatório relaciona essa variação aos efeitos da crise econômica iniciada em 2015 e, posteriormente, às consequências da pandemia sobre o mercado de trabalho e a renda das famílias.

Desigualdade racial no desenvolvimento humano ainda aparece na série

O Radar IDHM também registra redução da distância entre brancos e negros, mas aponta que a diferença permanece relevante no período analisado. A população negra teve crescimento percentual maior no indicador, embora tenha continuado abaixo do patamar registrado pela população branca.

Entre 2012 e 2024, o IDH-M da população branca passou de 0,804 para 0,851. No mesmo intervalo, o índice da população negra subiu de 0,694 para 0,774, resultado que representa avanço maior em termos proporcionais, mas ainda em nível inferior.

A diferença entre os grupos caiu de 14% para 9% ao longo da série. Mesmo com essa redução, os recortes de raça e gênero apresentados no levantamento mostram que negros e mulheres permanecem em patamares mais baixos em relação a outros grupos.

Pelos dados do estudo, a melhora nacional não se distribui de maneira uniforme entre a população. Grupos historicamente mais vulneráveis seguem com indicadores menores de renda, escolaridade e condições associadas ao desenvolvimento humano, conforme os recortes apresentados pelo Radar IDHM.

IDH-M ajustado à desigualdade muda retrato brasileiro

A diferença entre o IDH-M tradicional e o IDH-M Ajustado à Desigualdade, chamado de IDHMAD, ajuda a explicar por que a média nacional apresenta apenas parte do quadro. Esse indicador incorpora perdas provocadas por desigualdades dentro das próprias dimensões avaliadas.

Pelo IDH-M tradicional, o Brasil chegou ao patamar de muito alto desenvolvimento humano em 2024. Pelo índice ajustado, porém, o país aparece apenas em desenvolvimento humano médio, depois de ter saído da faixa de baixo desenvolvimento em 2012.

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O relatório afirma que o dado de 2024 mostra o quanto o desenvolvimento humano brasileiro permanece distante de uma parcela da população que não se representa pela média nacional. A avaliação é usada no estudo para diferenciar avanço agregado e acesso efetivo às oportunidades.

Outro recorte apresentado é o IDH-M ajustado à renda do trabalho. Nesse indicador, as mulheres aparecem em desvantagem durante todos os anos da série, embora também tenham registrado avanço no período analisado, entre 2012 e 2024.

No período, o índice ajustado dos homens subiu de 0,737 para 0,802. O das mulheres passou de 0,736 para 0,798, resultado próximo ao masculino, mas ainda inferior, em um contexto no qual o estudo aponta diferença persistente ligada à renda do trabalho.

Desenvolvimento humano nos estados mostra distâncias regionais

Todas as 27 unidades da federação chegaram em 2024 às faixas de alto ou muito alto desenvolvimento humano. Apesar desse resultado, apenas nove ficaram acima do índice nacional, todas localizadas nas regiões Sul e Sudeste, segundo os dados apresentados pelo levantamento.

A distribuição dos maiores índices nessas regiões confirma, pelos dados do relatório, a permanência de diferenças entre partes do país. O estudo apresenta variações em expectativa de vida, renda domiciliar per capita e escolaridade da população adulta.

A expectativa de vida ao nascer varia de 74,32 anos no Amapá a 79,75 anos no Distrito Federal. Na renda domiciliar per capita, a distância vai de R$ 482,46 no Maranhão a R$ 1.465,10 no Distrito Federal.

Na educação, o percentual de pessoas com 18 anos ou mais e ensino fundamental completo vai de 59,14% na Paraíba a 83,37% no Distrito Federal. Esses indicadores mostram diferenças entre unidades da federação em dimensões usadas no cálculo do desenvolvimento humano.

Mesmo com a distância entre os resultados estaduais, todas as unidades federativas apresentaram crescimento do IDH-M em relação ao período anterior à pandemia. Os maiores avanços foram registrados em Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte, de acordo com o Radar IDHM.

Renda permanece entre os principais desafios do IDH-M no Brasil

Entre as três dimensões do IDH-M, a renda foi o componente com avanço mais limitado no período analisado. O indicador subiu de 0,456 em 2012 para 0,508 em 2024, evolução inferior à registrada na educação e em ritmo menor que o observado na série geral.

Para Bettina Ferraz Barbosa, coordenadora de Desenvolvimento Humano do Pnud no Brasil, a renda deve ocupar lugar central em um novo ciclo de desenvolvimento. A avaliação é feita a partir da relação entre políticas públicas, mercado de trabalho e setor privado.

Segundo Bettina, a tecnologia social brasileira de crescimento está ancorada em programas de renda mínima e assistência social. A coordenadora afirma que essa estratégia tem limitações porque a renda, diferentemente de saúde e educação, também reage ao comportamento do mercado.

“Essa é uma tecnologia que tem mais falhas, porque se a dimensão educação e a dimensão saúde tem no seu DNA a política pública estrito senso, a dimensão renda também reage ao que acontece no mercado, no setor privado”, disse Bettina.

Na avaliação da coordenadora do Pnud, o país precisa construir um pacto envolvendo poder público, setor privado e sociedade civil. Segundo ela, esse arranjo seria necessário para levar o Brasil a um patamar mais alto de renda e ampliar os efeitos do desenvolvimento humano.

O Radar IDHM mostra que o país atingiu um resultado inédito no indicador geral, mas registra perdas quando a média nacional é ajustada pelas desigualdades de renda, raça, gênero e território. Pelos dados do relatório, essas diferenças seguem interferindo no alcance do desenvolvimento humano.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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