Projeto inovador recicla bitucas, cria massa de celulose, abastece artesãos, reduz custos na construção civil e prova que lixo pode virar solução ambiental e social em larga escala
Pequenas, quase invisíveis na areia ou no asfalto, as bitucas de cigarro estão entre os resíduos mais comuns e mais poluentes do mundo. Presentes em praias, ruas e calçadas, elas costumam passar despercebidas, mas carregam um impacto ambiental significativo.
No litoral norte de São Paulo, um empreendedor decidiu olhar para esse problema de outra forma, apostando na ideia de transformar descarte em matéria-prima, inovação e negócio.
Em Ubatuba, Marcos Poiato comanda uma empresa especializada na reciclagem de bitucas de cigarro. O projeto começou há cerca de 16 anos, após um período intenso de pesquisas e investimentos, e hoje reúne sustentabilidade, educação ambiental e geração de renda.
-
Rede subterrânea de fungos tem 110 quatrilhões de quilômetros de extensão e revela uma infraestrutura invisível maior do que se imaginava
-
Mansão sustentável no Colorado feita com mais de 1.500 pneus reciclados, barro, latas e garrafas tem 414 m², energia solar, sensores de chuva, estábulo com 23 baias e está à venda por US$ 1,3 milhão
-
Uma floresta tropical quase três vezes maior que Paris foi devastada para abastecer uma cadeia de embalagens rotuladas como “carbono neutro”, enquanto uma investigação internacional rastreou a madeira desde áreas desmatadas em Bornéu até fábricas de celulose e produção de caixas usadas por grandes marcas do setor de saúde
-
Mato Grosso acaba de assinar um plano que pode mudar silenciosamente a origem da madeira usada pela indústria e transformar florestas plantadas em peça-chave do abastecimento sustentável até 2040
“Eu descrevo a minha empresa como uma empresa de conceito inovador. A gente trabalha com um resíduo que é complexo e que, por hábito, as pessoas descartam indevidamente no chão”, explica Marcos.
Bitucas de cigarro: Da coleta ao desafio tecnológico
As bitucas podem levar até 15 anos para se decompor e, durante esse tempo, liberam substâncias tóxicas que contaminam o solo, a água e afetam a vida marinha.
Com experiência anterior na indústria farmacêutica, Marcos percebeu que poderia aplicar conhecimento técnico para enfrentar esse problema ambiental.
O primeiro obstáculo foi estruturar a coleta. O empreendedor começou instalando cerca de 150 coletores na cidade onde o projeto teve início.
Com o tempo, a iniciativa ganhou escala. Hoje, são cerca de 9 mil pontos de coleta espalhados por diferentes estados brasileiros, muitos deles em praias, espaços públicos e áreas de grande circulação.
Mas recolher era apenas parte do processo. A grande questão era como tratar o material de forma segura e viável.
A resposta surgiu após Marcos conhecer uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Brasília (UNB), que resultou em uma tecnologia capaz de eliminar as toxinas presentes nas bitucas e reaproveitar o resíduo.
“Foi quando fechamos o ciclo”, resume Thérèse Hofmann, pesquisadora da Universidade de Brasília (UNB), ao explicar a parceria de licenciamento da tecnologia.
Investimento, resultado e novas aplicações
Entre o desenvolvimento do processo e a viabilização do negócio, Marcos investiu cerca de R$ 1 milhão ao longo de seis anos. O esforço deu retorno. Em 2025, a empresa faturou aproximadamente R$ 3 milhões.
Depois de tratadas, as bitucas se transformam em uma massa de celulose, material versátil, sem odor e livre de toxinas.
“Aqui é o resultado da reciclagem. A bituca deixa de ser um plástico poluente e vira celulose, pronta para ser reaproveitada”, explica o empreendedor.
Essa massa é destinada a artesãos, artistas e projetos sociais, que utilizam o material para criar produtos e gerar renda.
O reaproveitamento também alcançou a construção civil. Em Ubatuba, uma pista de skate sustentável foi construída com a celulose reciclada misturada ao concreto.
“O custo final da pista caiu entre 30% e 40%, e ainda reduzimos o impacto ambiental”, conta o pesquisador e skatista George Rotatori, que acompanha o desempenho do material. “É incrível andar de skate sabendo que aquilo poderia estar poluindo praias, ruas e bueiros.”
Além da reciclagem, a empresa investe em educação ambiental, promovendo palestras, oficinas de arte e ações educativas em parceria com prefeituras, ONGs e associações de bairro.
Para a bióloga e educadora Paula Borges, o projeto mostra que sustentabilidade e economia podem caminhar juntas.
“Quando a gente transforma um resíduo tão poluente em matéria-prima, reduz custos, gera trabalho e cria produtos, estamos falando de sustentabilidade real”, afirma.
Para Marcos, a trajetória é marcada por persistência. “Alguns negócios demoram um, dois anos para vingar. O nosso demorou mais. Mas tivemos resiliência, calma e a certeza de que o resultado viria”, diz.
Ele acredita que os efeitos da iniciativa ainda devem se expandir, fortalecendo uma cadeia que une inovação, consciência ambiental e reaproveitamento de resíduos.
Com informações de G1.


Maravilhosa idéia! Merece um prêmio pela coragem e consciência ambiental.
Gostaria muito que viesse pra Europa também essa reciclagem, porque as pessoas fumam muito aqui e ainda tem o mau hábito de jogar no chão as bitucas.
Iniciativa incrível parabéns pela resiliência , imagino quantas bitucas só você já retirou do meio ambiente..