Telosa é a proposta de uma cidade sustentável para até 5 milhões de pessoas, ainda sem terreno definido e com custo estimado acima de US$ 400 bilhões. O plano volta a circular com novas imagens e levanta dúvidas sobre viabilidade, água e governança.
Telosa voltou ao radar como uma das propostas mais ambiciosas de planejamento urbano sustentável já divulgadas por um projeto privado nos Estados Unidos. Idealizada pelo bilionário Marc Lore, a cidade foi apresentada como um modelo do zero que combinaria sustentabilidade ambiental, serviços públicos robustos e um desenho urbano voltado para pessoas.
A promessa é grande, e o número também. A conta estimada para tirar a ideia do papel chega a US$ 400 bilhões, com a meta de alcançar 5 milhões de habitantes ao longo de décadas, em um território que seria escolhido em uma região desértica ou em áreas de terra mais barata.
Apesar do discurso de urgência climática, o próprio projeto ainda depende do passo mais básico: definir onde Telosa seria construída e quem colocaria dinheiro suficiente na mesa. Em publicações de arquitetura que revisitaram o tema em 2025, Telosa aparece explicitamente como um plano conceitual, com renderizações detalhadas, mas sem anúncio de obra iniciada.
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A discussão ganhou força porque Telosa surge em um contexto de megaprojetos urbanos que prometem “reinventar a cidade”. E aí vem a polêmica: faz mais sentido criar uma megacidade verde do zero, ou seria mais eficiente investir esse esforço em cidades que já existem e concentram os problemas reais?
O que é Telosa e por que a proposta virou notícia
Telosa foi anunciada em 2021 como um projeto de “cidade do futuro” idealizado por Marc Lore, conhecido por sua trajetória no comércio eletrônico e por ter ocupado posições executivas relevantes no varejo. Na época, veículos de imprensa nos EUA relataram que ele deixaria funções corporativas para se dedicar, entre outras frentes, à ideia de construir uma cidade.
O masterplan foi desenvolvido com o escritório Bjarke Ingels Group, o BIG, que descreve Telosa como uma visão de cidade capaz de estabelecer um padrão global de vida urbana. A proposta inclui uma área total na casa de 150 mil acres, com crescimento por etapas ao longo de décadas.
Um ponto central da narrativa é que Telosa não seria “mais uma cidade”, e sim um protótipo de urbanismo sustentável. A promessa envolve energia renovável, arquitetura ecológica, mobilidade de baixa emissão e um desenho baseado no conceito de cidade de 15 minutos, em que trabalho, escola e serviços ficam próximos da moradia.
Onde Telosa poderia ser construída e por que isso pesa no projeto
Desde o anúncio, a localização aparece como uma etapa em aberto. Reportagens e análises do período citaram estados do oeste americano e também a região dos Apalaches como possibilidades, justamente por oferecerem áreas extensas e relativamente baratas para um plano desse tamanho.
A indefinição do terreno não é um detalhe burocrático, ela muda todo o cálculo de viabilidade. Em uma proposta para o deserto, a pergunta inevitável é como garantir água, infraestrutura e conforto térmico sem aumentar a pegada ambiental, já que a construção em larga escala costuma exigir enorme volume de materiais, energia e logística.
Além disso, escolher uma área significa entrar em negociações com governos estaduais, comunidades locais, órgãos ambientais e, dependendo do caso, com regras específicas de uso do solo. Esse é um dos motivos pelos quais críticos costumam classificar megacidades planejadas como projetos que podem ficar anos em “modo apresentação”.
Como seria a cidade por dentro segundo as renderizações e o masterplan
No centro do desenho urbano, o BIG destaca a Equitism Tower, um arranha-céu de madeira concebido como marco simbólico e funcional. A torre é apresentada com elementos como armazenamento elevado de água, áreas de cultivo com agricultura aeropônica e cobertura com geração por telhado fotovoltaico.
O desenho também prioriza espaços públicos e áreas verdes integradas, com parques e vegetação nativa distribuídos pelo tecido urbano. A lógica é que o espaço aberto não seja “sobras”, mas parte do sistema de conforto ambiental, mobilidade e convivência.
Na mobilidade, o plano enfatiza que veículos a combustíveis fósseis seriam proibidos dentro dos limites urbanos. Em vez disso, a circulação seria baseada em caminhada, bicicletas, scooters e veículos elétricos autônomos, com opções de transporte coletivo projetadas para reduzir emissões e dependência de carros.
O masterplan também se apoia em uma ideia de resiliência climática, com medidas voltadas para reduzir ilhas de calor e aumentar a permeabilidade do solo. Na prática, a proposta tenta responder à crítica mais óbvia de uma cidade no deserto: como ser “verde” em um ambiente naturalmente hostil a grandes adensamentos urbanos.
Quanto custaria e por que o financiamento é o maior gargalo
Os números divulgados desde 2021 colocam Telosa em um patamar raríssimo. A primeira fase, pensada para abrigar cerca de 50 mil moradores em aproximadamente 1.500 acres, foi estimada em US$ 25 bilhões, com horizonte de chegada de residentes por volta de 2030.
Já o plano completo ultrapassaria US$ 400 bilhões ao longo de décadas, em uma trajetória que teria meta de chegar a milhões de habitantes até meados do século. Esse tipo de cronograma é importante porque ele dilui parte do investimento no tempo, mas também aumenta o risco, já que depende de estabilidade política, econômica e regulatória por muitos anos.
Quanto às fontes de dinheiro, reportagens e análises citam uma mistura de investidores privados, filantropia, incentivos e verbas públicas federais e estaduais, além de subsídios de desenvolvimento econômico. O problema é que, até agora, não há sinal público de uma estrutura financeira consolidada compatível com o tamanho do plano.
Na prática, Telosa precisa resolver um dilema comum a megaprojetos urbanos: renderizações atraem atenção, mas contratos, licenças, infraestrutura e financiamento costumam ser o funil que separa o “conceito” do “canteiro de obras”.
Por que Telosa divide opiniões e o que pode decidir o futuro do plano
A crítica mais recorrente é que criar uma cidade do zero pode ser menos sustentável do que reformar e descarbonizar cidades existentes. O argumento é que a construção em escala monumental tem impacto ambiental significativo, e que problemas urbanos urgentes já estão concentrados onde as pessoas vivem hoje.
Também há o debate político. Telosa promete governança transparente e participação cidadã, mas críticos questionam como isso funcionaria quando o impulso inicial, a visão e parte do poder de coordenação vêm de um grupo privado com enorme capacidade financeira e influência.
Comparações com outros projetos ajudam a entender o cenário. A Toyota, por exemplo, avançou com a Woven City no Japão em uma escala muito menor, com fase inicial concluída e cronogramas de ocupação e testes tecnológicos divulgados oficialmente, o que mostra que “cidades-laboratório” podem sair do papel quando escopo e financiamento são mais controlados.
No caso de Telosa, o desfecho tende a depender de três fatores bem objetivos: anúncio do terreno, acordo político local e um plano de financiamento verificável. Sem isso, a cidade pode continuar existindo principalmente como símbolo, ideia e disputa narrativa sobre o que é, de fato, uma cidade sustentável.
Telosa é visão transformadora ou marketing verde com cara de utopia bilionária? Você acha que projetos assim aceleram soluções ou desviam atenção das cidades reais? Deixe um comentário com sua opinião e diga o que mais te convence, ou te incomoda, nessa proposta.


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